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O Silêncio de Tenzing Norgay

Em 1953, multidões em Catmandu cobraram quem pisou primeiro no topo do Everest. Tenzing repetia: chegamos juntos.

Piolet antigo cravado na neve de uma aresta, com uma corda enrolada ao lado.

Everest, 1953: o cume antes da disputa

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Na montanha, o nome fica com quem pisa primeiro. Em junho de 1953, em Catmandu, cobraram de Tenzing Norgay um nome só, e ele deu dois.

Fazia três semanas que ele e o neozelandês Edmund Hillary tinham descido do topo do Everest, a 8.848 metros. A notícia chegou a Londres em 2 de junho, na manhã da coroação de Elizabeth II, e correu o mundo em telegramas.

No Nepal e na Índia, a pergunta das ruas era outra. Os jornais não queriam saber como os dois tinham subido. Queriam saber quem tinha posto o pé lá em cima antes.

Para muita gente em Catmandu, a resposta tinha de ser Tenzing. Ele era sherpa (o povo das montanhas do leste do Nepal), criado no vale do Khumbu, ao pé da montanha. Um asiático no topo do mundo respondia a um século de expedições europeias que contratavam os carregadores do lugar e levavam a glória para casa.

Cartazes pintados à mão mostravam Tenzing no cume, puxando pela corda um Hillary caído. Políticos nepaleses procuravam o alpinista para que ele dissesse em público que tinha chegado primeiro. Índia e Nepal disputavam até a nacionalidade dele.

Os repórteres seguiam o sherpa até o hotel e voltavam a perguntar no café da manhã. Hillary, alto e calado, ouvia as mesmas perguntas e dava as mesmas respostas curtas. A expedição britânica, que tinha planejado cada barraca até o cume, não tinha plano para a chegada à cidade.

Tenzing não sabia ler nem escrever. Tinha 39 anos, morava em Darjeeling, na Índia, e tinha começado na montanha carregando bagagem de ingleses. Agora cada palavra dele virava manchete em três países.

Bastava uma frase para virar herói nacional sozinho. Ele e Hillary combinaram outra e assinaram juntos uma declaração em Catmandu: os dois tinham alcançado o cume quase ao mesmo tempo.

A primeira seção sobe com eles na manhã de 29 de maio, até o ponto em que a corda se esticou pela última vez.

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Quem banca a edição de hoje

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I  A Pedra

A última corda

A resposta de ontem

Que prêmio a família de Arkhipov recebeu em 2017?

O primeiro Future of Life Award, criado pelo Future of Life Institute, entidade americana dedicada a riscos de catástrofe global. A filha Elena Andriukova e o neto Serguei receberam a homenagem e 50 mil dólares em 27 de outubro, exatos 55 anos depois do sábado no B-59.

Tenzing Norgay e Edmund Hillary deixaram a barraca do último acampamento, a uns 8.500 metros, às 6h30 de 29 de maio de 1953. As botas de Hillary tinham congelado durante a noite, e ele passou uma hora aquecendo o couro sobre o fogareiro.

A expedição britânica, chefiada pelo coronel John Hunt, já tinha mandado outra dupla. Em 26 de maio, Tom Bourdillon e Charles Evans chegaram ao Cume Sul, cerca de 100 metros abaixo do topo, e voltaram com o aparelho de oxigênio falhando.

Hunt escolheu a segunda dupla pela força, não pela bandeira. Hillary, apicultor de Auckland, tinha subido montanhas na Nova Zelândia e no Himalaia. Tenzing era o sirdar (o chefe dos carregadores) da expedição e o alpinista mais acostumado à altitude do grupo.

Tenzing estava na sétima expedição ao Everest. Em 1952, com o suíço Raymond Lambert, tinha chegado a uns 8.600 metros e recuado. No pescoço, levava o cachecol vermelho que Lambert lhe dera.

Perto do topo, uma parede de rocha de uns 12 metros barrava a aresta. Hillary se enfiou numa fenda entre a pedra e a cornija (a borda de neve que avança sobre o abismo) e subiu se empurrando com as costas. Tenzing veio atrás, pela corda.

A parede ganhou depois o nome de Escalão Hillary. Acima dela, a aresta seguia em lombadas de neve. Hillary ia à frente, abrindo degraus com o piolet (o machado de gelo do alpinista), e Tenzing dava corda.

Às 11h30, a neve parou de subir. Os dois estavam amarrados um ao outro por uns dez metros de corda. Quem deu o último passo, eles guardaram por dois anos.

No topo, apertaram as mãos, e Tenzing abraçou o companheiro. Hillary tirou a foto que ficou: Tenzing com o piolet erguido, quatro bandeiras amarradas no cabo, da ONU, do Reino Unido, do Nepal e da Índia.

Não existe foto de Hillary no cume. Tenzing nunca tinha usado uma câmera, e Hillary achou que a 8.848 metros não era hora de ensinar. Ficaram uns 15 minutos lá em cima.

Na volta, encontraram no colo sul o neozelandês George Lowe, que subira para recebê-los com sopa quente. Hillary deu a notícia ao amigo antes de qualquer jornal.

Na única foto do cume, o homem que aparece é o que deixou a dúvida no ar.

A descida virou disputa antes de eles chegarem a Catmandu. Hunt e Hillary receberam da rainha o título de cavaleiro. Tenzing recebeu a Medalha George, condecoração civil britânica, um degrau abaixo.

Na capital nepalesa, a multidão cercou o cortejo da expedição. A declaração combinada saiu assinada pelos dois e encerrou o assunto no papel, sem encerrar nas ruas.

Em 1955, Tenzing publicou a autobiografia Tiger of the Snows (Tigre das Neves), ditada ao escritor americano James Ramsey Ullman. Ali contou que Hillary pisou primeiro no cume, e ele logo depois.

Escreveu também que não se envergonhava de ter sido o segundo. Para ele, a montanha tinha recebido os dois na mesma corda, e a pergunta das ruas nunca tinha sido feita lá em cima.

 
 

II  O Princípio

A fama fica fora da corda

O caso tem duas metades. Uma é o passo, que Tenzing deu com as próprias pernas. A outra é o que as ruas fizeram com o passo, e essa metade nunca foi dele.

Epicteto abre o Manual com essa separação. Há o que depende de nós, como o juízo, o desejo e a ação, e há o que não depende, como o corpo, os bens, os cargos e a reputação. Para o escravo liberto de Hierápolis, sofre quem trata a segunda lista como se fosse a primeira.

Os cartazes de Catmandu pertenciam à segunda lista. Tenzing podia mandar na própria frase, não no que pintavam com ela. Guardou então a frase curta e exata para todo mundo: chegamos juntos.

A frase não era mentira. Os dois estavam na mesma corda, e nenhum teria chegado sem o outro. Hillary abriu a parede de rocha. Semanas antes, na geleira do Khumbu, Tenzing tinha segurado pela corda o neozelandês, caído numa fenda de gelo.

Marco Aurélio deixou a imagem de quem faz o bem sem cobrar a conta:

“A videira dá a uva e não pede nada depois de ter dado o seu fruto.”

Marco Aurélio, Meditações, livro 5, 6, cerca de 170 d.C.

Tenzing deu o fruto em 29 de maio. A cobrança veio das ruas, não dele. Quando a pressão baixou, contou o detalhe sem drama, num livro, com a calma de quem nunca tinha precisado dele.

O crédito dividido não diminui quem subiu; diminui só a briga em volta do cume.

O princípio pede um cuidado. Calar não é apagar. Tenzing não negou o passo de Hillary nem inventou o próprio; segurou a versão exata até o dia em que ela não serviria a nenhuma bandeira.

No trabalho, a lição serve ao projeto entregue em dupla, quando o chefe pergunta na reunião de quem foi a ideia. A vontade pede para puxar a corda para o próprio lado, e quem puxa perde o parceiro da próxima subida.

Em família, serve aos irmãos que cuidam do pai doente e contam, cada um, as noites que passaram no hospital. A conta das noites racha a casa. Dizer que cuidaram juntos mantém os dois na mesma corda.

Serve ainda a quem ouve elogio sozinho por um trabalho de equipe. Corrigir em voz alta, com o nome de quem ajudou, custa uma frase e vale o respeito da sala.

Nenhuma das três situações pede que você esconda o próprio passo. Pede só a ordem certa: primeiro a corda, depois o cume.

 

Quem banca a edição de hoje

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III  A Forja do Dia

O nome do outro em voz alta

A prática de hoje copia a declaração de Catmandu. Serve para o momento em que alguém oferece a você o crédito inteiro de um resultado que teve mais mãos.

1. De manhã, observe: escolha um resultado do dia que não saiu só de você. Um relatório, uma venda, um jantar, uma conversa difícil resolvida.

2. Liste a corda: anote quem segurou cada trecho. Hillary abriu a rocha, Tenzing deu corda, Hunt montou o plano.

3. À tarde, fale uma vez: quando o assunto aparecer, diga em público o nome de uma pessoa e o que ela fez, com o detalhe concreto.

4. À noite, registre uma linha: escreva quem você nomeou e como a sala reagiu.

Um exemplo. O cliente elogia a proposta que você apresentou. A colega preparou os números na véspera. Você agradece e diz que a tabela da página quatro é dela.

O passo 2 é o mais trabalhoso. A memória guarda o próprio esforço inteiro e o dos outros pela metade. Listar por escrito corrige a conta antes de ela virar frase.

O passo 3 pede só uma vez. Repetir o nome do colega em toda reunião vira cena; dizer uma vez, no momento certo, vira registro.

O passo 4 mostra o efeito em poucos dias. Quem anota percebe que a sala confia mais em quem divide o crédito, e que o próprio nome volta pela boca dos outros.

Quem nomeia a corda em voz alta não precisa disputar o cume depois.

Tenzing viveu o resto da vida em Darjeeling. Em 1954, a cidade abriu o Instituto de Montanhismo do Himalaia, e ele assumiu a direção do treinamento de campo. Ensinou a subir jovens indianos que nunca tinham pisado em neve.

Antes de descer do cume, em 1953, ele se ajoelhou e cavou um buraco raso na neve. Deixou uma oferenda.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

O que Tenzing enterrou na neve do cume antes de descer?

★ RARO

🔒

EDIÇÃO SELADA

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