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Um romano condenado e sem cargo propõe atacar naquela mesma noite o exército que acabara de tomar Roma.
Árdea, verão de 390 a.C., uma cidade rútula a cerca de trinta e cinco quilômetros ao sul de Roma. Um romano sem cargo nenhum, condenado por um tribunal da própria cidade, pede a palavra na assembleia dos moradores que o hospedavam.
O homem era Marco Fúrio Camilo. Seis anos antes ele tinha entregado a Roma a vitória mais difícil da geração, a tomada de Veios, cidade etrusca rival que resistira a um cerco de dez anos.
A queda foi rápida. Um tribuno da plebe o acusou de ter ficado com parte do espólio de Veios, e o processo correu com a cidade dividida. Camilo saiu antes do julgamento e recebeu à revelia uma condenação de quinze mil asses.
Tito Lívio registrou o que ele fez ao deixar a cidade, parado no portão.
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"Orou aos deuses imortais que, se aquela injustiça era feita a um inocente, fizessem a cidade ingrata sentir a falta dele o quanto antes."
Tito Lívio, Ab Urbe Condita, livro V, 32, c. 25 a.C.
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O pedido se cumpriu depressa. Em 18 de julho de 390 a.C., o exército romano foi desfeito às margens do rio Ália por um exército gaulês comandado por Breno.
Os gauleses entraram numa Roma quase vazia e a saquearam. Quem escapou da Ália se juntou em Veios, a cidade que Camilo havia conquistado. No alto do Capitólio, senadores e uma guarnição pequena ficaram cercados, sem mandar nem receber notícia.
Com Roma tomada, bandos gauleses passaram a vasculhar o campo em volta atrás de comida e despojo. Um deles acampou perto de Árdea, com carroças cheias e sem disciplina de guarda, e passou a noite entre a comida e o vinho.
Camilo pediu a palavra na assembleia. Não tinha cargo, não tinha tropa e não tinha cidade: falava como estrangeiro hospedado, diante de gente que não lhe devia obediência nenhuma.
O argumento foi curto. O inimigo estava a poucas horas de marcha e caído de sono, e uma vitória daquelas valeria para Árdea mais do que qualquer muralha nova.
A assembleia aprovou e armou os homens em idade de combate. Ainda naquela noite a coluna saiu da cidade, encontrou o acampamento aberto e sem sentinela, e poucos gauleses chegaram a pegar em armas.
A notícia chegou a Veios em poucos dias. Os romanos reunidos ali, sob o centurião Quinto Cedício, queriam Camilo à frente do exército e mandaram mensageiros a Árdea.
Ele disse não. O mesmo homem que atacara sem esperar ordem de ninguém recusou o comando enquanto o povo romano, cercado no Capitólio, não votasse o decreto que lhe devolvia a cidadania e o poder.
A solução coube a um jovem chamado Pôncio Comínio. Ele desceu o Tibre deitado sobre cortiça, atravessou de madrugada a área ocupada e subiu o rochedo Carmental agarrado à pedra, até os magistrados no Capitólio.
O Senado se reuniu no alto da colina cercada. Os comícios curiatos revogaram o exílio e nomearam Camilo ditador à revelia. Só com o decreto na mão ele assumiu o comando das legiões.
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