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100% escolheram O Fingimento que Eleazar Recusou. Sai em 19/09.
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Pítaco Solta o Ferreiro que Cime Entregou Amarrado
Em Mitilene, por volta de 580 a.C., a cidade de Cime mandou o culpado ao pai da vítima e recebeu de volta um homem livre.
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O machado largado sobre a bancada
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Pai de filho assassinado cobra a cabeça do culpado. Em Mitilene, na ilha grega de Lesbos, por volta de 580 a.C., Pítaco recebeu o homem amarrado e mandou desamarrar. Pítaco de Mitilene tinha então perto de sessenta anos e era o nome mais respeitado do Egeu oriental. Comandou a frota da cidade contra Atenas na guerra pelo controle de Sigeu, matou o general ateniense Frínon num duelo usando uma rede escondida sob o escudo, e voltou para casa com a ilha atrás de si. Os mitilênios então fizeram dele esimneta, cargo que se traduz por árbitro com poderes plenos, uma espécie de tirano eleito com prazo. Ele governou dez anos, escreveu as leis da cidade, dividiu terra e largou o posto vivo, por vontade própria, gesto raríssimo entre os homens fortes da Grécia arcaica. A lista dos Sete Sábios, que os gregos repetiam desde o século VI a.C., traz o nome dele em todas as versões conhecidas. Quem registrou o episódio do ferreiro foi Diógenes Laércio, no Livro I das Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, escritas por volta de 230 d.C., quase oito séculos depois dos fatos, compilando autores gregos mais antigos que hoje se perderam, entre eles um certo Heráclito de quem só restam citações. A cena tem duas cidades. Cime ficava do outro lado do mar, na costa da Ásia Menor, a um dia de navegação de Lesbos, e era lá que o filho de Pítaco estava morando. O crime aconteceu em Cime, o julgamento aconteceu em Mitilene, e entre um e outro houve uma travessia de barco com um prisioneiro a bordo e uma cidade inteira esperando notícia. O que Pítaco tinha nas mãos naquela manhã era poder legal completo sobre um homem que não podia se defender, com a cidade de Cime já tendo assinado embaixo da culpa. Nenhum grego duvidaria da sentença de morte, nenhum tribunal reclamaria, e ninguém no Egeu chamaria aquilo de excesso. A ordem que ele deu, e a frase de sete palavras com que a justificou, correu a Grécia antes do fim do século. Continue lendo ↓
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I A Pedra
A oficina, o machado e a corda cortada
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Tirreu, filho único de Pítaco de Mitilene, estava sentado numa barbearia de Cime quando um ferreiro da cidade entrou e o atingiu na cabeça com um machado. Ele caiu ali, no meio do salão, diante das testemunhas que aguardavam a vez na cadeira.
Diógenes Laércio não registra o motivo do golpe, nem o nome do ferreiro, nem se houve discussão antes. Dá o local, o instrumento e a profissão do agressor, e passa adiante. Nenhuma outra fonte antiga sobrevivente preenche essas lacunas: o que se sabe do caso cabe em três linhas de um texto escrito oito séculos depois.
Os cimeus prenderam o homem e tomaram uma decisão que a Grécia arcaica considerava correta. Não o julgaram em casa: amarraram o ferreiro e o embarcaram para Lesbos, entregando o corpo do culpado ao pai da vítima. Naquele mundo, homicídio ainda era assunto de família antes de ser assunto de cidade, e o parente mais próximo tinha direito reconhecido sobre o destino do agressor.
Pítaco recebeu o prisioneiro em Mitilene. Escutou o relato dos enviados de Cime, que traziam o testemunho da barbearia e nenhuma dúvida sobre a autoria. Ficou algum tempo em silêncio, conforme a compilação de Diógenes Laércio.
Então mandou soltar as cordas e disse ao ferreiro que fosse embora.
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“O perdão vale mais que o arrependimento.”
Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, Livro I, 76, c. 230 d.C.
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As duas palavras gregas da frase são syngnome, que significa perdão concedido por quem tinha o direito de punir, e metanoia, que significa mudança de mente, a virada tardia de quem já fez o estrago e se arrepende. Pítaco pôs a primeira acima da segunda: o gesto de quem solta pesa mais que o remorso de quem seria punido.
Diógenes Laércio acrescenta o comentário de Heráclito, o autor que ele estava copiando: Pítaco, tendo apanhado o assassino do filho e podendo executá-lo, soltou-o dizendo aquilo. Heráclito registra o caso como prova do caráter do homem, não como conselho jurídico.
Do ferreiro as fontes antigas não dizem mais nada. Não se sabe o nome dele, se voltou a Cime, se exerceu o ofício depois, nem quanto tempo viveu. O silêncio aqui é do documento, não do episódio: o compilador que preservou a cena estava interessado em Pítaco, e tudo que não fosse Pítaco ele cortou.
Pítaco morreu em Mitilene por volta de 570 a.C., com mais de setenta anos, dez deles passados fora do poder que tinha largado. A cidade o enterrou como legislador e sábio. A máxima que os gregos mais associavam a ele estava gravada em Delfos junto com as dos outros seis: conhece a hora certa.
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II O Princípio
O direito que não se exerce
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Pítaco tinha a sentença na mão, com a cidade de Cime assinando embaixo, e escolheu não usá-la. O direito continuou existindo e ficou parado.
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Repare que Pítaco não negou o crime, não pediu outra investigação, não sugeriu que o ferreiro fosse inocente e não fez discurso. Aceitou os fatos inteiros, com o filho liquidado numa barbearia por um golpe de machado, e mesmo assim abriu a mão sobre a punição que lhe cabia.
O princípio que sai daí é seco. Punir devolve o assunto ao ofensor, que passa a ocupar seus dias, seus cálculos e sua conversa até a conta ser paga. Perdoar encerra o assunto no seu próprio relógio, sem depender do que o outro faça, sinta ou reconheça.
A cena se repete num escritório sem machado nenhum. O sócio que foi passado para trás numa divisão de lucros e gasta três anos montando o processo entrega esses três anos ao sujeito que o lesou: agenda, advogado, sono e assunto de jantar. O dinheiro talvez volte. Os três anos não constam de sentença nenhuma.
Também aparece dentro de casa. O irmão que espera o pedido de desculpas do outro para retomar a conversa transferiu a data do próprio alívio para a boca alheia. Se o outro nunca pedir, e muita gente morre sem pedir, a espera vira prisão perpétua com carcereiro que não sabe do cargo.
Existe um contraponto honesto, e o próprio Pítaco o fornece. Perdoar não significa suspender a consequência. Aristóteles registra na Política, no Livro II, escrita por volta de 330 a.C., que Pítaco criou em Mitilene uma lei dobrando a pena de quem cometesse delito embriagado, justamente porque bêbado comete mais ofensas e merece menos indulgência. O homem que soltou o assassino do filho endureceu a lei da cidade contra quem batia em outro depois de beber.
Daí sai o critério prático que separa consequência de rancor. A consequência protege terceiros e vale a pena manter: demitir quem furtou, cortar contato com quem agride, acionar a justiça quando outro pode ser lesado amanhã. O rancor não protege ninguém, custa suas horas e alimenta um processo interno que roda sozinho de madrugada.
Pítaco fez os dois movimentos em ordens diferentes. Como pai, abriu a mão do que era direito dele e ficou com as próprias horas. Como legislador, fechou a porta para o próximo caso e protegeu quem ainda não tinha sido atingido. Uma decisão cuidou do passado dele, a outra cuidou do futuro da cidade, e nenhuma das duas precisou do arrependimento do culpado.
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