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Michel Eyquem de Montaigne nasceu em 28 de fevereiro de 1533, no castelo da família, a leste de Bordeaux. O pai o fez aprender latim antes do francês, com um preceptor alemão que não falava a língua da casa.
Estudou direito e serviu treze anos como conselheiro no Parlamento de Bordeaux, o tribunal da região. Ali conheceu Étienne de La Boétie, o amigo que viu partir em 1563, vítima de disenteria, sentado ao lado da cama dele.
Em 1568 perdeu o pai e herdou o castelo. A queda veio nessa fase, entre a herança e a decisão de largar o cargo público. Ele não anotou o dia exato; os estudiosos situam o acidente entre 1569 e 1570, durante a terceira guerra de religião.
O relato está no capítulo 6 do Livro II dos Ensaios, chamado “Do Exercitar-se” (da prática, do treino). Ele o escreveu cerca de dez anos depois e o publicou na primeira edição do livro, em Bordeaux, em 1580.
Conta que, ao recobrar algum sentido, não lembrava nada do choque. Pediu que dessem um cavalo à mulher, que vinha tropeçando pelo caminho ao encontro dele. Achou que tinha levado um tiro de arcabuz (a espingarda pesada da época) na cabeça, porque ouvia disparos por perto.
A respeito do trajeto até a casa, escreveu a frase que resume o estado em que estava:
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“Parecia-me que a minha vida só se segurava na ponta dos lábios; fechava os olhos, me parece, para ajudar a empurrá-la para fora, e sentia prazer em me deixar ir.”
Montaigne, Ensaios, Livro II, capítulo 6, 1580
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Deitado em casa, sem saber de onde vinha nem para onde ia, recusou o remédio que lhe ofereciam, convencido de que o ferimento na cabeça não tinha cura. Não estava sofrendo; estava apenas fraco, mole e sem vontade de reagir.
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O corpo que os criados viam se debatendo abrigava um homem cochilando.
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A dor só chegou duas ou três horas depois, quando os membros recuperaram a sensação. Ele passou duas ou três noites moído, e escreveu que se sentiu pior nessa fase do que no instante da queda.
A lembrança do acidente voltou por último. Dias depois, a imagem do cavalo vindo para cima dele surgiu de repente, como um relâmpago, e só então ele sentiu o susto que não sentira na estrada.
Em 1571, aos 38 anos, se recolheu à torre da biblioteca do castelo para escrever. Foi prefeito de Bordeaux entre 1581 e 1585 e encerrou a vida no próprio castelo em 13 de setembro de 1592, de uma infecção na garganta que lhe tirou a fala nos últimos dias.
O criado e o cavalo da queda nunca foram nomeados. Ninguém sabe quem eram, porque Montaigne não escreveu e nenhum outro papel da casa guardou o episódio.
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