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Primo Levi nasceu em Turim, em 31 de julho de 1919, e se formou em química em 1941, sob as leis raciais que barravam judeus na universidade. Contou o episódio de Pikolo no capítulo 11 de É Isto um Homem?, publicado em 1947.
O texto de Dante que ele tentou ensinar narra o último voo de Ulisses. Velho, de volta a Ítaca, o herói não aguenta a vida parada. Reúne os poucos companheiros que sobraram e parte para o oeste, rumo ao mar que nenhum homem vivo tinha navegado.
Levi recitou o começo sem tropeço: “Lo maggior corno della fiamma antica” (a ponta maior da chama antiga). No Inferno de Dante, Ulisses fala de dentro de uma língua de fogo, castigado pela astúcia do cavalo de Troia.
Depois veio o primeiro tropeço. Ele lembrava o verso “Ma misi me per l'alto mare aperto” (mas me lancei no alto mar aberto) e se deteve na palavra “misi”. Explicou a Jean que aquele “me lancei” é mais forte do que “parti”: é jogar-se, atirar o corpo para além de uma barreira.
Em seguida, a memória cedeu de vez. Levi sabia o começo da fala e sabia o naufrágio do final. O miolo, os versos que ligam o discurso aos companheiros ao naufrágio, tinha virado névoa.
Ele escreveu depois que daria a sopa daquele dia para saber ligar o verso “non ne avevo alcuna” (não tinha nenhuma) ao final do canto. A sopa era a única refeição quente de um prisioneiro, e ele a oferecia em troca de três ou quatro linhas.
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Num campo onde a sopa decidia quem resistia, Levi a poria na balança por um verso.
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Então, uma parte voltou. Dante faz Ulisses convencer os companheiros com três versos curtos, que Levi recuperou inteiros e recitou parado, como se fossem novidade para ele também.
Disse a Jean que prestasse atenção, que abrisse a cabeça. Era urgente que o francês entendesse aquele “come altrui piacque” (como a outro aprouve), a linha em que o mar se fecha sobre o navio porque assim quis alguém acima dos homens.
Levi teve uma intuição ali, no barro, e tentou passá-la adiante: talvez o motivo de estarem naquele campo, a razão do destino deles, estivesse dentro daqueles versos. Ele mesmo admite no livro que não conseguiu formular a ideia por inteiro.
Chegaram à fila da cozinha antes que ele terminasse. Ao redor, a multidão esfarrapada se apertava com as panelas, e um funcionário gritava o cardápio em várias línguas.
Jean Samuel sobreviveu ao campo. Voltou para a Alsácia, seguiu carreira de professor e manteve com Levi cartas e visitas depois da guerra. Morreu em 2010, em Estrasburgo, e publicou as próprias memórias do Lager.
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