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Os 12 Navios de Yi Sun-sin

Coreia, 1597: rebaixado a soldado raso, o almirante volta ao comando e enfrenta 133 naus japonesas num estreito.

Nau de guerra coreana antiga num estreito com correnteza.

Myeongnyang, 1597: o estreito da maré

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Almirante rebaixado não volta ao mar. Em 1597, na Coreia da dinastia Joseon (a casa real que governou o país por cinco séculos), Yi Sun-sin voltou, e voltou para comandar uma frota que quase não existia.

Cinco anos antes, em 1592, o senhor da guerra japonês Toyotomi Hideyoshi tinha desembarcado um exército na península com o plano de atravessá-la até a China. Em terra, os invasores tomaram Seul em poucas semanas. No mar, perderam batalha atrás de batalha para o mesmo homem.

Yi comandava a esquadra da província de Jeolla, no sudoeste. Usava panokseon (naus de guerra coreanas de dois andares, casco chato e canhões pesados) e alguns navios-tartaruga, cobertos por um teto de placas com espetos. Cortava pelo mar os suprimentos que o exército japonês esperava receber.

A vitória fez inimigos em casa. A corte do rei Seonjo vivia dividida em facções, e um general rival, Won Gyun, disputava com Yi a glória das batalhas e o ouvido do rei.

No começo de 1597, um agente duplo japonês avisou os coreanos de que uma frota inimiga passaria por certo ponto da costa. O rei ordenou a emboscada. Yi desconfiou da armadilha e não saiu com os navios.

Foi preso por desobediência, levado acorrentado a Seul e interrogado sob tortura. Escapou da execução porque o ministro Jeong Tak pediu clemência por escrito ao rei. Saiu da prisão sem patente: soldado raso, a pé, sob as ordens do general Gwon Yul.

Na estrada, soube que a mãe tinha morrido no barco que a trazia para vê-lo. Pediu licença para chorar diante do corpo e seguiu marchando no dia seguinte, porque soldado sem posto não escolhe o calendário.

Won Gyun herdou a frota inteira. Cinco meses depois, ela estava no fundo do mar, e a corte precisou chamar de volta o homem que tinha acorrentado. A resposta que Yi mandou ao rei, e o estreito onde a cumpriu, abrem a primeira parte.

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I  A Pedra

Treze cascos contra a maré

Em agosto de 1597, no estreito de Chilcheollyang, a frota coreana comandada por Won Gyun foi cercada à noite por navios japoneses. O ataque afundou quase toda a esquadra que Yi Sun-sin tinha montado em cinco anos de guerra. Won Gyun fugiu para a praia e foi morto em terra.

Um oficial, Bae Seol, escapou antes do cerco com uma dúzia de panokseon. Esses cascos eram o que restava da marinha de Joseon.

O rei Seonjo devolveu a Yi o posto de comandante naval das três províncias do sul. Yi saiu a cavalo pelo sudoeste, recolhendo soldados dispersos, arroz e armas largados nos depósitos. Encontrou os navios de Bae Seol e assumiu o comando.

Na capital, a conclusão era outra. A corte deu a marinha por perdida e mandou ordem: Yi deveria desembarcar os marinheiros e juntar-se ao exército em terra. Ele respondeu por escrito:

“Vosso servo ainda tem doze navios de guerra. Se lutarmos com todas as forças, ainda podemos detê-los.”

Yi Sun-sin, relatório ao rei Seonjo, 1597

Os japoneses avançavam pela costa sul rumo ao mar Amarelo, rota que levaria suprimentos ao exército que subia por terra. Se a frota inimiga passasse, Seul ficava exposta pelo rio Han.

Yi escolheu o lugar. O estreito de Myeongnyang, que os coreanos chamam Uldolmok (o estreito que ruge), separa a ilha de Jindo do continente e tem, no ponto mais apertado, menos de 300 metros de largura. A maré troca de sentido a cada seis horas, e a água corre ali com força de rio em cheia.

Na véspera, ele reuniu os capitães e anotou no Nanjung Ilgi (Diário da Guerra) a frase do tratado militar chinês de Wu Qi que lhes repetiu: “Quem busca a morte vive; quem busca a vida morre.”

Doze navios num canal apertado valem mais que doze navios em mar aberto.

Na manhã de 26 de outubro de 1597, no calendário ocidental, a frota japonesa entrou no estreito. O diário de Yi registra 133 naus de guerra. Com um navio a mais, achado no caminho, os coreanos eram treze.

A nau de Yi avançou sozinha. Os outros capitães recuaram, assustados, e ficaram longe. Por horas, o navio do almirante disparou canhões e flechas contra a vanguarda inimiga presa na correnteza.

Yi ergueu bandeiras de sinal e chamou os capitães Kim Eung-ham e An Wi, ameaçando executá-los por covardia. Os dois entraram na luta.

Ao meio-dia a maré virou. A corrente, que empurrava os japoneses para dentro, passou a empurrá-los para trás, e as naus se chocaram umas contra as outras. Um soldado reconheceu na água o corpo de Kurushima Michifusa, comandante japonês, e Yi mandou pendurá-lo no mastro.

Ao fim do dia, segundo o diário, 31 naus japonesas estavam destruídas. Nenhum navio coreano afundou. A frota inimiga deu meia-volta e desistiu de subir pelo mar.

 
 

II  O Princípio

O inventário do que restou

Yi Sun-sin não ganhou Myeongnyang com o que perdeu. Ganhou com o que contou. A corte olhou a frota e viu a ausência de mais de cem cascos; Yi olhou a mesma frota e viu doze, prontos e com tripulação.

O princípio é antigo e tem dono. Epicteto, escravo liberto que ensinou filosofia em Nicópolis, na Grécia, abre o Encheiridion (Manual) com a divisão:

“Das realidades, umas dependem de nós, outras não.”

Epicteto, Encheiridion, c. 125

A derrota de Chilcheollyang não dependia mais de Yi. A prisão, os interrogatórios e a perda da mãe também não. Os doze cascos, o arroz recolhido e a escolha do estreito dependiam.

Diante da perda, o primeiro trabalho é contar o que ficou.

A corte errou porque comparou. Medida contra a esquadra de antes, a frota de Bae Seol parecia nada, e a ordem de desembarcar fazia sentido. Medida contra o problema real, deter navios num canal de menos de 300 metros, ela bastava.

No trabalho, a comparação aparece igual. Um gerente perde metade da equipe num corte e passa a semana listando quem saiu. A lista útil é a outra: quem ficou, o que sabe fazer, qual projeto cabe nesse tamanho.

Em casa, aparece com dinheiro. A renda cai depois de uma demissão, e a conversa gira em torno do padrão antigo. O orçamento só anda quando alguém escreve num papel o valor que entra agora e decide, a partir dele, o que se mantém.

No corpo, também. A corredora com o joelho operado passa o mês olhando a perna parada. O fisioterapeuta manda olhar o resto: tronco, braços, a perna boa, e treinar os três enquanto o joelho espera.

Yi fez mais um movimento: escolheu o terreno onde o pouco pesava muito. Um estreito anula a vantagem do número, porque poucas naus cabem de frente. Contar o que resta pede, logo depois, perguntar onde o que resta rende mais.

O custo não sumiu com a vitória. Semanas depois, tropas japonesas atacaram a vila de Asan em represália e mataram Yi Myeon, filho caçula do almirante. Yi registrou no diário a dor da notícia e, na página seguinte, voltou às marés e aos mantimentos.

 

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III  A Forja do Dia

A folha dos doze navios

A prática de hoje cabe numa folha e em três horários. Escolha uma perda recente: um projeto cancelado, uma saúde que mudou, um orçamento menor, alguém que foi embora.

1. Manhã, o inventário: antes de abrir as mensagens, escreva no alto da folha “Ainda tenho” e liste o que restou ligado àquela perda. Recursos, pessoas, horas, habilidades. Nada de comparar com o que havia.

2. Tarde, o estreito: escolha um item da lista e o lugar onde ele pesa mais. Faça com ele uma ação de 20 minutos antes das 18h. Um telefonema, uma página, uma caminhada.

3. Noite, o diário: registre numa linha o que a ação mudou, no estilo do Nanjung Ilgi: data, fato, resultado. Sem adjetivo.

O primeiro passo repete a carta ao rei. Yi não negou a derrota de Chilcheollyang; recusou-se a medir a frota por ela.

O segundo repete a escolha de Uldolmok. Doze navios em mar aberto seriam cercados. No canal, a maré trabalhou por eles.

O terceiro repete o hábito do almirante. Yi manteve o diário de 1592 a 1598, quase diariamente, inclusive nas semanas de prisão e de luto. A linha curta da noite impede a memória do dia de virar só sentimento.

Um caso mostra a sequência. Um marceneiro de 47 anos perdeu dois dedos da mão esquerda numa serra circular. No hospital, escreveu “Ainda tenho”: a mão direita, a oficina, um aprendiz e 22 anos de olho para madeira. Na primeira semana em casa, passou a desenhar os móveis, e o aprendiz, a cortar.

A prática tem limite. Ela não apaga a perda, nem pede serenidade fingida. Yi chorou a mãe e o filho no diário, com todas as letras, e no dia seguinte voltou a contar navios.

Também não garante vitória. Em dezembro de 1598, Yi comandou a frota coreana e chinesa na batalha de Noryang contra os japoneses em retirada. Uma bala de arcabuz o atingiu no peito. Pediu que escondessem a notícia até o fim da luta, para a tropa não esmorecer. Os coreanos venceram.

Antes de lamentar a frota perdida, conte os navios que ainda flutuam.

“O que você ainda tem, e onde ele pesa mais hoje?”

A guerra acabou em Noryang.

 
 
Quiz da edição

No diário de Yi Sun-sin, quantas naus japonesas ficaram destruídas ao fim do dia na batalha de Myeongnyang?

A12
B133
C31
D13

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