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1 leitor escolheu O Livro dos Cinco Anéis. Aqui está.
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O Livro que Musashi Escreveu na Caverna
Kumamoto, 1643: doente, o espadachim invicto subiu à caverna Reigando e pôs em 5 rolos tudo o que sabia.
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A caverna Reigando, onde Musashi escreveu
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O mestre de espada guarda o segredo da escola. Em 1643, no sul do Japão, Miyamoto Musashi subiu a uma caverna para escrever o dele por inteiro. Ele tinha quase sessenta anos e uma fama que nenhum espadachim do país igualava. No prefácio do próprio livro, Musashi conta que lutou mais de sessenta duelos entre os 13 e os 29 anos e não perdeu nenhum. O mais lembrado foi em 1612, na ilha de Funashima, contra Sasaki Kojiro, que caiu diante de uma espada de madeira que Musashi tinha talhado de um remo. Depois dos duelos vieram décadas de andança como ronin (samurai sem senhor). Só em 1640 ele aceitou abrigo fixo, em Kumamoto, na ilha de Kyushu, como hóspede de Hosokawa Tadatoshi, o daimiô (senhor feudal) da região. Tadatoshi gostava de esgrima e pediu ao velho mestre um resumo do método. Musashi entregou em 1641 um texto curto de 35 artigos. Semanas depois, o senhor que tinha pedido o texto partiu desta vida. Musashi ficou sem o patrono e sem a saúde. Os registros da casa Hosokawa descrevem um homem magro, que já não andava a cavalo. No décimo mês de 1643, ele subiu o monte Kinpo, a oeste da cidade, até a caverna Reigando, a Caverna do Espírito. A caverna é uma fenda larga na rocha, aberta para um vale de árvores. Dentro dela, numa parede de pedra, monges tinham entalhado séculos antes uma imagem de Kannon (a divindade budista da compaixão). Musashi levou papel, tinta e pincel. Não levou discípulos para treinar. Passava os dias sentado diante da abertura. Escrevia de manhã, quando a luz entrava reta, e parava quando a mão tremia. O texto de 1641 tinha servido a um senhor curioso. O novo serviria a quem ficasse depois dele. Ele já não tinha o corpo dos duelos de Funashima. Tinha a cabeça intacta e a pressa de quem sabe quanto tempo resta. O que Musashi escreveu naquela fenda, como dividiu o livro e a quem entregou o manuscrito estão na faixa I. Continue lendo ↓
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I A Pedra
Cinco rolos para um discípulo
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O livro que saiu da caverna se chama Go Rin no Sho (Livro dos Cinco Anéis). Miyamoto Musashi, que também assinava Shinmen Musashi no Kami Fujiwara no Harunobu, trabalhou nele de 1643 a 1645, com idas e vindas entre a caverna e a casa que os Hosokawa lhe davam na cidade.
Os cinco anéis são cinco rolos, cada um batizado por um elemento do budismo japonês. O primeiro, Chi (Terra), apresenta a escola dele, a Niten Ichi-ryu (Escola das Duas Espadas Como Uma), e compara o guerreiro ao carpinteiro que conhece cada viga da casa.
O segundo, Sui (Água), ensina a postura, o olhar e a pegada da espada. A água entra no nome porque toma a forma de qualquer recipiente. O terceiro, Ka (Fogo), trata da luta em si, do duelo à batalha, e de como perceber o momento em que o adversário perde o ritmo.
O quarto, Fu (Vento), examina as outras escolas da época e aponta onde cada uma erra: espada longa demais, técnica bonita demais, segredo demais. O quinto, Ku (Vazio), tem poucas páginas e descreve o estado em que o espadachim age sem hesitar, porque já não carrega dúvida.
No meio do primeiro rolo, Musashi deixa uma lista de nove preceitos para quem quer seguir o caminho. O último é seco:
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“Não faça nada que não tenha utilidade.”
Miyamoto Musashi, Livro dos Cinco Anéis, Livro da Terra, 1645
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Musashi escreveu o livro de um homem só para que o método sobrevivesse ao homem.
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Na primavera de 1645, a doença piorou. Hosokawa Mitsuhisa, filho e herdeiro de Tadatoshi, mandou buscá-lo e o levou de volta para a casa da cidade. Musashi desceu do monte Kinpo com os rolos prontos.
No dia 12 do quinto mês daquele ano, ele chamou o discípulo Terao Magonojo e entregou a ele o manuscrito do Livro dos Cinco Anéis. Junto, deu uma folha curta com 21 linhas, escrita naquela mesma semana, que chamou de Dokkodo (O Caminho de Andar Sozinho).
Também distribuiu o que tinha: armas, pinturas e objetos pessoais foram para os discípulos e amigos. Musashi pintava com tinta preta sobre papel, e algumas dessas obras, como um pássaro pousado num galho seco, estão hoje em museus japoneses.
Sete dias depois da entrega, no dia 19 do quinto mês de 1645, Musashi se foi em casa, em Kumamoto. Foi enterrado com armadura completa, segundo a tradição da escola, perto da estrada por onde passava o cortejo dos Hosokawa.
O manuscrito que Terao recebeu não chegou até nós. O livro sobreviveu por cópias feitas à mão pelos discípulos e pelos discípulos deles, e as versões guardadas hoje diferem em palavras soltas. Nenhum estudioso sabe dizer o que aconteceu com o original.
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II O Princípio
O ofício fora da cabeça
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O que você sabe só pertence aos outros quando cabe num papel que dispensa você.
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Musashi poderia ter ensinado até o último dia. Tinha alunos, tinha prestígio, tinha a casa Hosokawa inteira para ouvi-lo. Preferiu a caverna, longe dos alunos, porque a aula acaba quando o professor sai da sala, e o papel não.
A diferença entre os dois textos mostra o trabalho. Os 35 artigos de 1641 respondiam ao senhor que perguntava. O Livro dos Cinco Anéis responde a quem ainda não chegou e não terá a quem perguntar. Por esse motivo é mais longo, mais ordenado e mais duro com o que sobra.
O nono preceito governa o livro inteiro. Musashi corta golpe enfeitado, nome bonito e segredo de escola. Onde as outras escolas guardavam técnicas em pergaminhos fechados, ele escreve que o caminho está no treino diário e em mais nada.
Fora dos templos, o gesto aparece em qualquer ofício. Uma contadora que cuida sozinha do fechamento mensal de uma empresa pequena sabe de cor onde cada número costuma errar. Se ela adoece por duas semanas, o fechamento para, porque o método mora só na cabeça dela.
O risco cresce com o tempo de casa: quanto mais anos ela passa no posto, mais passos faz sem perceber, e menos deles saberia explicar se alguém perguntasse numa manhã de pressa.
No dia em que escreve as cinco verificações que faz todo mês, na ordem em que faz, o método passa a existir sem ela. Um colega novo fecha o mês seguinte com a folha na mão e um telefonema de dúvida.
Em casa, o avô que faz o pão de domingo há quarenta anos mede a farinha no olho. A receita some com ele, a menos que alguém a escreva enquanto o vê trabalhar, com medida, tempo de forno e o detalhe da massa que ele só sente com a mão.
O Dokkodo, a folha de 21 linhas, faz o mesmo com a vida de Musashi. Uma das linhas diz:
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“Não se arrependa do que fez.”
Miyamoto Musashi, Dokkodo, 1645
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Ele não escreveu as linhas para se consolar. Escreveu para que Terao tivesse, em poucas palavras, o modo de viver que acompanhava a espada.
Escrever o próprio ofício exige humildade de um tipo raro: admitir que o que você faz pode ser feito por outro. Musashi, invicto em mais de sessenta duelos, aceitou essa conta aos sessenta anos, com a mão tremendo.
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