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O Voto de Arkhipov a 45 Graus

Sem rádio com Moscou e sob explosões americanas, três oficiais do B-59 precisavam dizer sim ao torpedo nuclear. Vassíli Arkhipov era um deles.

Periscópio de submarino rompendo a superfície de um mar escuro ao amanhecer.

Mar dos Sargaços, 1962: o submarino sobe

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Num submarino, a palavra do capitão encerra a discussão. Em 1962, perto de Cuba, um oficial embarcado com patente igual à dele disse não.

Vassíli Aleksandrovitch Arkhipov nasceu em 1926, numa família de camponeses perto de Moscou. Entrou na escola naval ainda adolescente, serviu no Pacífico contra o Japão no último ano da Segunda Guerra e fez carreira nos submarinos da Frota do Norte.

Um ano antes de Cuba, era o imediato (o segundo no comando) do K-19, o primeiro submarino nuclear soviético armado com mísseis balísticos. Em 4 de julho de 1961, no Atlântico Norte, o circuito de resfriamento do reator rompeu. Marinheiros entraram no compartimento para improvisar um sistema de água, e oito deles não sobreviveram às semanas seguintes. Arkhipov recebeu dose alta de radiação e voltou ao serviço.

Em setembro de 1962, Moscou montou a Operação Kama. Quatro submarinos a diesel da classe Foxtrot (o código da OTAN para o projeto 641), o B-4, o B-36, o B-59 e o B-130, deviam seguir em segredo da península de Kola até o porto cubano de Mariel. Partiram na madrugada de 1º de outubro.

Cada um levava 22 torpedos comuns e um torpedo com ogiva nuclear. Os comandantes ouviram instruções em terra: a arma especial podia ser usada se o casco fosse furado, ou por ordem expressa de Moscou.

Arkhipov embarcou no B-59 como chefe de estado-maior da brigada, o segundo oficial dos quatro barcos. O comandante do B-59 era o capitão Valentin Savitski. O oficial político, encarregado da linha do partido a bordo, era Ivan Maslennikov.

Os Foxtrot tinham sido desenhados para o mar frio do Norte. No Caribe, a água passava dos 30 graus, e o barco precisava subir à superfície para recarregar as baterias. Era o trecho mais vigiado do planeta.

Em 22 de outubro, o presidente John Kennedy anunciou a quarentena naval em volta de Cuba. Os quatro submarinos ainda estavam no mar, e a escuta de rádio passou a chegar em pedaços. A primeira seção desce ao B-59 no sábado em que a Marinha americana o encontrou.

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I  A Pedra

O sábado no fundo do B-59

A resposta de ontem

Quanto Milton recebeu de Simmons pelo Paraíso Perdido?

Cinco libras na assinatura, em 27 de abril de 1667, e mais cinco depois da venda de 1.300 exemplares da primeira edição: 10 libras no total. A viúva, Elizabeth Minshull, vendeu a Simmons os direitos restantes em 1680 por mais 8 libras, segundo o contrato guardado na Biblioteca Britânica.

Em 27 de outubro, o sábado que Washington chamou depois de Sábado Negro, o B-59 estava submerso a sudeste das Bermudas, no Mar dos Sargaços. O grupo do porta-aviões USS Randolph tinha achado o rastro dele e não largava.

O ar-condicionado tinha parado. Vadim Orlov, o oficial de escuta de rádio a bordo, contou décadas depois que a temperatura nos compartimentos passava dos 45 graus e chegava a 60 na casa de máquinas. O gás carbônico subia, e marinheiros desmaiavam no posto.

As baterias estavam quase no zero. Fazia dias que o barco não recebia mensagem de Moscou. Ninguém a bordo sabia se a guerra já tinha começado lá em cima.

Os contratorpedeiros americanos começaram a lançar granadas de sinalização, cargas de profundidade de treino do tamanho de uma granada de mão. O sinal pedia ao submarino que subisse e se identificasse.

O governo americano tinha avisado Moscou do procedimento em 24 de outubro. Segundo os documentos reunidos pelo National Security Archive, arquivo independente da Universidade George Washington, o aviso nunca chegou aos submarinos.

Dentro do casco, cada explosão soava como marretada no aço. Orlov comparou a sensação à de estar sentado num barril de metal enquanto alguém bate nele com um martelo.

Savitski concluiu que o ataque era real. Pelo relato de Orlov, mandou preparar o torpedo nuclear e gritou que iam afundar os americanos, mesmo indo ao fundo junto, para não desonrar a Marinha.

No B-59, o disparo dependia do sim do capitão, do oficial político e de Arkhipov, que tinha a mesma patente de Savitski.

Maslennikov concordou com o capitão. Arkhipov não. Disse que as explosões eram pequenas e repetidas, sinal de quem chama, e que um ataque real viria com cargas capazes de rachar o casco.

A discussão correu na sala de comando, no calor e sem ar. Arkhipov propôs subir e pedir instruções a Moscou. Savitski acabou cedendo.

O B-59 emergiu cercado de navios e aviões americanos. Ergueu a bandeira soviética, não houve tiro e o barco recebeu ordem de voltar ao Norte.

O relato de Orlov apareceu em 2002, numa conferência em Havana pelos 40 anos da crise. Parte dos veteranos contesta o grito do capitão e o estado do torpedo. A pesquisadora Svetlana Savranskaya, do mesmo arquivo, escreveu em 2005 que não há documento oficial do conselho de três oficiais. O que todos confirmam é o voto contrário de Arkhipov e a subida.

 
 

II  O Princípio

A demora como remédio

O caso do B-59 tem um desenho simples. Três homens com calor, sem sono e sem notícia receberam o mesmo barulho. Dois o leram como guerra. Um o leu como chamado.

Os estoicos tinham palavra para o instante entre o barulho e a leitura. Epicteto chamava de phantasia (a impressão que chega à mente) o que aparece primeiro, e de synkatathesis (o assentimento, o sim que se dá a ela) o passo seguinte.

Para Epicteto, a impressão vem sem pedir licença. O assentimento é a parte que depende de quem a recebe. Ele mandava o aluno parar diante dela e dizer: espere, deixe-me ver quem você é e de onde vem.

Arkhipov fez a pergunta de Epicteto com dados da sala. Contou as explosões, mediu a força delas e comparou com o que uma carga de ataque faria a um casco de aço. A impressão dizia guerra; o exame dizia sinal.

Sêneca escreveu um livro inteiro sobre o momento em que a raiva toma a mão. A receita dele cabe numa linha:

“O maior remédio da ira é a demora.”

Sêneca, Sobre a Ira, livro 2, capítulo 29, cerca de 41 d.C.

A demora de Sêneca não é covardia. É o tempo de a primeira onda baixar para o julgamento voltar a funcionar. Ele recomendava adiar a punição de um escravo até a raiva passar, porque o castigo aplicado no calor costuma ser o errado.

No B-59, a demora tinha preço alto. Cada minuto submerso gastava bateria e ar. Arkhipov pediu a subida, a opção que expunha o barco e a honra do comandante, e por ela preservou a decisão que não tinha volta.

Diante do ato irreversível, o voto que pede mais tempo vale mais que o voto mais rápido.

O princípio pede um segundo cuidado. Arkhipov não tinha certeza, ninguém tinha. Ele escolheu a leitura que deixava a correção possível depois. Se estivesse errado, ainda daria para lutar na superfície. Se Savitski estivesse errado, não sobraria ninguém para corrigir.

No trabalho, a lição serve a quem recebe um email ríspido, um corte de verba ou uma acusação na reunião. A primeira leitura chega pronta e pede resposta imediata.

O exame também tem limite. Arkhipov não ignorou a impressão de perigo; tratou-a como hipótese e procurou na sala o dado capaz de confirmá-la ou derrubá-la. As cargas pequenas, lançadas em série e sem dano ao casco, derrubaram a hipótese de guerra.

Em casa, serve à briga às onze da noite, quando a frase que encerra a conversa já está na ponta da língua. O assentimento ainda é seu.

 

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III  A Forja do Dia

O terceiro voto

A prática de hoje copia a sala de comando do B-59. Serve para a decisão que não tem desfazer: demitir, romper, mandar a mensagem, assinar o contrato.

1. Nomeie o irreversível: antes de agir sob pressão, escreva numa linha o que não volta atrás se você estiver errado. Arkhipov sabia: o torpedo nuclear.

2. Conte as explosões: separe o que você ouviu do que concluiu. Duas frases: o fato, e a leitura que você fez dele.

3. Ache a segunda leitura: escreva outra explicação para o mesmo fato. A granada pequena podia ser ataque ou chamado; o email seco pode ser raiva ou pressa.

4. Escolha a opção que permite corrigir: entre as leituras, aja pela que deixa caminho aberto se você errar. Subir à superfície custava orgulho, não vidas.

5. Tenha um terceiro voto: combine com alguém de confiança que nenhuma decisão grande sai sem ouvir essa pessoa. Arkhipov estava no B-59 porque a escala da brigada o pôs ali.

Um exemplo. Um sócio manda às dez da noite uma mensagem acusando você de esconder números. A primeira leitura é traição, e a resposta pronta rompe a sociedade. A segunda leitura é que ele recebeu uma planilha errada. Você responde de manhã pedindo a planilha. Era a versão antiga do arquivo.

O passo 2 é o mais difícil. No calor, o fato e a leitura chegam colados, e a leitura parece ser o próprio fato. Separar as duas no papel força a mente a trabalhar devagar.

O passo 4 exige humildade. A opção reversível quase sempre parece fraca na hora, como pareceu a Savitski a ideia de subir diante do inimigo. O orgulho ferido se recupera em semanas.

O passo 5 é o que salvou o B-59. Se Arkhipov tivesse embarcado no B-36 ou no B-130, Savitski teria só o oficial político para consultar. A escala da brigada pôs a terceira voz no barco certo.

Quem decide sozinho no calor decide com a impressão; quem tem um terceiro voto decide com o exame.

O B-59 voltou à península de Kola semanas depois. Parte dos oficiais da brigada ouviu críticas em Moscou por ter subido à vista dos americanos.

Arkhipov seguiu na Marinha, dirigiu uma escola naval e chegou a vice-almirante. Partiu em 1998, aos 72 anos, de um câncer nos rins que a família liga à radiação do K-19.

O torpedo voltou intacto para a base.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Que prêmio a família de Arkhipov recebeu em 2017, em nome dele?

★ RARO

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Quiz da edição

A bordo do B-59, qual era o cargo de Vassíli Arkhipov durante a crise dos míssueis de Cuba?

AComandante do submarino
BOficial político, encarregado da linha do partido
CChefe de estado-maior da brigada
DOficial de escuta de rádio

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