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Rondon e a Ordem de Não Revidar às Flechas

Mato Grosso, 1907 a 1915: sob flechas, fome e febre, Cândido Rondon manteve a ordem de não atirar nos povos do caminho.

Poste de telégrafo na mata, com uma flecha cravada ao pé.

Mato Grosso, 1907: a linha do telégrafo

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Soldado atacado revida. Em 1907, no noroeste do Mato Grosso, um oficial do Exército brasileiro proibiu a própria tropa de revidar, e sustentou a proibição por oito anos.

A tropa abria picada para um fio de cobre. O governo do presidente Afonso Pena queria ligar Cuiabá às margens do rio Madeira por telégrafo, atravessando serras, cerrado e floresta que nenhum mapa oficial desenhava direito.

Os homens carregavam postes, rolos de arame, machados e fuzis. Andavam semanas sem ver casa. A comida vinha em lombo de burro e acabava antes do previsto; quando acabava, comia-se palmito, mel do mato e o que a caça desse.

A febre vinha junto. Malária e beribéri (doença da falta de vitamina B1, que incha as pernas e enfraquece o coração) derrubavam soldados em fila. Alguns ficaram enterrados à beira da picada, com uma cruz de galho por cima.

E havia os donos da terra. Os nambiquaras, povo do chapadão dos Parecis, viam a coluna entrar armada no território deles e respondiam como sabiam: flecha disparada do mato, sem aviso, contra quem vinha na frente.

Os ataques não tinham hora. Um soldado buscava água no córrego e voltava com uma flecha na coxa. Outro ficava de sentinela à noite e ouvia passos em volta do acampamento até o dia clarear. Mulas apareciam flechadas na pastagem, e a picada aberta de manhã amanhecia com galhos cruzados, sinal de que alguém mandava parar.

Pela lógica de qualquer quartel, a resposta estava pronta. Os soldados tinham munição, treino e medo. Bastava uma ordem para limpar a trilha a tiro, e muitos esperavam por ela.

A ordem veio diferente, e o oficial a repetiu até o fim da obra, mesmo depois de uma flecha acertar o próprio peito. Quem ele era, de onde tirou a regra e quanto ela custou à tropa, a próxima faixa conta desde a vila onde ele nasceu.

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I  A Pedra

A flecha na correia do fuzil

A resposta de ontem

Quanto Mill pagou a Carlyle pelo manuscrito queimado?

Mill mandou 200 libras, quase o custo de um ano inteiro da casa de Cheyne Row. Carlyle recusou metade e ficou com 100, a soma que calculou ter gasto para se manter nos meses de escrita perdidos, como registram as cartas dele de março de 1835.

Cândido Mariano da Silva Rondon nasceu em 5 de maio de 1865 em Mimoso, vilarejo do Mato Grosso. Perdeu o pai antes de nascer e a mãe aos dois anos. Foi criado pelo avô e depois por um tio em Cuiabá. Pelo lado materno, descendia de indígenas terenas e bororos.

Aos 16 anos foi para a capital do Império estudar na Escola Militar da Praia Vermelha. Lá conheceu o positivismo, a doutrina do filósofo francês Auguste Comte, que pregava o progresso pela ciência e via os povos indígenas como nações livres, com direito à própria terra.

Engenheiro militar, passou a juventude estendendo fio de telégrafo pelo sertão. Em 1907 recebeu a missão maior: chefiar a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas, que a imprensa logo apelidou de Comissão Rondon.

Foi nessa obra, em território nambiquara, que a flecha chegou. Rondon ia à frente da coluna quando o disparo saiu do mato. A ponta bateu na bandoleira de couro (a correia que prende o fuzil ao ombro) e ficou presa ali. Por poucos centímetros, não entrou no peito.

Os soldados levantaram as armas. Rondon mandou baixar. Os relatos da comissão contam que ele autorizou só tiros para o alto, para assustar, e ordenou o recuo. Ninguém atirou contra o mato.

A regra já existia por escrito, e ele a repetia aos oficiais nos acampamentos:

“Morrer, se preciso for; matar, nunca.”

Cândido Rondon, instrução à Comissão Rondon, década de 1910

O preço apareceu em 1909, na marcha mais longa da comissão. A coluna saiu de Tapirapuã em maio e só alcançou o rio Madeira no fim de dezembro. A comida acabou no caminho, a febre derrubou dezenas, e houve homens enterrados pela picada sem ver o rio.

Rondon trocou a segurança da tropa pela vida de quem atirava nela, e assumiu a troca por escrito.

Nenhum nambiquara foi caçado como vingança. A comissão deixava nas trilhas presentes pendurados nos galhos: facões, machados, miçangas, panos. Era o recado de quem queria passar sem tomar.

Com o tempo, os presentes passaram a sumir dos galhos e as flechas rarearam. Os primeiros encontros pacíficos com grupos nambiquaras aconteceram ainda durante a obra, sem um tiro disparado contra eles pela coluna.

Rondon anotava tudo em cadernetas: a altitude de cada serra, o nome de cada rio, as palavras nambiquaras que os intérpretes conseguiam aprender. Queria que o próximo a passar por ali chegasse falando, e não atirando.

A linha ficou pronta em 1915. Ligou Cuiabá ao Madeira, pôs no mapa rios que ninguém tinha medido e deixou estações de telégrafo onde antes só havia mata.

 
 

II  O Princípio

A regra cobra o preço

Uma regra só existe quando cobra um preço de quem a cumpre. Proibir o revide num dia calmo não prova nada. Rondon manteve a proibição com flecha cravada no couro e soldado enterrado à beira da trilha.

O princípio é velho entre os estoicos. O imperador Marco Aurélio, que passou anos em campanha militar na fronteira do Danúbio, deixou anotado no diário que nunca pensou em publicar:

“A melhor vingança é não se tornar igual a quem causou o dano.”

Marco Aurélio, Meditações, livro VI, c. 170

Para Rondon, revidar significava virar o invasor que os nambiquaras já enxergavam na coluna. A flecha era a leitura deles; o tiro só confirmaria a leitura.

Em 1910 a regra virou política de Estado. O governo criou o Serviço de Proteção aos Índios, o SPI, e entregou a direção a Rondon. Pela primeira vez, um decreto federal dizia que os povos indígenas tinham direito à terra onde viviam.

Quem revida sob ataque perde a única razão de estar certo.

Na manhã de quem trabalha, a flecha tem outra forma. Um colega desmonta o seu projeto em reunião, diante do chefe. O revide já está pronto na garganta, afiado e justo. A ordem de Rondon pede outra resposta: falar do conteúdo, nunca da pessoa, e deixar o tom dele sem eco.

Em casa, a flecha vem do filho adolescente que grita uma ofensa na porta do quarto. Gritar de volta ensina a ele que o grito funciona. Baixar a voz e manter a regra (sem ofensa nesta casa, nem a dele nem a sua) ensina a regra.

No trânsito, ela chega pela buzina e pelo gesto do motorista que fechou você. Acelerar atrás dele é entrar na guerra de outro. Deixar passar custa o orgulho de alguns segundos e devolve o seu dia inteiro.

A regra tem limite, e a biografia do próprio Rondon mostra onde. O fio que ele estendeu abriu caminho para seringueiros e garimpeiros que não seguiam lema nenhum. E o SPI apodreceu décadas depois: o Relatório Figueiredo, produzido pelo Ministério do Interior em 1967, listou crimes de funcionários do órgão contra os povos que deveriam proteger. O SPI foi extinto naquele ano e deu lugar à Funai.

A ordem de não revidar valia enquanto alguém a carregava por dentro. Quando virou só papel de repartição, perdeu a força.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  A Forja do Dia

Uma flecha sem resposta

Ninguém aqui vai atravessar o chapadão dos Parecis com um rolo de arame nas costas. Mas hoje alguém vai disparar uma flecha: um email seco, uma cobrança injusta, uma piada com endereço certo. A prática cabe em 24 horas e treina o gesto de Rondon, o de baixar a arma.

1. De manhã, conte as flechas: anote no celular cada provocação que chegar até o almoço, sem responder a nenhuma. Só o registro: quem mandou, o que disse e qual revide apareceu na sua cabeça.

2. À tarde, baixe a arma uma vez: escolha a flecha mais forte da lista e responda só ao fato, em frase curta, sem ironia e sem devolver o tom. Uma vez só, de propósito.

3. À noite, escreva uma linha: o que aconteceu depois da resposta. O outro subiu ou desceu o tom? O assunto andou?

A contagem da manhã repete o hábito da coluna. Rondon sabia de onde vinham as flechas antes de decidir o destino dos fuzis. Contar separa o ataque da sua reação.

A resposta da tarde repete a correia de couro. A flecha acertou, doeu, e ainda assim a ordem foi baixar as armas. Responder ao fato é o seu tiro para o alto.

A linha da noite repete os presentes nos galhos. A comissão não sabia se os facões seriam aceitos; pendurava e voltava para conferir. O seu registro faz a mesma conferência.

Pense num mestre de obras que recebe do engenheiro, por mensagem, a acusação de ter atrasado a laje. O atraso veio da chuva e do concreto que chegou tarde. Ele responde com as datas das entregas e a foto do caminhão, sem uma palavra sobre o tom. À noite, a linha dele diz: o engenheiro pediu desculpas e remarcou a concretagem.

A prática não pede que você aceite agressão física nem abuso que se repete. Rondon recuava a tropa; não ficava parado sob as flechas. Baixar a arma inclui sair do alcance e, quando o ataque é crime, chamar quem tem o dever de agir.

Responda ao fato, deixe o tom sem eco e registre o que veio depois.

“Qual flecha de hoje você vai deixar sem revide, e o que vai responder no lugar dela?”

Rondon viveu até os 92 anos.

★ RARO

🔒

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Quiz da edição

Segundo o texto, onde a flecha disparada contra Rondon ficou presa, evitando que atingisse o peito dele?

ANo capote de lã sobre os ombros
BNa bolsa de couro onde guardava as cadernetas
CNa bandoleira de couro que prendia o fuzil ao ombro
DNo cinto de munição na cintura

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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