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Uma escolta armada fechou a prancha na frente dela em dez segundos. A resposta levou dias de mar aberto num barco alugado por moeda de bronze.
A revolta que provocou aquela viagem durou cinco dias. Em 42, Lúcio Arrúncio Camilo Escriboniano, governador da Dalmácia, levantou as duas legiões da província contra o imperador Cláudio. As legiões pensaram melhor em menos de uma semana, abandonaram o movimento, e o governador fugiu para a ilha de Issa, de onde não voltou.
O que sobrou foi a devassa. Cláudio mandou apurar quem em Roma tinha combinado alguma coisa com o governador, e a apuração alcançou senadores, cavaleiros e ex-cônsules pelo nome citado numa carta, numa conversa ou na delação de terceiro.
Um dos nomes era Aulo Cecina Peto, que tinha sido cônsul cinco anos antes. Os soldados chegaram, prenderam e informaram o procedimento: embarque imediato, travessia do Adriático, julgamento diante do imperador em Roma.
A mulher dele, Arria, foi junto até o cais.
Ela não pediu clemência, não pediu adiamento e não discutiu a acusação. Pediu uma vaga a bordo, e pediu com argumento de logística, não de sentimento. Um homem de posto consular ia receber escravos para servir a comida, para vesti-lo, para calçá-lo. Ela se oferecia para fazer todo o serviço sozinha, o que diminuía o número de corpos no convés em vez de aumentar.
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"Vocês vão dar a um homem de posto consular alguns escravos, de cuja mão ele receba a comida, por quem seja vestido, por quem seja calçado. Eu farei tudo sozinha."
Plínio, o Jovem, Cartas, livro III, carta 16, c. 105 d.C.
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Os soldados negaram. Não houve debate, não houve recurso e não havia autoridade acima daquela escolta no cais naquela manhã. O navio era grande, a lista estava fechada, e o nome dela não constava.
A negativa tinha peso prático, não simbólico. Sem lugar a bordo, ela passaria semanas sem notícia nenhuma, chegaria a Roma com o processo já encaminhado e entraria no assunto no ponto em que não sobra nada para fazer.
Arria não voltou para casa. Desceu o cais, procurou um pesqueiro, negociou o preço e alugou o barco.
Vale olhar as duas embarcações lado a lado. De um lado, um transporte imperial de casco alto, tripulação completa, escolta armada, porão, mastro grande, rota definida por ordem escrita. Do outro, um bote de pesca raso, sem coberta, sem cabine, sem nenhuma proteção contra o vento que desce do continente e cruza o Adriático de través.
Ela embarcou no bote e mandou seguir o navio.
A travessia foi feita assim, com o casco grande sempre à frente no horizonte e o casco pequeno atrás, na esteira. Sem escala prevista, sem autoridade a quem se apresentar na chegada e sem garantia de que o desembarque dela seria permitido em qualquer porto da Itália.
Quando o navio atracou, o pesqueiro atracou também.
Em Roma ela apareceu onde o assunto estava sendo decidido. No palácio, cruzou com a viúva do governador da Dalmácia, que tinha entregado nomes na apuração, e se recusou a trocar palavra com ela na frente de todos. Ao genro, senador, que tentou demovê-la do que pretendia fazer pelo marido, respondeu com o mesmo cálculo seco que tinha usado no cais.
A escolta decidiu quem subia a bordo. Não decidiu quem chegava.
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