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O Senado atravessou o Tibre de barco pra buscar o general no meio do arado. Dezesseis dias depois, a guerra estava vencida e o poder, devolvido. Veja o que o comando absoluto encontra quando chega a um homem que já tem medida própria.
Em 458 a.C., o exército de Roma estava preso numa armadilha no monte Álgido. O cônsul Minúcio tinha marchado contra os équos e acabou cercado no desfiladeiro, com o inimigo controlando as saídas e a comida contada dentro do acampamento.
Cinco cavaleiros escaparam antes de o anel fechar e levaram a notícia à cidade. Roma entrou em pânico. O outro cônsul não inspirava confiança em ninguém, e todo mundo entendia que um comando dividido tinha criado o problema que agora ninguém sabia resolver.
O Senado recorreu ao instrumento reservado às horas extremas: a ditadura. Um homem só, com poder total sobre a cidade e os exércitos, tribunais suspensos, por no máximo seis meses. O nome escolhido foi Lúcio Quíncio Cincinato.
Cincinato tinha sido cônsul anos antes. Naquela manhã, porém, os enviados do Senado precisaram atravessar o Tibre de barco pra falar com ele, porque o antigo cônsul estava do outro lado do rio, curvado sobre o arado das quatro jeiras de terra que tinham sobrado à família depois de pagar a fiança de um filho encrencado.
Os enviados o saudaram e pediram que vestisse a toga antes de ouvir a mensagem da cidade. Ele estranhou, perguntou se estava tudo bem, e mandou a esposa, Racília, buscar a toga na cabana. Limpou a poeira e o suor do corpo, vestiu a peça e se apresentou.
A mensagem era curta: Roma o nomeava ditador. O exército cercado no Álgido, a cidade com medo, e o poder absoluto nas mãos dele a partir daquele instante.
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Os enviados esperaram o lavrador vestir a toga pra dizer que ele era, a partir daquele instante, o dono de Roma.
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Na manhã seguinte, antes do amanhecer, Cincinato já estava no fórum. Suspendeu os tribunais e os negócios, fechou as lojas e convocou todo homem em idade militar pro Campo de Marte até o pôr do sol, cada um carregando ração pra cinco dias e doze estacas de madeira.
Marcharam à noite. Por volta da meia-noite chegaram ao Álgido, e Cincinato mandou o exército envolver o acampamento inimigo por fora, homem ao lado de homem. Ao sinal, todos cravaram as estacas, abriram a trincheira e soltaram o grito de guerra num círculo completo.
Os équos acordaram entre dois exércitos. O de dentro, que reconheceu o grito dos seus e atacou pra fora, e o de fora, que fechava a cerca de estacas em volta deles. Antes de o sol nascer, pediram rendição.
Cincinato exigiu os chefes acorrentados e fez o exército vencido passar sob o jugo: três lanças armadas em arco, a passagem baixa que obrigava cada soldado derrotado a atravessar curvado. Depois mandou os homens embora, desarmados, e deixou o saque pros próprios soldados.
Roma o recebeu em triunfo. A lei lhe dava seis meses de poder absoluto, e nenhuma voz na cidade cobraria a devolução antecipada de quem tinha acabado de salvar as legiões em uma única noite.
No décimo sexto dia, Cincinato entregou o cargo e atravessou o Tibre de volta. O arado estava onde ele tinha deixado. Dos cento e oitenta dias de poder que a lei lhe dava, ele usou dezesseis e devolveu os outros cento e sessenta e quatro sem tocar.
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