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O santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, começou com uma promessa. Em 1757, o minerador português Feliciano Mendes adoeceu, pediu a cura ao Bom Jesus e, curado, ergueu uma cruz no morro do Maranhão. Pediu esmolas pelo resto da vida para construir a igreja.
Quando Antônio Francisco Lisboa chegou, a igreja estava pronta e faltava o resto: o caminho dos fiéis até ela e o adro, a praça de entrada no alto da escadaria.
O primeiro trabalho foram os Passos da Paixão, seis capelas na encosta com as cenas da prisão e da crucificação de Cristo. Entre 1796 e 1799, ele e a oficina entalharam em cedro sessenta e seis figuras em tamanho natural. Pintores locais coloriram as imagens depois.
Os profetas vieram em seguida, entre 1800 e 1805. Doze figuras do Antigo Testamento, de Isaías a Naum, cada uma com uns dois metros de altura, postas sobre a mureta da escadaria do adro. Cada profeta segura um rolo ou uma placa com uma frase em latim tirada do próprio livro.
O material foi a pedra-sabão, o nome popular do esteatito, uma rocha mole e cinza esverdeada das serras de Minas. Ela se risca com a unha quando sai da pedreira e endurece com o tempo ao ar livre. O escultor já a usava desde as portadas de Vila Rica.
Bretas descreve como o trabalho seguia. Três escravizados acompanhavam o mestre: Maurício, Agostinho e Januário. Maurício era o principal. Era ele quem amarrava o cinzel e o macete às mãos do escultor com tiras de couro, todas as manhãs.
Com os dedos dos pés perdidos, o artista andava de joelhos sobre peças de couro. Januário, segundo o relato, o carregava nas costas pelas ladeiras quando o caminho era longo.
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Os dedos não fechavam mais em volta do cabo. O couro fechava por eles.
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A oficina dividia o serviço. Os ajudantes desbastavam os blocos, e o mestre fazia o desenho, os rostos, as mãos e as dobras das roupas. Historiadores da arte notam diferenças de acabamento entre os doze, e por isso atribuem partes de alguns profetas aos auxiliares.
Os profetas têm o rosto marcado por linhas fundas, os olhos amendoados, as barbas em cachos grossos. Os corpos giram para lados diferentes, como se conversassem de mureta em mureta. Quem sobe a escadaria vê as figuras se moverem conforme o ângulo muda.
O artista viveu mais nove anos depois de Congonhas. Ficou quase cego, passou os últimos tempos na casa da nora, em Ouro Preto, e faleceu em 18 de novembro de 1814. Em 1985, a UNESCO declarou o santuário Patrimônio Mundial.
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