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Com a lenha já empilhada no pátio de Sardes, o rei mais rico do mundo repetiu três vezes o nome de um estrangeiro. O persa que o venceu mandou perguntar quem era.
Sardes, capital da Lídia, 546 a.C., poucos dias depois da queda da cidade. No pátio do palácio, soldados persas empilham lenha e montam uma pira alta. Sobre ela colocam Creso, o rei que até aquele mês era dono do maior tesouro do mundo conhecido, e com ele catorze jovens lídios.
Ciro, o persa, tinha vencido a guerra que o próprio Creso começou. O oráculo de Delfos havia dito ao rei que, ao cruzar o rio Hális, ele destruiria um grande império. Creso cruzou o rio. O império destruído foi o dele.
Sobre a lenha, com o fogo já pronto para subir, o rei repetiu três vezes a mesma palavra: Sólon, Sólon, Sólon. Ciro mandou os intérpretes perguntarem que deus ou que homem era aquele que o prisioneiro chamava.
A resposta foi uma história de trinta anos antes. Sólon de Atenas, autor das leis que reorganizaram a cidade, tinha saído numa viagem de dez anos e passou por Sardes como hóspede do palácio.
Creso mandou os criados mostrarem ao ateniense todos os cômodos do tesouro. Terminado o passeio, fez a pergunta que interessava: de todos os homens que Sólon havia visto, qual era o mais feliz?
O grego respondeu Telo de Atenas. Um cidadão comum, filhos criados e vivos, netos nascidos, uma cidade em bom momento e um fim honrado em combate em Elêusis, com sepultura paga pela cidade no lugar onde caiu.
Perguntado quem vinha em segundo, citou Cléobis e Bíton, os dois irmãos de Argos que puxaram no próprio ombro o carro da mãe por quarenta e cinco estádios até o templo de Hera, e que receberam dos deuses o que a mãe pediu como melhor coisa possível para um humano.
Creso perdeu a paciência. Perguntou se a felicidade dele, com todo o ouro que o ateniense acabara de ver, não valia coisa alguma diante de gente comum. A resposta que veio é a única frase que sobrou daquele encontro.
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“É preciso observar o fim de cada coisa.”
Sólon de Atenas, registrado por Heródoto, Histórias, Livro I, 32, c. 440 a.C.
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Sólon não estava dizendo que o rei era infeliz. Estava dizendo que ninguém recebe esse nome antes do último dia, porque a fase alta é apenas o pedaço visível de uma vida que ainda não terminou de acontecer.
Creso ouviu, achou o hóspede tolo e o dispensou sem presentes, pelo raciocínio simples de quem manda: um homem que ignora o bem presente e manda olhar para o fim de tudo não tem nada a ensinar a um rei.
Entre aquele salão e a pira coube uma vida inteira. O rei perdeu o filho Átis num acidente de caça, entrou em guerra com a Pérsia por leitura errada de um oráculo e viu Sardes cair depois de catorze dias de cerco.
Ouvindo a explicação, Ciro se lembrou de que também era humano e mandou apagar o fogo, que já tinha pegado nas bordas. Segundo Heródoto, a chuva caiu e resolveu o que os soldados não davam conta. Creso desceu da pira e passou o resto dos anos como conselheiro do homem que o derrotou.
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