A resposta de ontem Quem deu o Evangelho a Dostoiévski em Tobolsk? Era Natália Fonvízina, mulher do dezembrista Mikhail Fonvízin, que seguira o marido ao exílio na Sibéria. Em Tobolsk, ela e outras esposas de dezembristas abençoaram os presos. Em 1854, já fora de Omsk, Dostoiévski escreveu a ela a carta em que diz preferir ficar com Cristo a ficar com a verdade, e guardou o livro em casa pelo resto da vida. |
George Washington entrou no Templo da Virtude, o salão comprido de tábuas que os soldados tinham erguido naquele inverno para cultos e bailes. Lá dentro estavam cerca de quinhentos oficiais. Na presidência da mesa, o general Horatio Gates, rival antigo do comandante.
Gates tinha vencido os ingleses em Saratoga, em 1777, e anos antes circulara entre deputados a ideia de pô-lo no lugar de Washington. Muitos oficiais na sala deviam a carreira a um dos dois e sabiam de que lado o outro estava.
O autor das cartas anônimas ainda não tinha rosto para a maioria da sala. Décadas depois, confirmou-se que era o major John Armstrong Jr., ajudante de ordens do próprio Gates.
Washington pediu a palavra e leu um discurso escrito com antecedência. Atacou o autor anônimo, lembrou os oito anos de guerra que dividira com aqueles homens e pediu que não manchassem a glória conquistada com uma ameaça ao governo civil.
O texto era firme e bem construído. Não funcionou. Testemunhas contaram que os rostos continuaram fechados. Os oficiais tinham ouvido promessas demais, e uma a mais não pagava as contas de casa.
Washington tirou então do bolso uma carta do deputado Joseph Jones, da Virgínia, que explicava as dificuldades do Congresso para levantar dinheiro. Leu as primeiras linhas e parou. A letra era miúda, e ele tropeçava nas palavras.
A sala esperou. Um general que hesita diante da tropa costuma perder a tropa, e Washington tinha passado oito anos sem mostrar hesitação em público. Ele tinha 51 anos, o cabelo já branco sob o pó e os dentes de marfim e de outros materiais que lhe davam dor constante.
Puxou do casaco um par de óculos. Quase ninguém na sala o tinha visto usá-los: as lentes tinham chegado havia pouco de Filadélfia, encomendadas ao astrônomo David Rittenhouse. Antes de continuar, Washington disse aos oficiais:
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“Senhores, permitam que eu ponha os óculos, porque não só fiquei grisalho, como quase cego a serviço do meu país.”
George Washington, Newburgh, 15 de março de 1783
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Vários oficiais choraram. O major Samuel Shaw, presente no salão, anotou no diário que havia no apelo algo tão natural e sem afetação que superava a oratória mais estudada.
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O discurso preparado deixou a sala fria; a frase improvisada sobre os óculos derrubou a conspiração em minutos.
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Washington terminou a leitura e saiu sem pedir voto nenhum. Ficaram os oficiais, e Gates teve de presidir a sessão que enterrou o plano do próprio ajudante.
O general Henry Knox e o coronel Rufus Putnam apresentaram resoluções de lealdade ao Congresso. A sala aprovou, e o texto final rejeitou a proposta anônima com repulsa. O documento seguiu para Filadélfia junto com o relato do comandante.
Armstrong nunca foi punido. Em 1813, tornou-se secretário da Guerra do presidente James Madison.
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