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John Milton compunha deitado, no quarto escuro, entre a madrugada e o amanhecer. O poema que ele montava se chama Paraíso Perdido (Paradise Lost, no original) e foi escrito em verso branco, o verso sem rima que o teatro de Shakespeare tinha usado.
Cada linha tem dez sílabas e nenhum par sonoro para ajudar a memória. Sem rima, Milton guardava os versos só pelo ritmo e pelo sentido, e esperava alguém para escrevê-los.
O pintor Jonathan Richardson, que colheu relatos de quem conviveu com o poeta, publicou em 1734 o detalhe da rotina. Milton ditava talvez 40 versos de um fôlego e depois os reduzia à metade.
Um biógrafo anônimo da época, provavelmente o ex-aluno Cyriack Skinner, conta o resto. Milton acordava cedo com uma boa provisão de versos prontos. Se o escrevente se atrasava, reclamava e dizia querer ser ordenhado.
Quem escrevia variava. Serviam o sobrinho Edward Phillips, as filhas, amigos de passagem e alunos que vinham ler latim para ele em troca de lição. O amanuense (quem escreve o que outro dita) era quem estivesse na casa.
As filhas também liam para ele. Edward Phillips conta que o pai ensinou as mais novas a pronunciar textos em hebraico, grego, latim, italiano e francês sem entender o sentido. Elas liam por horas um idioma que não falavam, e a tarefa pesava. Deborah, a caçula, guardou ressentimento do trabalho a vida inteira.
Phillips viu o poema crescer em lotes de dez, vinte ou trinta versos. Na biografia do tio, de 1694, registrou uma estação para o trabalho: a veia de Milton corria do equinócio de outono ao de primavera. No verão, ele quase não compunha.
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Milton guardava de noite o que não podia escrever e entregava de manhã o que tinha sobrevivido ao escuro.
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Em 1665, a peste chegou a Londres. O quacre Thomas Ellwood, um dos leitores de latim, arranjou para o poeta uma casa em Chalfont St Giles, a oeste da cidade. Lá, Milton entregou a Ellwood o manuscrito pronto para ler.
Ellwood devolveu o maço com uma provocação: o amigo tinha falado muito do paraíso perdido, e o paraíso achado? Milton respondeu com Paraíso Reconquistado, publicado em 1671.
O censor Thomas Tomkins, capelão do arcebispo de Cantuária, quase barrou a impressão por uma imagem do Livro I: um eclipse que perturba os reis com medo de mudança. O relato é do biógrafo John Toland, de 1698. A licença saiu, e o verso ficou.
O poema chegou às livrarias em 1667, dividido em dez livros e impresso por Samuel Simmons. A segunda edição, de 1674, redistribuiu o texto em doze livros e passou de 10.500 versos, todos compostos no escuro.
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