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100% escolheram A Recusa de Papiniano. Sai em 07/09.
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Sófocles Lê para os Juízes
Por volta de 406 a.C., acusado pelo próprio filho de já não reger os próprios bens, o poeta responde lendo em voz alta a peça que estava escrevendo.
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O rolo de papiro sobre o banco de pedra
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Em Atenas, o filho que provasse a senilidade do pai assumia a administração dos bens da família, e o pai perdia o direito de decidir sobre o próprio patrimônio. Por volta de 406 a.C., Iofonte levou Sófocles a juízo exatamente com essa acusação. Repare no que a acusação exigia dos julgadores. Nenhum exame, nenhum laudo, nenhuma medida objetiva do que se passava na cabeça do acusado. Um grupo de homens olhava para um velho de noventa e poucos anos e decidia, por impressão, se ele ainda governava a própria vida. Quem é acusado assim tem dois caminhos óbvios, e os dois falham. Pode protestar, jurar lucidez, enumerar as próprias qualidades diante de quem já formou opinião. Pode atacar quem acusa, expor o interesse do filho na herança e transformar a sala num campo de briga familiar. Nas duas hipóteses o julgador continua sem dado nenhum e decide por simpatia. Existe um terceiro caminho, e ele é raro porque cobra o preço antes. Consiste em trazer para a sala uma peça pronta, feita pelas mãos que estão sendo julgadas, e deixar que ela fale sozinha. Nenhuma defesa verbal alcança o que um trabalho bem-feito demonstra em dois minutos de leitura. Esse caminho tem uma condição que quase nunca é dita em voz alta. Ele só está disponível para quem seguiu trabalhando enquanto a acusação se formava. Quem passou o ano inteiro administrando a própria reputação não tem o que colocar sobre a mesa no dia em que precisa provar alguma coisa. Vale notar quem estava do outro lado da acusação, porque a escolha do acusador muda o peso da cena. Não era um rival de concurso nem um inimigo político, era o filho mais velho, poeta como o pai, que tinha assistido de perto a cada peça escrita dentro de casa e sabia melhor que ninguém o que o velho ainda era capaz de fazer. A acusação foi construída contra alguém que a conhecia por dentro. Sófocles tinha. Levou consigo o rolo da tragédia que vinha escrevendo naqueles meses, pediu licença para ler uma passagem e leu até o fim. Continue lendo ↓
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I A Pedra
I, O rolo debaixo do braço
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Por volta de 406 a.C., em Atenas, Sófocles é acusado pelo filho de já não reger os próprios bens e responde lendo uma passagem da peça que estava escrevendo.
Atenas, por volta de 406 a.C. Sófocles tinha escrito para o teatro durante mais de sessenta anos, vencido as Dionísias dezoito vezes e ocupado cargos públicos entre uma peça e outra. Vivia com Teóris, uma mulher de Sícion, e tinha com ela um filho fora do casamento legítimo, Aríston. Iofonte, o filho mais velho, também era poeta trágico e disputava os mesmos concursos que o pai.
A acusação nasceu do patrimônio. Iofonte alegou que o pai, na idade avançada, já não tinha condições de administrar os bens da casa e pediu que a família fosse posta sob a sua responsabilidade. O procedimento existia no direito ateniense e não era raro entre famílias ricas: quem convencesse os julgadores da incapacidade do pai passava a decidir sobre a fortuna dele ainda em vida.
Sófocles compareceu. Naquele período estava escrevendo Édipo em Colono, a peça em que o velho Édipo, cego e banido, chega ao bosque de Colono e recebe abrigo de Atenas. Colono era o demo onde Sófocles tinha nascido, e a passagem que descrevia o lugar acabara de ser composta.
Diante dos julgadores, ele não fez discurso sobre a própria lucidez. Desenrolou o papiro e leu em voz alta o canto do coro sobre Colono, a descrição do bosque de loureiro e oliveira, o narciso e o açafrão, os cavalos e o rouxinol. Terminada a leitura, perguntou se aquilo parecia obra de um homem incapaz.
A escolha da passagem tinha cálculo dentro. Ele poderia ter lido qualquer trecho de qualquer peça do repertório antigo, e o repertório era vasto. Leu o canto que descrevia o bairro onde nascera, escrito naquele ano, sobre o velho expulso de casa que encontra abrigo justo em Atenas. Os julgadores estavam ouvindo, ao mesmo tempo, a prova da lucidez do autor e o retrato exato da situação em que ele se encontrava.
Cícero, que registrou o episódio um século e meio depois, conta que os julgadores absolveram Sófocles ali mesmo, por sentença. Nenhum outro argumento foi necessário, e o processo terminou no dia em que começou.
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“Diz-se que, tendo lido aos juízes a tragédia que trazia nas mãos, ele foi absolvido pela sentença deles.”
Cícero, Cato Maior de Senectute, VII, 22, 44 a.C.
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Édipo em Colono foi encenada depois, por um neto homônimo de Sófocles, e o canto sobre o bosque continua sendo a passagem mais citada da tragédia grega sobre a paisagem ática. Iofonte seguiu escrevendo e venceu concursos, sem que nada mais se saiba do processo além do que Cícero registrou.
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II O Princípio
II, A obra responde pelo autor
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Argumento sobre a própria capacidade convence pouco; trabalho recente feito à vista de todos encerra a discussão.
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A cena costuma ser lida como anedota de velho esperto, e a leitura deixa de fora o mecanismo que a torna útil. Sófocles não venceu por eloquência. Venceu porque tinha, naquele mês, um objeto acabado que só um homem no pleno uso das faculdades poderia ter produzido.
Vale separar as duas moedas em jogo. Existe a afirmação sobre si mesmo, que qualquer pessoa pode fazer, com qualquer grau de sinceridade, e que o interlocutor precisa aceitar ou recusar no escuro. E existe a evidência produzida, que o interlocutor examina com os próprios olhos e que independe de acreditar em quem a apresenta. A primeira custa nada e vale nada. A segunda custa meses de trabalho e dispensa o resto.
No trabalho, o teste chega em formato bem prosaico. Você é passado para trás numa promoção porque alguém decidiu que seu tipo de perfil já não acompanha o ritmo. Um cliente novo desconfia da sua experiência porque outro fornecedor plantou a dúvida. Um sócio sugere que você não entende mais do assunto como entendia. A resposta que muda o placar não é a lista de credenciais, é a entrega recente que a pessoa consegue abrir e ler.
Fora do trabalho, o desenho se repete com outra temperatura. Um parente afirma que você é incapaz de manter compromisso. Um amigo sugere que você desistiu de cuidar da saúde. Alguém decide que você não tem disciplina para levar um projeto ao fim. O impulso é jurar o contrário e listar intenções. Quem tem seis meses de registro concreto, o treino anotado, o texto pronto, a conta que fechou no azul, não precisa jurar nada.
Repare também no efeito que a evidência produz sobre quem acusa. Diante de uma defesa falada, o acusador tem sempre uma réplica pronta, porque palavra se responde com palavra e a sala vira disputa de versão. Diante de um trabalho acabado, a réplica exigiria demolir o próprio objeto na frente de todos, e poucos acusadores têm apetite para isso. A discussão morre por falta de terreno.
Existe um limite honesto na tese, e ele precisa aparecer. Trabalho recente resolve a dúvida sobre capacidade, não resolve a dúvida sobre caráter. Se a acusação for de má-fé, nenhuma peça bem escrita responde por você, e tentar responder com produtividade a uma questão moral costuma piorar a situação. Sófocles foi acusado de incapacidade, e por isso a peça bastou.
E há o caso que a cena não cobre. Às vezes a acusação está certa. A pessoa que exige ser julgada pela reputação antiga, e nunca pelo que produziu nos últimos doze meses, costuma estar escondendo a ausência de produção. O teste é desconfortável e leva dez segundos: pense no que você entregou nos últimos noventa dias e veja se caberia numa leitura em voz alta diante de quem duvida de você.
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