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A Pedra do Dia
Posidônio Ministra a Aula Marcada Mesmo Curvado por um Ataque de Gota Diante de Pompeu e Ensina que a Dor Dói o Quanto Quiser Sem Nunca Ser Admitida Como um Mal
Em Rodes, por volta de 62 a.C., o general Pompeu passa para visitar o velho estoico Posidônio e o encontra acamado por um ataque agudo de gota, mas em vez de dispensar o homem mais poderoso de Roma o filósofo insiste em ministrar a aula marcada e, a cada pontada, declara que a dor pode doer o quanto quiser mas jamais será admitida como um mal, provando que o corpo se revolta sem que a mente entregue o veredito
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| I | A PedraCurvado pela dor, ele deu a aula |
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Por volta de 62 a.C., o general Pompeu passou por Rodes só para ouvir o velho Posidônio e encontrou o estoico acamado por uma crise aguda de gota. Veja por que, em vez de dispensar o homem mais poderoso de Roma, ele deu a aula marcada deitado e, a cada pontada, declarou em voz alta que a dor podia doer o quanto quisesse mas jamais seria admitida como um mal, mostrando que o corpo se revolta sem que a mente entregue o veredito.
Por volta de 62 a.C., voltando das guerras no Oriente, o general Pompeu, o homem mais poderoso de Roma naquele momento, fez questão de passar pela ilha de Rodes só para ouvir uma aula do velho Posidônio, o estoico mais respeitado do mundo grego. Chegou à porta do filósofo esperando encontrar o mestre de pé, pronto para receber o comandante das legiões, e em vez disso encontrou um homem acamado, torcido na cama por um ataque agudo de gota, uma inflamação que ferroa as juntas como se cravassem pregos em brasa dentro dos ossos.
A gota não é uma dor educada. Ela chega em crises, incha a articulação, deixa a pele quente e tão sensível que o simples peso de um lençol sobre o pé já é insuportável. Naquele dia ela tinha derrubado Posidônio bem na hora marcada para a aula, e qualquer anfitrião teria motivo de sobra para dispensar a visita. Ninguém no mundo cobraria explicação de um velho doente que mandasse avisar ao general que hoje não daria, que voltasse outro dia, que o corpo não estava colaborando.
Posidônio fez o contrário. Recusou-se a dispensar Pompeu e recusou-se a cancelar a aula. Mandou que o general entrasse, sentasse, e ali mesmo, deitado, com o corpo em pedaços, começou a ensinar o tema que tinha para ensinar. A voz saía firme de um corpo que não estava firme em nada. E o assunto, por ironia ou por escolha deliberada, era exatamente o bem e o mal, o que de fato merece ser chamado de ruim na vida de um homem.
No meio da exposição, a gota atacava. Vinha a pontada, o corpo se contorcia, o rosto se fechava, a respiração travava. E toda vez que a dor subia ao ponto de interromper a fala, o velho parava, encarava a própria dor como quem encara um adversário de frente e dizia em voz alta, para que Pompeu e todos ouvissem: não adianta nada, dor. Por mais que você me incomode, por mais que aperte, eu jamais vou admitir que você seja um mal. E então retomava a aula do ponto exato onde tinha parado.
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A dor apertava a garganta dele. O veredito sobre ela continuou sendo dele. |
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Repare no que ele não disse. Não disse que não sentia. Não disse que a gota era leve, que a pontada era pequena, que estava tudo bem. O corpo dele gritava a verdade na frente do homem mais poderoso de Roma, e ele não escondeu o grito. O que ele negou foi outra coisa, mais funda: a sentença de que aquela dor, por doer, tivesse o direito de ser chamada de mal, de vencer o dia, de decidir se a aula aconteceria ou não. A dor mandava no corpo. O veredito continuava com a mente. E a mente não assinou.
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| II | O PrincípioA dor dói, o veredito é seu |
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Posidônio separou a sensação bruta da dor do juízo de que ela é um mal, e a aula dada de cama foi a prova de que o corpo pode se revoltar por inteiro sem que a mente entregue o veredito, porque a pontada chega sem pedir licença mas a sentença de que aquilo é ruim continua sendo uma assinatura que só você pode dar. |
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O erro comum é achar que existem só dois jeitos de lidar com uma dor forte. Ou você se faz de duro, aperta os dentes e finge que não dói nada, como se sentir fosse fraqueza. Ou você deixa a dor tomar conta, decreta que aquilo é insuportável e para tudo, entrega o dia, larga o que precisava ser feito. O primeiro caminho mente sobre o corpo. O segundo entrega o comando para o corpo. Os dois erram no mesmo ponto, só que por lados opostos.
Posidônio recusou os dois de uma vez. Não fingiu que a gota era leve, o corpo dele mostrava a olho nu que não era. E também não deixou a dor decidir se a aula valia a pena, se o dia estava perdido, se aquilo era um mal grande o bastante para justificar largar tudo. Sentiu por inteiro e, no mesmo instante, se recusou a assinar o veredito que a dor queria arrancar dele. Doeu de verdade. E de verdade não foi chamado de mal. |
O corpo se revolta sozinho. O veredito só passa se você assinar. |
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Traga essa régua para o seu tamanho. Você quase nunca escolhe a pontada. A dor física chega, a notícia ruim chega, o cansaço chega, e nada disso pede a sua autorização para aparecer. O que ainda passa pelas suas mãos é o segundo passo, o juízo que você cola em cima da sensação. Uma coisa é dizer aquilo dói. Outra bem diferente é dizer aquilo é um mal, aquilo arruinou o meu dia, aquilo é insuportável e por causa dele eu não consigo fazer mais nada. A primeira frase é um fato do corpo. A segunda é uma sentença da mente, e a sentença é sua. |
Repare na armadilha que se arma nesse ponto. O corpo é rápido e barulhento, e a mente tende a assinar no automático tudo o que ele grita. A pontada vem e, antes de qualquer pensamento, já saiu de dentro de você o veredito de que o dia está estragado, de que nada mais vai render, de que aquilo é grande demais para carregar. A dor não pediu tanto. Foi você quem entregou a caneta sem perceber. E, uma vez assinada, a sentença cobra caro, porque transforma um desconforto do corpo num desastre da alma. |
Existe a tentação de ler a firmeza de Posidônio como insensibilidade, como se um homem capaz de dar aula gemendo de dor fosse um sujeito de pedra que não sente nada. É o contrário exato. Ele sentia tudo, e por sentir tudo é que a cena tem peso. A força dele nunca esteve em não sentir a gota. Esteve em sentir a gota inteira e, ainda assim, guardar para si o poder de dizer o que aquela dor era e o que ela não era. O corpo ferrava. A mente é que dava o nome. E o nome que ele se recusou a dar foi o de mal. |
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| III | A Forja do DiaSentir a dor sem lhe dar o veredito |
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Manhã: escolha de véspera uma dor que provavelmente vai bater hoje, uma cólica, uma enxaqueca, um cansaço que já chega no talo, uma frustração previsível, e treine a separação antes que ela chegue. Diga em voz alta: quando a pontada vier, ela vai doer, e eu não vou fingir que não dói. Mas a sentença de que aquilo é um mal, de que estragou o meu dia, de que me tira o comando, essa eu não assino no automático. O corpo pode se revoltar. A caneta do veredito fica comigo.
Tarde: no instante em que a dor bater de verdade, uma pontada física, uma notícia ruim, um aperto no peito, faça a pausa de Posidônio antes de reagir. Separe as duas frases na sua cabeça: aquilo dói, que é fato, de aquilo é um mal insuportável e por causa dele eu paro tudo, que é veredito. Sinta a primeira por inteiro, sem esconder. E, diante da segunda, pergunte: eu preciso mesmo assinar essa sentença agora, ou a dor está só me empurrando a caneta? Segure a assinatura e continue o que estava fazendo.
Noite: revise um momento do dia em que a dor mandou e você obedeceu no automático, largou uma tarefa, estragou o humor de todo mundo, decretou o dia perdido por causa de um desconforto que passou depois. Escreva numa linha só o que teria mudado se você tivesse sentido a mesma dor sem lhe dar o veredito de mal, se tivesse deixado o corpo se revoltar e mantido a mente firme no comando. Treinar essa separação todos os dias é o que impede a próxima pontada de sequestrar a próxima hora.
"Isto dói de verdade, ou eu já assinei que isto é um mal?"
Uma pedra. Hoje.
A muralha cresce uma fileira.
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