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1 leitor escolheu O Círculo de Popílio. Já saiu na edição 135.
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O Juramento que Metelo Recusou
Roma, 100 a.C.: o Senado inteiro jura a lei de Saturnino, e um único senador prefere o exílio.
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A cadeira vazia de Metelo no Senado
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Em 100 a.C., Roma tinha um homem que parecia impossível de contrariar. Caio Mário era cônsul pela sexta vez, recorde que nenhum romano tinha alcançado, e acabava de salvar a Itália de duas invasões germânicas, a dos cimbros e a dos teutões. Ao lado dele agia um tribuno da plebe (magistrado eleito para defender o povo, com poder de propor leis e de vetar as dos outros) chamado Lúcio Apuleio Saturnino. Era orador inflamado e tinha a rua a seu favor. Saturnino apresentou uma lei agrária (lei sobre a divisão de terras públicas) para assentar os veteranos de Mário em terras da Gália. A votação correu com pancadaria no fórum, e a lei passou. Faltava a armadilha. O texto trazia uma cláusula nova: cada senador teria cinco dias para jurar obediência à lei. Quem não jurasse perderia a cadeira no Senado e pagaria multa de vinte talentos, uma fortuna. A cláusula tinha um alvo. Quinto Cecílio Metelo, ex-cônsul de 109 a.C., era o adversário mais velho de Mário. Tinha comandado a guerra contra Jugurta, rei da Numídia, no norte da África, e dali levara o sobrenome Numídico. Mário, conta Plutarco, sabia que Metelo não juraria. Então armou o teatro. Na primeira reunião, declarou diante dos senadores que também ele se recusaria a prestar aquele juramento. Metelo concordou com ele, e os outros o aplaudiram. No quinto dia, Mário mudou de posição. Disse que juraria, desde que aquilo fosse lei de fato, uma ressalva que não obrigava a nada. Os senadores, com medo da multidão que cercava o templo, foram atrás dele, um depois do outro. Plutarco anota que Mário manobrou para ser visto jurando primeiro, justamente para puxar a fila. Metelo ficou sentado. Amigos insistiram, parentes pediram, e ele recusou. Era o único senador a recusar, e todos no templo sabiam que a lei previa punição para ele. A frase que explicou a recusa, e o preço que ele aceitou pagar por ela, abrem a primeira faixa desta edição. Continue lendo ↓
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I A Pedra
Cinco dias para jurar
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Quinto Cecílio Metelo Numídico tinha perto de sessenta anos quando se negou a jurar a lei de Saturnino. Plutarco, na Vida de Mário, registra o que ele disse aos amigos que tentavam convencê-lo a ceder.
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“Fazer o mal é vil; fazer o bem quando não há perigo é comum; mas fazer o bem no perigo é próprio do homem bom.”
Plutarco, Vida de Mário, 29, c. 100 d.C.
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Metelo não estava blefando. Sabia o que viria, porque a lei previa a punição e porque Saturnino não costumava ameaçar à toa.
O tribuno foi além da multa. Propôs contra Metelo a interdição de água e fogo (a pena romana que proibia qualquer cidadão de dar abrigo, comida ou fogo ao condenado, o que na prática era expulsão da Itália). A proposta seguiu para votação no fórum.
Nas ruas, parte da cidade se levantou a favor do velho senador. Plutarco conta que cidadãos de boa posição se ofereceram para defendê-lo pela força, armados, contra os homens de Saturnino.
Metelo recusou a oferta. Não queria que Roma entrasse em luta civil por causa dele. Disse, segundo o relato, que se a situação melhorasse o povo o chamaria de volta, e que se piorassem o melhor lugar para ele era longe dali.
Partiu para Rodes, ilha grega no mar Egeu, famosa pelas escolas de retórica e filosofia. Lá passou o exílio estudando e conversando com mestres, sem escrever manifestos contra os inimigos.
Em Roma, a situação desabou poucos meses depois. Saturnino tentou eleger um aliado ao consulado com violência, e um candidato rival, Mêmio, acabou morto no fórum. O Senado decretou estado de emergência e mandou Mário restabelecer a ordem.
Mário obedeceu. Cercou o aliado de ontem no Capitólio, obrigou-o a se render e o trancou na Cúria. A multidão subiu ao telhado, arrancou as telhas e as lançou sobre os presos. Saturnino não saiu vivo dali.
A volta de Metelo levou mais um ano de campanha. O filho dele percorreu Roma pedindo, em lágrimas, a revogação do exílio, e pela devoção ao pai recebeu o apelido de Pio. Em 99 a.C., o tribuno Quinto Calídio aprovou a lei do retorno.
Mário não quis assistir à chegada do rival. Plutarco conta que ele partiu para a Ásia pouco antes, alegando cumprir um voto aos deuses.
Metelo retomou a cadeira no Senado e viveu ainda alguns anos em Roma. As fontes antigas não dizem como terminou a vida dele: Cícero menciona um boato de veneno, sem prova, e a data exata ficou perdida.
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II O Princípio
A cadeira que ficou vazia
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Jurar o que a consciência recusa custa mais caro que a multa de quem recusa.
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O juramento de 100 a.C. tinha um desenho engenhoso. Saturnino não pediu que os senadores concordassem com a lei. Pediu apenas uma frase dita diante dos deuses, e deixou o medo fazer o resto.
Os outros senadores tinham argumentos razoáveis. A lei já tinha passado, a multidão estava no fórum, e a ressalva de Mário oferecia uma porta de saída elegante. Cada um podia jurar e dizer a si mesmo que não jurava de verdade.
Metelo recusou justamente essa porta. Para ele, a palavra dada em público valia pelo que dizia, e não pela nota de rodapé que alguém colocasse depois.
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“Só tu sabes quanto vales para ti mesmo e por quanto te vendes.”
Epicteto, Diatribes, 1, 2, c. 108 d.C.
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Epicteto, filósofo estoico que nasceu escravo, usa a frase para falar de um homem convidado a participar de um espetáculo humilhante. Uns aceitam, outros não. A diferença não está na ameaça, que é igual para todos, e sim no preço que cada um cobra por si.
A frase de Metelo guardada por Plutarco divide a conduta em três degraus. Fazer o mal é baixo. Fazer o bem quando nada ameaça é comum, e quase todo mundo consegue. O teste real aparece no terceiro degrau, quando o certo cobra um custo.
Há um cuidado honesto a fazer. Metelo era aristocrata, rico e com amigos poderosos. O exílio em Rodes, entre filósofos, não se compara ao de um pobre expulso da terra. A coragem dele teve almofada.
Mesmo assim, os outros senadores também tinham almofada, e juraram. A diferença entre eles não estava no patrimônio. Estava na pergunta que cada um se fez naqueles cinco dias: quanto me custa recusar, ou quanto me custa jurar.
Serve no trabalho. A assinatura num relatório que você sabe que maquia um número. A concordância silenciosa numa reunião em que o chefe decide algo injusto com um colega. O juramento moderno quase nunca tem deuses por testemunha; costuma ser um sim dito rápido para evitar desconforto.
Serve fora dele. O grupo de amigos que ri de alguém ausente e espera a sua risada. A pequena mentira pedida por um parente para encobrir outra.
Existe um limite claro. Nem toda regra ruim merece exílio, e a maior parte das discordâncias se resolve com argumento, voto ou paciência. O juramento de Metelo pedia uma declaração falsa em público. Quando o pedido é esse, a recusa deixa de ser teimosia.
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