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O Poema que Tirou Egil da Cama
Islândia, ano 960: depois de perder o filho no mar, Egil se trancou para jejuar até o fim, e a filha o fez compor.
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O chifre que Egil mordeu
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Em Borg, quem perdia um filho no mar buscava o corpo, enterrava e servia o banquete. Perto do ano 960, na Islândia, Egil Skallagrímsson cumpriu as duas primeiras partes e recusou a terceira. Bodvar, o filho mais novo, tinha saído de barco pelo fiorde para buscar madeira comprada de um navio mercante. Uma tempestade virou a embarcação. Nenhum homem a bordo voltou. O mar devolveu o corpo dias depois, numa praia do fiorde. Egil cavalgou até lá, ergueu o filho, sentou-o no colo e seguiu com ele até o túmulo do próprio pai, Skalla-Grím, em Digranes. A saga registra o corpo do pai naquela tarde. Egil vestia uma túnica justa, e a túnica rasgou nos ombros, de tanto que ele inchou de dor no caminho. Mandou abrir o túmulo, deitou Bodvar lá dentro, junto do avô, e mandou fechar. Voltou para casa sem dizer uma palavra a ninguém. Em Borg, foi direto para a cama fechada, o armário de madeira com porta onde dormia o dono da fazenda. Trancou a porta por dentro e se deitou. Ficou sem comida e sem água. Ninguém da casa ousou chamá-lo pelo nome. No terceiro dia, Asgerd, a mulher dele, mandou um cavaleiro a Hjardarholt, a fazenda onde vivia a filha mais velha do casal, Torgerda, casada com Olaf, o Pavão. Torgerda chegou à noite e não quis jantar. Quando a mãe ofereceu comida, respondeu que não comeria nada até chegar à casa de Freyja, a deusa nórdica que recebia parte dos mortos. Bateu na porta do pai e disse que ia se deitar com ele, porque também queria partir. Egil destrancou a porta. Ela se deitou na outra ponta da cama e ficou em silêncio. O pai não perguntou nada. Dois enlutados agora jejuavam no escuro, e a casa inteira esperava do lado de fora. O que Torgerda fez lá dentro começou com um punhado de alga seca e terminou com 25 estrofes. Quem guardou a cena, como a filha tirou o pai da cama e o que restou do poema estão na faixa I. Continue lendo ↓
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I A Pedra
O jejum na cama fechada
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A cena está no capítulo 78 da Saga de Egil, narrativa em prosa escrita na Islândia entre 1220 e 1240 sobre a vida de Egil Skallagrímsson, guerreiro, fazendeiro e escaldo (poeta das cortes nórdicas) que viveu de 910 a 990, aproximadamente. Muitos estudiosos atribuem o texto a Snorri Sturluson, descendente da família de Egil, mas nenhum manuscrito traz o nome do autor.
A saga conta que Egil já tinha perdido outro filho, Gunnar, levado por uma febre pouco antes. Bodvar era o mais novo e, segundo o texto, o mais parecido com o pai. Com ele, Egil ficou sem herdeiro homem em casa.
Dentro da cama fechada, depois de um tempo quieta, Torgerda começou a mascar alguma comida. Egil perguntou o que era. Ela respondeu que era söl (alga marinha vermelha que os islandeses secavam e comiam), e que mascava porque achava que a alga piorava seu estado e apressava o fim.
Egil pediu um pouco e mascou também. A alga é salgada, e o sal trouxe a sede.
Torgerda pediu água em voz alta. Asgerd passou um chifre cheio pela porta. Egil bebeu primeiro, num gole longo, e só ao baixar o chifre sentiu o gosto de leite. A filha tinha combinado com a mãe.
Ele ficou furioso, cravou os dentes na borda do chifre e arrancou um pedaço. Mas o leite já estava dentro dele.
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O primeiro alimento de Egil em três dias entrou pela mão da filha, apresentado como veneno.
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Com o pai alimentado e irritado, Torgerda mudou de assunto. Disse que os dois iam partir juntos, mas que ninguém faria um poema para Bodvar. Pediu que ele compusesse o erfikvæði (poema fúnebre em honra do morto) e prometeu gravar os versos num rúnakefli, um bastão de madeira entalhado com runas.
Egil respondeu que mal conseguia compor naquele estado. Ela insistiu de novo. Na terceira tentativa da filha, ele começou pela queixa do próprio ofício:
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“Muito me custa mover a língua.”
Egil Skallagrímsson, Sonatorrek, estrofe 1, c. 960.
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O nome do poema, Sonatorrek, quer dizer "a perda irreparável dos filhos". Conforme os versos andavam, a saga diz que Egil foi melhorando. Ao terminar, recitou o poema para Asgerd, Torgerda e a gente da casa, levantou da cama e sentou na cadeira alta. Ofereceu o banquete fúnebre de Bodvar e deu presentes à filha antes de ela voltar a Hjardarholt.
O bastão de runas, se Torgerda chegou a gravá-lo, se perdeu. O poema sobreviveu por cópia: o manuscrito Möðruvallabók, do século XIV, traz só a primeira estrofe, e o texto inteiro chegou por uma cópia em papel do século XVII. Se Egil compôs exatamente aqueles versos ou se a tradição oral os poliu ao longo de trezentos anos, nenhum filólogo consegue provar.
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II O Princípio
A dor que pediu forma
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O luto sem tarefa fecha a porta; o luto com ofício abre.
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Torgerda tinha um problema prático. O pai era o homem mais teimoso do oeste da Islândia, e ordem nenhuma o tiraria da cama. Ela entrou no luto dele, aceitou o jejum como ponto de partida e, de dentro dele, entregou três passos, um de cada vez.
O primeiro foi a companhia. Ela se deitou e calou. Egil abriu a porta para uma pessoa que dizia querer o mesmo fim. Visita de consolo ele teria deixado do lado de fora.
O segundo foi o corpo. A alga e o leite vieram antes de qualquer conversa sobre o filho. Um homem com três dias de jejum não decide nada direito, e a filha cuidou da fome antes da tristeza.
O terceiro foi o ofício. Torgerda não pediu ao pai que esquecesse Bodvar. Pediu que fizesse pelo filho a única obra que Egil sabia fazer melhor que qualquer homem vivo: um poema. A dor ganhou uma forma que ele dominava.
O conteúdo do Sonatorrek mostra o que aconteceu dentro dessa forma. Egil acusa Ran, a deusa do mar que puxava afogados com uma rede, e diz que, se pudesse vingar a ofensa com a espada, lutaria contra o próprio oceano. Depois briga com Odin, o deus a quem servia, por ter levado os filhos.
No meio da briga, o poeta muda de rumo. Reconhece que o mesmo Odin lhe deu a arte do verso, um dom que nenhuma perda tira dele. A raiva contra o deus vira inventário do que restou.
As últimas linhas fazem as pazes com o fim, sem pressa de alcançá-lo:
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“Mesmo assim, contente, de boa vontade e sem tristeza, vou esperar por Hel.”
Egil Skallagrímsson, Sonatorrek, estrofe 25, c. 960.
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Hel, na crença nórdica, era a morada dos mortos e a deusa que a governava. O homem que três dias antes queria ir até ela pela fome passou a esperá-la sem data marcada.
O poema não apagou a perda. Egil seguiu sem Bodvar e sem Gunnar, e a saga mostra um velho cego e rabugento nos últimos capítulos, morando com a família em Mosfell, onde morreu já com mais de oitenta anos.
Mudou a direção do luto. A dor que estava voltada para dentro, num armário trancado, saiu em versos que a casa ouviu e a filha prometeu entalhar.
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