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O Silêncio de Selassié em Genebra

Com a Etiópia ocupada pela Itália, o imperador subiu à tribuna da Liga das Nações sob assobios e esperou a sala calar.

Tribuna de madeira vazia num salão de assembleia antigo, com microfone e folhas dobradas.

Genebra, 1936: a tribuna antes da fala

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Quem é vaiado numa assembleia responde ou desce da tribuna. Em Genebra, em 1936, Hailé Selassié ficou de pé, calado, e esperou.

Hailé Selassié I nasceu Tafari Makonnen em 1892, filho de um governador da província de Harar, no leste da Etiópia. Foi regente a partir de 1916 e recebeu a coroa de imperador em 1930, aos 38 anos. O título escolhido na coroação quer dizer “poder da Trindade” em gueez (a língua antiga da liturgia etíope).

A Etiópia era um dos dois países africanos sem dono europeu, ao lado da Libéria, e membro da Liga das Nações desde 1923. Tafari tinha empurrado a entrada justamente para ter a quem recorrer se Roma voltasse.

No dia 3 de outubro, em 1935, tropas italianas cruzaram a fronteira a partir da Eritreia, então colônia italiana. Benito Mussolini queria apagar Adwa, a batalha de 1896 em que o exército etíope derrotou a Itália.

A Liga declarou a Itália agressora e votou sanções econômicas. O petróleo ficou de fora da lista, e os navios italianos seguiram atravessando o Canal de Suez, controlado pelos britânicos.

No norte, aviões italianos espalharam iperita (o gás mostarda) sobre tropas e aldeias. Em 2 de maio de 1936, o imperador deixou Adis Abeba de trem rumo a Djibuti. Três dias depois, o marechal Pietro Badoglio entrou na capital, e Mussolini anunciou de uma sacada em Roma que a Etiópia era italiana.

Selassié seguiu num cruzador britânico até a Palestina e dali para a Inglaterra. Chegou a Londres sem país, sem exército e com a família hospedada em casa emprestada. Nenhum chefe de Estado tinha falado antes na tribuna da Liga em nome próprio.

Em junho, a Liga convocou a assembleia para decidir se mantinha as sanções contra Roma. Ele pediu a palavra. A primeira seção sobe com ele à tribuna, na tarde em que a galeria tentou calá-lo.

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I  A Pedra

A tarde dos assobios

A resposta de ontem

O que Tenzing enterrou na neve do cume do Everest?

Chocolates, biscoitos, um punhado de balas e um lápis que a filha Nima lhe dera, como oferenda budista aos deuses do Chomolungma, o nome tibetano da montanha. Ao lado, Hillary enterrou um pequeno crucifixo que o coronel John Hunt lhe entregara. Tenzing contou a oferenda em Tiger of the Snows, de 1955.

Em 27 de outubro, o sábado que Washington chamou depois de Sábado Negro, o B-59 estava submerso a sudeste das Bermudas, no Mar dos Sargaços. O grupo do porta-aviões USS Randolph tinha achado o rastro dele e não largava.

Na tarde de 30 de junho de 1936, o presidente da assembleia, o primeiro-ministro belga Paul van Zeeland, chamou o delegado da Etiópia. Hailé Selassié caminhou até a tribuna de capa preta, baixo, de barba, sem escolta.

Quando ele chegou ao microfone, a galeria da imprensa explodiu em assobios. Eram jornalistas italianos, mandados a Genebra pelos jornais do regime. Gritavam insultos e sopravam apitos.

O delegado romeno Nicolae Titulescu se levantou e gritou para os seguranças, em francês: “À la porte les sauvages!” (para fora com os selvagens). Os selvagens, na frase dele, eram os jornalistas.

A polícia suíça subiu à galeria e retirou os homens um a um. Alguns passaram horas detidos.

Durante a confusão, Selassié não disse nada. Ficou de pé diante do microfone, com as folhas na mão, olhando para a sala. Só começou quando o último apito parou.

Falou em amárico (a língua oficial da corte etíope), embora dominasse o francês, idioma diplomático da Liga. A tradução em francês e inglês já estava nas mesas dos delegados.

Diante da sala que tinha prometido protegê-lo, o imperador escolheu a própria língua e a própria hora.

O discurso abriu formal. Ele estava ali, disse, para reclamar a justiça devida ao seu povo e a assistência prometida oito meses antes.

Depois descreveu o gás. Contou que os aviões levavam pulverizadores para soltar uma chuva fina sobre soldados, mulheres, rebanhos, rios e lagos, e que ele próprio tinha visto os efeitos na frente de batalha.

Lembrou o artigo 16 do Pacto da Liga, que obrigava os membros a agir contra o agressor. Perguntou aos 52 países presentes se aceitariam ver um Estado pequeno engolido por um grande.

A frase mais repetida daquela tarde vem de testemunhas e biógrafos: “Hoje somos nós. Amanhã serão vocês.” Ela não aparece no texto oficial publicado pela Liga. O texto impresso termina com uma pergunta aos delegados: que resposta ele devia levar ao seu povo.

A resposta veio em 4 de julho. A assembleia votou a suspensão das sanções contra a Itália, e elas deixaram de valer no dia 15. Selassié saiu de Genebra sem nada no papel.

A Liga ainda recusou reconhecer a anexação da Etiópia, e a delegação etíope manteve a cadeira na assembleia. Era um gesto sem tropa nem dinheiro atrás.

Três anos depois, a Alemanha invadiu a Polônia, e a guerra chegou aos países que tinham votado.

 
 

II  O Princípio

A hora de quem responde

O caso do B-59 tem um desenho simples. Três homens com calor, sem sono e sem notícia receberam o mesmo barulho. Dois o leram como guerra. Um o leu como chamado.

O caso de Genebra tem duas partes. Uma é o insulto, que veio de fora e sem aviso. A outra é a resposta, que ficou inteira na mão de quem foi insultado.

Epicteto separava as duas com cuidado. No Manual, capítulo 20, escreveu que quem ofende não é o homem que grita ou bate, mas o juízo que fazemos sobre ele. O assobio da galeria chegou a Selassié; a decisão sobre o assobio continuou sendo dele.

Sêneca, no tratado Sobre a Ira, dava um conselho parecido a quem recebe um insulto: adiar a resposta até o primeiro calor baixar. A demora, para ele, era o remédio mais forte contra a raiva.

Os jornalistas queriam uma de duas reações. Se o imperador gritasse de volta, viraria o selvagem da manchete. Se descesse da tribuna, a Itália ganharia a sessão sem precisar falar.

Selassié recusou as duas. Esperou. A espera tirou dos jornalistas o papel que eles tinham escrito para ele, e entregou a cena a outro homem: Titulescu, que defendeu o etíope sem ninguém pedir.

Marco Aurélio, imperador como ele, deixou a receita num caderno que nunca quis publicar:

“A melhor maneira de se vingar é não se tornar como quem te fez o mal.”

Marco Aurélio, Meditações, livro 6, 6, cerca de 170 d.C.

A vingança de Selassié foi falar devagar, no amárico da corte, com números e lugares. Ele não respondeu a um assobio sequer. Respondeu ao artigo 16.

O silêncio também tinha plateia. Os delegados viram o imperador de um país ocupado esperar com calma enquanto a imprensa de uma potência europeia apitava como torcida. A cena falou antes do discurso, e falou contra quem assobiava.

Quem espera o silêncio antes de falar escolhe o assunto da sala; quem grita de volta aceita o assunto do provocador.

O princípio pede um segundo cuidado. A calma de Selassié não era indiferença. Ele sabia o que tinha visto no front e chegou com a acusação escrita. O silêncio servia à fala, não tomava o lugar dela.

O princípio também não promete vitória. A Liga votou contra ele quatro dias depois. Epicteto nunca disse que a resposta certa muda o resultado; disse que ela é o pedaço que depende de nós.

No trabalho, a lição serve a quem é interrompido na reunião, recebe uma piada no grupo ou ouve a crítica em público. O impulso pede a réplica no mesmo tom e na mesma hora.

Em casa, serve à discussão em que a outra pessoa sobe a voz para ganhar pelo volume. Baixar a sua e esperar devolve a conversa ao conteúdo.

 

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III  A Forja do Dia

Esperar a sala calar

A prática de hoje copia a sala de comando do B-59. Serve para a decisão que não tem desfazer: demitir, romper, mandar a mensagem, assinar o contrato.

A prática de hoje copia a tribuna de Genebra. Serve para o momento em que alguém tenta tirar você do texto: a interrupção, o deboche, a acusação em voz de plateia.

1. Fique de pé: não saia da conversa nem mude de lugar. Selassié continuou no microfone enquanto a galeria assobiava.

2. Espere o último apito: conte em silêncio até a outra pessoa parar. Falar por cima entrega a ela o ritmo da cena.

3. Volte ao seu papel: retome exatamente do ponto preparado, com a frase que você tinha escrito. O imperador abriu com a justiça devida ao povo, não com os jornalistas.

4. Fale na sua língua: use o seu tom e o seu vocabulário, nunca o do provocador. Selassié escolheu o amárico mesmo podendo falar francês.

5. Responda ao assunto, não ao insulto: dirija a resposta ao fato em discussão. Ele citou o artigo 16 e o gás, e deixou os assobios sem eco.

Um exemplo. Na reunião de orçamento, um colega interrompe sua apresentação com uma piada sobre os seus números. A sala ri. A resposta pronta é a contra-piada. Você espera a risada acabar, volta ao slide e diz o valor da linha que ele questionou.

O passo 2 é o mais difícil. A pausa parece fraqueza no primeiro segundo, e o corpo pede para preencher. Contar em silêncio dá ao corpo uma tarefa enquanto a sala se acalma.

O passo 4 exige preparo. Só fala na própria língua quem chegou com o texto pronto. Selassié tinha a tradução distribuída antes de pisar na tribuna.

O passo 5 protege o depois. Quem responde ao insulto vira parte da briga; quem responde ao assunto fica com o registro. O discurso de 1936 sobreviveu nos arquivos, e os nomes dos jornalistas sumiram.

A provocação dura o tempo de um apito; a resposta escrita dura o tempo do arquivo.

Depois de Genebra, Selassié se instalou em Bath, no sudoeste da Inglaterra, em Fairfield House, uma casa vitoriana comprada para a família. Vendeu prataria para pagar as contas do exílio.

Em 1940, a Itália entrou na guerra ao lado da Alemanha, e Londres passou a tratar o imperador como aliado. Ele deixou Bath rumo ao Sudão naquele ano.

A casa de Bath ainda está de pé.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Em que dia Hailé Selassié voltou a entrar em Adis Abeba?

★ RARO

🔒

EDIÇÃO SELADA

Quem leu até aqui tem mais um achado desta edição atrás do lacre.

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Quiz da edição

Na assembleia de Genebra em 1936, quem gritou aos seguranças para retirar os jornalistas que vaiavam Selassié?

APaul van Zeeland
BPietro Badoglio
CNicolae Titulescu
DBenito Mussolini

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