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Os 12 Profetas de Pedra-Sabão de Congonhas

Com as mãos deformadas e o cinzel preso aos punhos, Antônio Francisco Lisboa talhou entre 1800 e 1805 o adro do santuário de Bom Jesus.

Cinzel amarrado com couro sobre um bloco de pedra-sabão.

Congonhas, 1805: o cinzel preso ao punho

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Escultor trabalha com os dedos. Entre 1800 e 1805, em Congonhas, Antônio Francisco Lisboa trabalhou com o cinzel amarrado ao punho.

Ele nasceu em Vila Rica, a atual Ouro Preto, por volta de 1738. Era filho de Manuel Francisco Lisboa, mestre de obras português, e de uma africana escravizada chamada Isabel. Nasceu escravo e foi alforriado pelo pai no batismo.

Aprendeu o ofício no canteiro de obras da família. Desenho e arquitetura com o pai, entalhe com os mestres portugueses que decoravam as igrejas do ouro. Aos trinta anos, já assinava portadas, púlpitos e retábulos (os painéis esculpidos atrás do altar) em Vila Rica e São João del-Rei.

Em 1777, aos quase quarenta anos, veio a doença. Ninguém sabe qual foi. Os médicos de hoje discutem hanseníase, porfiria (um distúrbio do sangue) e esclerodermia, e nenhuma hipótese fecha, porque não sobrou laudo nem exame do corpo. Sobrou o efeito: os dedos se deformaram, alguns dedos dos pés caíram, as pálpebras incharam.

A cidade passou a chamá-lo de Aleijadinho. Ele detestava o apelido e evitava ser visto. Saía de madrugada para a obra, coberto por uma capa, e voltava depois do escuro.

Tudo isso conhecemos por um livro só. Em 1858, quarenta e quatro anos depois do falecimento do escultor, o advogado mineiro Rodrigo José Ferreira Bretas publicou os Traços biográficos relativos ao finado Antônio Francisco Lisboa. Bretas ouviu Joana Lopes, nora do artista, e escreveu o que ela contou.

O livro é a fonte de quase tudo o que se repete sobre ele, inclusive o detalhe mais famoso. Historiadores como Guiomar de Grammont, no livro Aleijadinho e o aeroplano, de 2008, apontam o tom de lenda e pedem cautela. Mas os contratos e recibos que sobreviveram confirmam as datas e as obras.

Em 1796, o artista recebeu a encomenda mais longa da vida. Um santuário no alto de um morro, numa vila de mineradores a uns oitenta quilômetros de casa.

A primeira seção sobe esse morro.

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I  A Pedra

Pedra-sabão no alto do morro

O santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, começou com uma promessa. Em 1757, o minerador português Feliciano Mendes adoeceu, pediu a cura ao Bom Jesus e, curado, ergueu uma cruz no morro do Maranhão. Pediu esmolas pelo resto da vida para construir a igreja.

Quando Antônio Francisco Lisboa chegou, a igreja estava pronta e faltava o resto: o caminho dos fiéis até ela e o adro, a praça de entrada no alto da escadaria.

O primeiro trabalho foram os Passos da Paixão, seis capelas na encosta com as cenas da prisão e da crucificação de Cristo. Entre 1796 e 1799, ele e a oficina entalharam em cedro sessenta e seis figuras em tamanho natural. Pintores locais coloriram as imagens depois.

Os profetas vieram em seguida, entre 1800 e 1805. Doze figuras do Antigo Testamento, de Isaías a Naum, cada uma com uns dois metros de altura, postas sobre a mureta da escadaria do adro. Cada profeta segura um rolo ou uma placa com uma frase em latim tirada do próprio livro.

O material foi a pedra-sabão, o nome popular do esteatito, uma rocha mole e cinza esverdeada das serras de Minas. Ela se risca com a unha quando sai da pedreira e endurece com o tempo ao ar livre. O escultor já a usava desde as portadas de Vila Rica.

Bretas descreve como o trabalho seguia. Três escravizados acompanhavam o mestre: Maurício, Agostinho e Januário. Maurício era o principal. Era ele quem amarrava o cinzel e o macete às mãos do escultor com tiras de couro, todas as manhãs.

Com os dedos dos pés perdidos, o artista andava de joelhos sobre peças de couro. Januário, segundo o relato, o carregava nas costas pelas ladeiras quando o caminho era longo.

Os dedos não fechavam mais em volta do cabo. O couro fechava por eles.

A oficina dividia o serviço. Os ajudantes desbastavam os blocos, e o mestre fazia o desenho, os rostos, as mãos e as dobras das roupas. Historiadores da arte notam diferenças de acabamento entre os doze, e por isso atribuem partes de alguns profetas aos auxiliares.

Os profetas têm o rosto marcado por linhas fundas, os olhos amendoados, as barbas em cachos grossos. Os corpos giram para lados diferentes, como se conversassem de mureta em mureta. Quem sobe a escadaria vê as figuras se moverem conforme o ângulo muda.

O artista viveu mais nove anos depois de Congonhas. Ficou quase cego, passou os últimos tempos na casa da nora, em Ouro Preto, e faleceu em 18 de novembro de 1814. Em 1985, a UNESCO declarou o santuário Patrimônio Mundial.

 
 

II  O Princípio

O obstáculo vira o caminho

A doença tirou de Antônio Francisco Lisboa o gesto que define o escultor: fechar a mão em volta da ferramenta. Ele manteve a parte que ninguém tira, a decisão de qual pedra cortar, onde e com que forma.

Marco Aurélio, imperador romano que escrevia para si mesmo nas campanhas militares, anotou essa ideia num caderno que só foi publicado depois dele:

“O impedimento à ação faz avançar a ação. O que fica no caminho vira o caminho.”

Marco Aurélio, Meditações, livro 5, capítulo 20, escrito por volta de 170.

Os estoicos (a escola grega que separava o que depende de nós do que não depende) chamavam a deformação de uma coisa externa. O corpo, a fama, a doença ficam fora do controle. O uso que se faz deles fica dentro.

O escultor de Congonhas nunca leu Marco Aurélio, até onde se sabe. Era católico, homem de irmandade, e nada no relato de Bretas indica leitura de filosofia antiga. Chegou à mesma prática pelo trabalho.

Repare no tipo de ajuste. Ele não esperou a cura e não trocou de ofício. Também não fingiu que as mãos estavam boas. Mudou o encaixe entre o corpo e a ferramenta, com uma tira de couro e um ajudante de confiança.

O ajuste pedia uma segunda renúncia, mais difícil para um mestre orgulhoso: depender de outro homem todos os dias. Maurício amarrava, Januário carregava, Agostinho desbastava. A obra saiu de quatro pares de mãos sob um só desenho.

No trabalho, o tropeço de hoje costuma ser menor. Um corte de verba tira a equipe do projeto. O gerente pode parar à espera do orçamento de volta, ou pode reduzir o projeto ao que a equipe restante consegue entregar bem.

Em casa, a lesão no joelho suspende a corrida da manhã. Quem espera a recuperação perde três meses de hábito. Quem troca a corrida pela bicicleta ergométrica, no mesmo horário, chega ao fim da lesão com o costume inteiro.

O limite define o encaixe da ferramenta, e a escolha da obra continua sua.

Um detalhe dos profetas mostra o mesmo raciocínio na pedra. Como a pedra-sabão é mole, o escultor cavou sulcos fundos nas barbas e nas roupas, e a sombra desses sulcos desenha a figura vista de baixo. Ele trabalhou a favor da rocha que tinha.

 

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III  A Forja do Dia

Amarre a sua ferramenta

A prática de hoje copia a tira de couro. Escolha uma tarefa que você parou de fazer porque algo mudou no seu corpo, na sua agenda ou nos seus recursos, e redesenhe o encaixe.

1. Manhã, nomeie a obra: escreva numa linha o que você quer entregar, sem citar o meio. Exemplo: manter a forma física, e não correr cinco quilômetros.

2. Manhã, nomeie o limite: anote em uma frase o que mudou e não volta tão cedo. Seja exato, sem drama, como um laudo.

3. Tarde, troque o encaixe: liste três maneiras de chegar à mesma obra com o limite no lugar. Uma delas tem que usar outra pessoa.

4. Tarde, chame o seu Maurício: peça ajuda a quem pode fazer a parte mecânica, para você guardar a parte que só você faz.

5. Noite, registre a peça: anote o que saiu hoje, mesmo pequeno. Uma linha, sem comparar com o tempo em que tudo funcionava.

Um exemplo de escritório. Você perdeu metade do horário livre com um filho recém-nascido. A obra é o relatório mensal. O encaixe novo é escrever trinta minutos às seis da manhã e passar a formatação para um colega.

Um exemplo de casa. Seu pai, com artrose nas mãos, deixou de cozinhar. A obra é o almoço de domingo. Ele dita a receita e prova o tempero, e o neto corta e mexe a panela.

O passo 4 é o que mais trava. Pedir ajuda parece confessar a perda. O escultor de Congonhas aceitou a mão de Maurício todas as manhãs, durante anos, e a assinatura nos profetas continuou dele.

O passo 1 protege os outros. Quem confunde a obra com o meio desiste quando o meio falha. Quem escreve a obra sem o meio encontra outro caminho em poucos dias.

A ferramenta pode mudar de mão; a obra muda só se você deixar.

Qual obra sua parou porque você confundiu a ferramenta com o trabalho?

Os doze profetas estão de pé no adro há mais de dois séculos. A chuva escureceu a pedra e gastou alguns narizes.

As mãos do escultor ninguém retratou.

 
 
Quiz da edição

Qual dos três homens escravizados que ajudavam o escultor em Congonhas era o responsável por amarrar o cinzel e o macete às mãos dele, todas as manhãs?

AAgostinho
BIsabel
CMaurício
DJanuário

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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