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Primo Levi e os Versos de Dante que Faltaram em 1944

Monowitz, 1944: indo buscar a sopa, Levi recita a Divina Comédia a um colega e descobre o buraco na própria memória.

Panela de ferro sobre duas varas ao lado de um livro aberto.

Monowitz, 1944: o canto de Ulisses

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No Lager (o campo de concentração nazista), quem gasta saliva gasta força. Num dia de 1944, Primo Levi gastou a dele recitando Dante.

Levi era um químico de Turim, judeu, de 24 anos. Fora preso em dezembro de 1943 nas montanhas do Vale de Aosta, com um grupo de partisans (a resistência armada contra o fascismo), e deportado em fevereiro de 1944 para Monowitz, o campo de trabalho de Auschwitz que servia à fábrica de borracha sintética da IG Farben.

Lá dentro, ele era o número 174517, tatuado no antebraço esquerdo. Trabalhava no Kommando (a turma de trabalho) de química, que naquela semana raspava a ferrugem do interior de um tanque de gasolina enterrado.

O escrevente da turma era Jean Samuel, estudante alsaciano, o mais novo do grupo. Os outros o chamavam de Pikolo, o apelido do mensageiro que varre o barracão, conta os presos e leva recados ao chefe.

Pikolo tinha um privilégio raro: escolher quem o acompanhava na busca da sopa do meio-dia. A panela pesava uns 50 quilos e voltava da cozinha até a obra pendurada em duas varas, nos ombros de dois presos.

Naquele dia ele escolheu Levi. A caminhada, ida e volta, levava perto de uma hora, e a ida era sem peso.

Jean queria aprender italiano. Levi tinha só aquela hora e nenhum livro. Puxou da memória o que tinha estudado no liceu: o canto XXVI do Inferno, aquele em que Ulisses conta como levou os companheiros além das Colunas de Hércules, o limite do mundo conhecido.

Começou bem. Explicou palavra por palavra, traduziu para o francês, apontou as rimas. Até que, no meio do canto, a memória abriu um buraco. Os versos sumiram justamente onde Ulisses fala aos companheiros e onde a viagem toma o rumo final.

Levi ficou parado no caminho, com a sopa esperando e o tempo correndo. O que ele perdeu, o que recuperou e o que tentou dizer a Jean antes de chegar à cozinha, a seção I reconstitui.

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I  A Pedra

Uma hora até a panela

Primo Levi nasceu em Turim, em 31 de julho de 1919, e se formou em química em 1941, sob as leis raciais que barravam judeus na universidade. Contou o episódio de Pikolo no capítulo 11 de É Isto um Homem?, publicado em 1947.

O texto de Dante que ele tentou ensinar narra o último voo de Ulisses. Velho, de volta a Ítaca, o herói não aguenta a vida parada. Reúne os poucos companheiros que sobraram e parte para o oeste, rumo ao mar que nenhum homem vivo tinha navegado.

Levi recitou o começo sem tropeço: “Lo maggior corno della fiamma antica” (a ponta maior da chama antiga). No Inferno de Dante, Ulisses fala de dentro de uma língua de fogo, castigado pela astúcia do cavalo de Troia.

Depois veio o primeiro tropeço. Ele lembrava o verso “Ma misi me per l'alto mare aperto” (mas me lancei no alto mar aberto) e se deteve na palavra “misi”. Explicou a Jean que aquele “me lancei” é mais forte do que “parti”: é jogar-se, atirar o corpo para além de uma barreira.

Em seguida, a memória cedeu de vez. Levi sabia o começo da fala e sabia o naufrágio do final. O miolo, os versos que ligam o discurso aos companheiros ao naufrágio, tinha virado névoa.

Ele escreveu depois que daria a sopa daquele dia para saber ligar o verso “non ne avevo alcuna” (não tinha nenhuma) ao final do canto. A sopa era a única refeição quente de um prisioneiro, e ele a oferecia em troca de três ou quatro linhas.

Num campo onde a sopa decidia quem resistia, Levi a poria na balança por um verso.

Então, uma parte voltou. Dante faz Ulisses convencer os companheiros com três versos curtos, que Levi recuperou inteiros e recitou parado, como se fossem novidade para ele também.

Disse a Jean que prestasse atenção, que abrisse a cabeça. Era urgente que o francês entendesse aquele “come altrui piacque” (como a outro aprouve), a linha em que o mar se fecha sobre o navio porque assim quis alguém acima dos homens.

Levi teve uma intuição ali, no barro, e tentou passá-la adiante: talvez o motivo de estarem naquele campo, a razão do destino deles, estivesse dentro daqueles versos. Ele mesmo admite no livro que não conseguiu formular a ideia por inteiro.

Chegaram à fila da cozinha antes que ele terminasse. Ao redor, a multidão esfarrapada se apertava com as panelas, e um funcionário gritava o cardápio em várias línguas.

Jean Samuel sobreviveu ao campo. Voltou para a Alsácia, seguiu carreira de professor e manteve com Levi cartas e visitas depois da guerra. Morreu em 2010, em Estrasburgo, e publicou as próprias memórias do Lager.

 
 

II  O Princípio

O verso como ração

Dante escreveu o canto XXVI por volta de 1314, exilado de Florença e condenado à fogueira caso voltasse. O discurso de Ulisses é curto, quase uma ordem militar, e mira o que separa a pessoa do gado:

“Considerai a vossa origem: não fostes feitos para viver como animais, mas para seguir virtude e conhecimento.”

Dante Alighieri, Inferno, canto XXVI, c. 1314

No original, a última linha diz “ma per seguir virtute e canoscenza”. Levi tinha diante dele homens reduzidos a fome, frio e número, e um verso de seiscentos anos dizendo que nenhum deles nascera para aquilo.

Sobre a sensação de ouvir a passagem ali, ele deixou a frase mais conhecida do capítulo:

“Como se eu também ouvisse pela primeira vez: como um toque de trombeta, como a voz de Deus. Por um momento esqueci quem sou e onde estou.”

Primo Levi, É Isto um Homem?, 1947

O que o campo tirava primeiro era o tempo próprio. O preso acordava com o gongo, marchava com a banda, comia em fila. Pensar uma frase inteira, com começo e fim, era um luxo que a fadiga apagava.

A memória de um texto decorado cabia no único lugar que os guardas não revistavam. Levi não tinha papel, mas tinha os tercetos (estrofes de três versos) que o liceu de Turim o obrigara a decorar.

Os estoicos já pensavam assim. Sêneca, nas Cartas a Lucílio, escritas por volta do ano 65, aconselha guardar a cada dia uma frase de um autor e levá-la consigo, ruminando, como alimento para o resto do dia. Levi seguiu a receita sem saber, num lugar que Sêneca não imaginou.

O que se sabe de cor viaja junto quando tudo o mais fica no portão.

O buraco na memória também ensinou. Levi percebeu que a lição do canto estava justamente nas linhas que ele não alcançava, as que ligam a coragem ao preço. Saber o começo e o fim não bastava: o miolo era o argumento.

Por esse buraco, ele entendeu tarde que tinha decorado o poema como prova escolar, sem ter digerido a passagem que importava. No barro de Monowitz, a passagem que ele precisava era justamente aquela que tinha tratado como decoreba.

A distância entre ler e saber ficou exposta ali, numa caminhada de uma hora. Os versos que estavam inteiros o sustentaram; os que estavam furados o deixaram mudo diante do amigo.

 

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III  A Forja do Dia

Os versos que você sabe sem olhar

Você não vai buscar sopa num campo. Mas tem dias em que o celular está longe, a conversa aperta e só sobra o que está guardado na cabeça. A pergunta de Monowitz é simples: o que você sabe sem consultar?

1. De manhã, escolha 3 linhas: um trecho curto de um livro que você respeita, poema, carta ou frase de um estoico. Copie à mão num papel.

2. À tarde, recite sem olhar: numa caminhada ou na fila, diga o trecho para si mesmo. Marque onde travou. O furo mostra o que você ainda não entendeu.

3. À noite, ensine a alguém: explique o trecho a uma pessoa da casa, palavra por palavra, como Levi fez com Jean. Quem ensina descobre o próprio buraco.

O primeiro passo copia o liceu de Turim. O canto que salvou aquela hora tinha sido decorado anos antes, por obrigação, sem plateia.

O segundo copia o buraco no caminho. Levi só descobriu a falha porque tentou recitar sem livro, e a falha estava no centro do argumento.

O terceiro copia a urgência com Pikolo. Ao tentar explicar a outra pessoa, Levi enxergou uma ideia que não tinha visto sozinho.

Um caso mostra a sequência. Um contador de 47 anos perdeu o emprego e passou três meses em entrevistas que não davam em nada. Decidiu decorar uma carta de Sêneca por semana, trecho curto, recitado no ônibus.

Na terceira semana, travou sempre no mesmo verso, sobre não sofrer antes da hora. Explicou o trecho à filha de 15 anos e só então percebeu que pulava a frase que falava dele. Na entrevista seguinte, chegou sem ensaiar desculpas pelo intervalo.

O método tem limite. Um poema na cabeça não alimenta, não aquece e não abre portão. Levi sobreviveu por acaso e por escarlatina, que o deixou na enfermaria quando os guardas evacuaram o campo em janeiro de 1945. Dante não o salvou.

E memória falha. Decorar não protege contra a confusão do cansaço, da doença ou da idade. A prática vale para os dias comuns, não como amuleto.

Guarde de cor o trecho que você precisaria num dia sem livro.

“Que verso você conseguiria recitar hoje, sem olhar, se tudo o mais fosse tirado?”

A sopa era de couve e nabo.

 
 
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Qual número foi tatuado no antebraço esquerdo de Primo Levi quando ele chegou a Monowitz?

A174517
B141517
C175417
D147517

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