In partnership with

Fortaleza Interior   Fortaleza Interior
ED 141
{{subiu_orn | }} {{subiu_num | }} {{subiu_orn | }}

{{subiu_caps | }}

{{subiu_linha | }}

O Poema que Tirou Egil da Cama

Islândia, ano 960: depois de perder o filho no mar, Egil se trancou para jejuar até o fim, e a filha o fez compor.

Bastão de runas e chifre de beber sobre mesa viking.

O chifre que Egil mordeu

▼
 

Em Borg, quem perdia um filho no mar buscava o corpo, enterrava e servia o banquete. Perto do ano 960, na Islândia, Egil Skallagrímsson cumpriu as duas primeiras partes e recusou a terceira.

Bodvar, o filho mais novo, tinha saído de barco pelo fiorde para buscar madeira comprada de um navio mercante. Uma tempestade virou a embarcação. Nenhum homem a bordo voltou.

O mar devolveu o corpo dias depois, numa praia do fiorde. Egil cavalgou até lá, ergueu o filho, sentou-o no colo e seguiu com ele até o túmulo do próprio pai, Skalla-Grím, em Digranes.

A saga registra o corpo do pai naquela tarde. Egil vestia uma túnica justa, e a túnica rasgou nos ombros, de tanto que ele inchou de dor no caminho.

Mandou abrir o túmulo, deitou Bodvar lá dentro, junto do avô, e mandou fechar. Voltou para casa sem dizer uma palavra a ninguém.

Em Borg, foi direto para a cama fechada, o armário de madeira com porta onde dormia o dono da fazenda. Trancou a porta por dentro e se deitou.

Ficou sem comida e sem água. Ninguém da casa ousou chamá-lo pelo nome.

No terceiro dia, Asgerd, a mulher dele, mandou um cavaleiro a Hjardarholt, a fazenda onde vivia a filha mais velha do casal, Torgerda, casada com Olaf, o Pavão.

Torgerda chegou à noite e não quis jantar. Quando a mãe ofereceu comida, respondeu que não comeria nada até chegar à casa de Freyja, a deusa nórdica que recebia parte dos mortos.

Bateu na porta do pai e disse que ia se deitar com ele, porque também queria partir. Egil destrancou a porta.

Ela se deitou na outra ponta da cama e ficou em silêncio. O pai não perguntou nada. Dois enlutados agora jejuavam no escuro, e a casa inteira esperava do lado de fora.

O que Torgerda fez lá dentro começou com um punhado de alga seca e terminou com 25 estrofes. Quem guardou a cena, como a filha tirou o pai da cama e o que restou do poema estão na faixa I.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Pedra

O jejum na cama fechada

A cena está no capítulo 78 da Saga de Egil, narrativa em prosa escrita na Islândia entre 1220 e 1240 sobre a vida de Egil Skallagrímsson, guerreiro, fazendeiro e escaldo (poeta das cortes nórdicas) que viveu de 910 a 990, aproximadamente. Muitos estudiosos atribuem o texto a Snorri Sturluson, descendente da família de Egil, mas nenhum manuscrito traz o nome do autor.

A saga conta que Egil já tinha perdido outro filho, Gunnar, levado por uma febre pouco antes. Bodvar era o mais novo e, segundo o texto, o mais parecido com o pai. Com ele, Egil ficou sem herdeiro homem em casa.

Dentro da cama fechada, depois de um tempo quieta, Torgerda começou a mascar alguma comida. Egil perguntou o que era. Ela respondeu que era söl (alga marinha vermelha que os islandeses secavam e comiam), e que mascava porque achava que a alga piorava seu estado e apressava o fim.

Egil pediu um pouco e mascou também. A alga é salgada, e o sal trouxe a sede.

Torgerda pediu água em voz alta. Asgerd passou um chifre cheio pela porta. Egil bebeu primeiro, num gole longo, e só ao baixar o chifre sentiu o gosto de leite. A filha tinha combinado com a mãe.

Ele ficou furioso, cravou os dentes na borda do chifre e arrancou um pedaço. Mas o leite já estava dentro dele.

O primeiro alimento de Egil em três dias entrou pela mão da filha, apresentado como veneno.

Com o pai alimentado e irritado, Torgerda mudou de assunto. Disse que os dois iam partir juntos, mas que ninguém faria um poema para Bodvar. Pediu que ele compusesse o erfikvæði (poema fúnebre em honra do morto) e prometeu gravar os versos num rúnakefli, um bastão de madeira entalhado com runas.

Egil respondeu que mal conseguia compor naquele estado. Ela insistiu de novo. Na terceira tentativa da filha, ele começou pela queixa do próprio ofício:

“Muito me custa mover a língua.”

Egil Skallagrímsson, Sonatorrek, estrofe 1, c. 960.

O nome do poema, Sonatorrek, quer dizer "a perda irreparável dos filhos". Conforme os versos andavam, a saga diz que Egil foi melhorando. Ao terminar, recitou o poema para Asgerd, Torgerda e a gente da casa, levantou da cama e sentou na cadeira alta. Ofereceu o banquete fúnebre de Bodvar e deu presentes à filha antes de ela voltar a Hjardarholt.

O bastão de runas, se Torgerda chegou a gravá-lo, se perdeu. O poema sobreviveu por cópia: o manuscrito Möðruvallabók, do século XIV, traz só a primeira estrofe, e o texto inteiro chegou por uma cópia em papel do século XVII. Se Egil compôs exatamente aqueles versos ou se a tradição oral os poliu ao longo de trezentos anos, nenhum filólogo consegue provar.

 
 

II  O Princípio

A dor que pediu forma

O luto sem tarefa fecha a porta; o luto com ofício abre.

Torgerda tinha um problema prático. O pai era o homem mais teimoso do oeste da Islândia, e ordem nenhuma o tiraria da cama. Ela entrou no luto dele, aceitou o jejum como ponto de partida e, de dentro dele, entregou três passos, um de cada vez.

O primeiro foi a companhia. Ela se deitou e calou. Egil abriu a porta para uma pessoa que dizia querer o mesmo fim. Visita de consolo ele teria deixado do lado de fora.

O segundo foi o corpo. A alga e o leite vieram antes de qualquer conversa sobre o filho. Um homem com três dias de jejum não decide nada direito, e a filha cuidou da fome antes da tristeza.

O terceiro foi o ofício. Torgerda não pediu ao pai que esquecesse Bodvar. Pediu que fizesse pelo filho a única obra que Egil sabia fazer melhor que qualquer homem vivo: um poema. A dor ganhou uma forma que ele dominava.

O conteúdo do Sonatorrek mostra o que aconteceu dentro dessa forma. Egil acusa Ran, a deusa do mar que puxava afogados com uma rede, e diz que, se pudesse vingar a ofensa com a espada, lutaria contra o próprio oceano. Depois briga com Odin, o deus a quem servia, por ter levado os filhos.

No meio da briga, o poeta muda de rumo. Reconhece que o mesmo Odin lhe deu a arte do verso, um dom que nenhuma perda tira dele. A raiva contra o deus vira inventário do que restou.

As últimas linhas fazem as pazes com o fim, sem pressa de alcançá-lo:

“Mesmo assim, contente, de boa vontade e sem tristeza, vou esperar por Hel.”

Egil Skallagrímsson, Sonatorrek, estrofe 25, c. 960.

Hel, na crença nórdica, era a morada dos mortos e a deusa que a governava. O homem que três dias antes queria ir até ela pela fome passou a esperá-la sem data marcada.

O poema não apagou a perda. Egil seguiu sem Bodvar e sem Gunnar, e a saga mostra um velho cego e rabugento nos últimos capítulos, morando com a família em Mosfell, onde morreu já com mais de oitenta anos.

Mudou a direção do luto. A dor que estava voltada para dentro, num armário trancado, saiu em versos que a casa ouviu e a filha prometeu entalhar.

 

Quem banca a edição de hoje

Tackle your credit card debt by paying 0% interest until nearly 2028

If you have outstanding credit card debt, getting a new 0% intro APR credit card could help ease the pressure while you pay down your balances. Our credit card experts identified top credit cards that are perfect for anyone looking to pay down debt and not add to it! Click through to see what all the hype is about.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
 
 

III  A Forja do Dia

O verso no bastão

Primeiro, a companhia: sente perto de quem se fechou, sem discurso e sem conselho.

Depois, o corpo: água, comida e sono vêm antes de qualquer conversa sobre a perda.

Por fim, o ofício: ofereça uma tarefa no idioma de quem sofre, ligada a quem partiu.

O primeiro passo copia a cama de Torgerda. Quem se tranca espera ser puxado para fora e resiste. Quem recebe companhia no mesmo lugar baixa a guarda. Três sinais mostram que alguém, ou você, entrou no armário:

•  A pessoa recusa refeição e diz que não sente fome

•  As conversas param no meio e ninguém retoma

•  O quarto, o escritório ou o carro viram lugar de ficar sozinho por horas

O segundo passo é o chifre de leite. A tristeza piora com o estômago vazio e a noite mal dormida. Antes de falar sobre o que aconteceu, garanta o prato, o copo d'água e a cama arrumada.

O terceiro passo é o pedido de Torgerda. Ela escolheu poesia porque o pai era poeta. Para um marceneiro, a tarefa pode ser uma caixa para guardar as fotos. Para uma cozinheira, a receita que o morto preferia, escrita à mão para os netos. Para um contador, a organização dos papéis da família, feita com cuidado.

Um caso mostra a sequência. Uma viúva de sessenta anos passou duas semanas sem sair do quarto depois do enterro do marido. A filha mudou a mala para o quarto da mãe e dormiu lá três noites. Na quarta manhã, levou café e pão. No fim da semana, pediu ajuda para montar o álbum do casamento dos pais, com a história de cada foto escrita embaixo. A mãe passou duas tardes na mesa da sala, legenda por legenda.

O método não exige que o luto acabe. Egil terminou o poema ainda órfão dos filhos. A tarefa dá um lugar para a dor ficar, fora do armário.

Na primeira tentativa, a pessoa vai recusar, como Egil recusou. A filha insistiu até a terceira.

Torgerda pediu um poema e recebeu o pai de volta.

“Quem perto de mim se trancou no armário, e que ofício cabe nas mãos dele?”

Egil comeu.

 
 
10 Segundos Antes de Explodir. Oito gatilhos, um por dia, no ebook e no app. Quero o ebook + app.

Quero o ebook + app →

 
Quiz da edição

No capítulo 78 da Saga de Egil, o que Torgerda disse ao pai sobre a alga söl que mascava?

AQue aliviava a fome dela
BQue era oferenda para Freyja
CQue piorava seu estado e apressava o fim
DQue ajudava a dormir

Resultado da última edição: 2 de 3 acertaram.

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
Sua avaliação

Como foi a edição de hoje?

🛡️🛡️🛡️🛡️🛡️  ótima 🛡️🛡️🛡️🛡️  boa 🛡️🛡️🛡️  ok 🛡️🛡️  ruim 🛡️  péssima
 
Escolha a edição de quarta

Qual edição você quer ver?

1 toque vota. A mais votada sai na quarta, 07/10.

Voto aberto até 04/10, 15h30

A A Queda de Montaigne →
B Os Discorsi de Galileu →
C Os Doze Navios de Yi →
D A Canga de Temujin →
 
 

Quem banca a edição de hoje

Become an email marketing GURU.

Is your email strategy due for a tune-up? GURU Conference (powered by Constant Contact) is back Nov 12–13, 100% free and virtual. You'll get email tactics you can steal the same day from top B2B and B2C marketers. Last year, 29,000+ marketers showed up. Save your free spot.

Patrocinadores mantêm a edição gratuita

 
Recomendação de Newsletter
Best-Seller do Zero

Best-Seller do Zero

A técnica de escrita, um exercício simples e o mercado editorial, no seu email às 05:05.

Quero receber →

 
Sua ofensiva
🔥 {{streak_atual | 0}} recorde
{{streak_recorde | 0}}

{{streak_titulo | Comece sua ofensiva hoje}}

{{ouro_linha | Cada edição vale 10 de ouro: voto, quiz e clique.}}

sua patente

{{rank_simbolo | ◆}} {{rank_nome | Aprendiz}}

 

faltam {{xp_falta | 5}} de ouro pra {{rank_prox | próxima patente}}

{{edicoes_lidas | 1}}
edições
{{cliques | 0}}
cliques
{{avaliacoes_feitas | 0}}
avaliações
{{moedas | 0}} de ouro na carteira 🏪 loja e missões no hub

missão de hoje

📨 Mandar seu link pra 1 pessoa (1x por dia) +10
WhatsApp   Copiar link

Confirmou? +100 de ouro: entra no seu ouro à noite.

{{streak_cta | Começar minha ofensiva}}

{{vip_linha | }}

 
Camiseta da casa

Qual dessas camisetas você usaria?

Queremos criar uma comunidade forte e unida. Logo, escolha a arte e o tamanho da camiseta e entre na lista de espera. Se leitores suficientes pedirem, nós faremos essas camisetas.

Camiseta com a arte Seja a rocha onde as ondas quebram
Seja a rocha onde as ondas quebram
Camiseta com a arte O que fica no caminho vira o caminho
O que fica no caminho vira o caminho
Camiseta com a arte Sofremos mais na imaginação do que na realidade
Sofremos mais na imaginação do que na realidade

Escolher a minha arte →

 

Fortifique-se. Intus robur.

Fortaleza Interior

FORTALEZA INTERIOR

Construa o que não quebra

💬 WhatsApp·📣 Anuncie·✍️ Newsletter
📚 Artigos

Keep Reading

View
caret-right