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Montaigne e a Queda de Cavalo de 1569

Périgord, 1569: dado como perdido após cair do cavalo, Montaigne descreveu por dentro uma calma que ninguém ao redor via.

Sela de couro caída numa estrada de terra, com uma espada na poeira.

Périgord, por volta de 1569: a queda

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N inguém volta para contar como é morrer. Por volta de 1569, Michel de Montaigne voltou.

Era um senhor rural de 36 anos no Périgord, região do sudoeste da França, dono de um castelo cercado de vinhedos. A terra viera de um bisavô, Ramon Eyquem, comerciante de peixe salgado e vinho em Bordeaux, que a comprara em 1477.

A França vivia a terceira das guerras de religião, católicos contra protestantes. Bandos armados cruzavam as estradas, e nenhum fidalgo saía de casa sem espada na cintura.

Numa tarde, ele saiu a cavalo com alguns criados para uma volta curta, a menos de uma légua do castelo. Montava um cavalo pequeno e manso, escolhido justamente por ser fácil de conduzir.

Um dos criados, grande e forte, ia num cavalo de boca dura. Quis mostrar ousadia aos companheiros, disparou a galope pelo caminho onde Montaigne vinha e caiu sobre ele como um colosso sobre um anão.

O cavalo pequeno foi ao chão. Montaigne voou uns dez ou doze passos e ficou estendido de costas, desacordado, com o rosto esfolado, a espada longe da mão e o cinto rompido em pedaços.

Não se mexia. Os criados tentaram reanimá-lo sem resultado e, julgando que o patrão estava acabado, o ergueram nos braços e o levaram com muito custo para casa.

No trajeto, quase duas horas depois da queda, ele começou a respirar com força. Vomitou um balde de sangue coagulado. Quem o carregava via gestos de agonia: ele arrancava o gibão (o casaco justo da época) com as unhas, como se quisesse se livrar da roupa.

Por dentro, a cena era outra. Montaigne não sentia dor nem medo. Sentia uma moleza doce, parecida com a de quem cochila.

Anos depois, ele pôs tudo num ensaio curto e deixou escrito o que sentiu naquela estrada, contra tudo o que os criados viam. Como ele entendeu aquela moleza, e por que voltou a ela tantas vezes, a seção I conta.

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I  A Pedra

A estrada a uma légua de casa

Michel Eyquem de Montaigne nasceu em 28 de fevereiro de 1533, no castelo da família, a leste de Bordeaux. O pai o fez aprender latim antes do francês, com um preceptor alemão que não falava a língua da casa.

Estudou direito e serviu treze anos como conselheiro no Parlamento de Bordeaux, o tribunal da região. Ali conheceu Étienne de La Boétie, o amigo que viu partir em 1563, vítima de disenteria, sentado ao lado da cama dele.

Em 1568 perdeu o pai e herdou o castelo. A queda veio nessa fase, entre a herança e a decisão de largar o cargo público. Ele não anotou o dia exato; os estudiosos situam o acidente entre 1569 e 1570, durante a terceira guerra de religião.

O relato está no capítulo 6 do Livro II dos Ensaios, chamado “Do Exercitar-se” (da prática, do treino). Ele o escreveu cerca de dez anos depois e o publicou na primeira edição do livro, em Bordeaux, em 1580.

Conta que, ao recobrar algum sentido, não lembrava nada do choque. Pediu que dessem um cavalo à mulher, que vinha tropeçando pelo caminho ao encontro dele. Achou que tinha levado um tiro de arcabuz (a espingarda pesada da época) na cabeça, porque ouvia disparos por perto.

A respeito do trajeto até a casa, escreveu a frase que resume o estado em que estava:

“Parecia-me que a minha vida só se segurava na ponta dos lábios; fechava os olhos, me parece, para ajudar a empurrá-la para fora, e sentia prazer em me deixar ir.”

Montaigne, Ensaios, Livro II, capítulo 6, 1580

Deitado em casa, sem saber de onde vinha nem para onde ia, recusou o remédio que lhe ofereciam, convencido de que o ferimento na cabeça não tinha cura. Não estava sofrendo; estava apenas fraco, mole e sem vontade de reagir.

O corpo que os criados viam se debatendo abrigava um homem cochilando.

A dor só chegou duas ou três horas depois, quando os membros recuperaram a sensação. Ele passou duas ou três noites moído, e escreveu que se sentiu pior nessa fase do que no instante da queda.

A lembrança do acidente voltou por último. Dias depois, a imagem do cavalo vindo para cima dele surgiu de repente, como um relâmpago, e só então ele sentiu o susto que não sentira na estrada.

Em 1571, aos 38 anos, se recolheu à torre da biblioteca do castelo para escrever. Foi prefeito de Bordeaux entre 1581 e 1585 e encerrou a vida no próprio castelo em 13 de setembro de 1592, de uma infecção na garganta que lhe tirou a fala nos últimos dias.

O criado e o cavalo da queda nunca foram nomeados. Ninguém sabe quem eram, porque Montaigne não escreveu e nenhum outro papel da casa guardou o episódio.

 
 

II  O Princípio

O ensaio que só se faz uma vez

Antes da queda, Montaigne pensava como os estoicos (filósofos gregos e romanos que pregavam firmeza diante da dor). No Livro I, num ensaio com título tirado de Cícero, “Que filosofar é aprender a morrer”, ele recomendava ter o fim sempre na cabeça, para tirar dele a surpresa.

O capítulo da queda começa por um problema dessa receita. A razão e o estudo, diz ele, pouco preparam a alma; quem forma a alma é a experiência. Só que o fim, a maior tarefa que temos pela frente, ninguém consegue treinar: chega uma só vez, sem ensaio.

Mesmo assim, ele achou uma brecha:

“Parece-me, contudo, que há algum modo de nos domesticarmos com ela e de experimentá-la de algum jeito.”

Montaigne, Ensaios, Livro II, capítulo 6, 1580

A brecha eram os estados vizinhos: o sono, o desmaio, a queda. Neles a pessoa chega perto da borda e volta. Montaigne trata o acidente como o treino mais próximo que um vivo pode ter.

O que o treino mostrou contrariou a imagem que ele tinha. Quem assiste a um ferido se debatendo imagina sofrimento proporcional aos gestos. Ele próprio tinha arrancado o gibão com as unhas e não sentira nada.

Daí tirou a regra do capítulo: julgamos a agonia alheia pelo nosso medo, olhando de fora. Os gestos que assustam a família podem ser movimentos do corpo sem ninguém dentro para sofrer com eles.

O medo se forma olhando de fora; a experiência chega por dentro.

A conclusão teve consequência prática na escrita dele. O tom severo dos primeiros ensaios afrouxou, e o fim deixou de ser um inimigo a encarar todo dia com dentes cerrados.

Quinze anos depois, a vida lhe deu uma segunda prova. Em 1585, a peste chegou ao Périgord e obrigou a família a deixar o castelo e vagar seis meses pela região, sem abrigo fixo.

No Livro III, no ensaio “Da Fisionomia”, ele descreve os camponeses que viu nesse período. Gente sem leitura de filósofo cavava a própria cova e se deitava nela com uma calma que nenhum livro estoico tinha ensinado a ele.

O raciocínio fechou ali. A preparação que ele buscara nos clássicos, os lavradores tinham sem livro algum, e a queda de cavalo tinha mostrado o mesmo por dentro: o que se teme é o retrato que se faz do fim.

 

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III  A Forja do Dia

A queda no papel

Você não precisa cair de um cavalo. Precisa separar, por escrito, o que imagina olhando de fora e o que sentiria por dentro, diante do evento que adia por medo.

1. De manhã, escreva a cena: em três linhas, descreva como imagina a conversa, o exame ou a decisão que você vem empurrando.

2. À tarde, separe as vistas: sublinhe o que é reação de quem assiste (rosto, julgamento, comentário) e circule o que você de fato sentiria no corpo.

3. À noite, compare com um caso real: anote um episódio antigo parecido, já vivido, e o que sentiu nele, hora a hora.

O primeiro passo copia o ensaio. Montaigne só entendeu a queda quando a pôs no papel, dez anos depois, frase por frase.

O segundo copia a descoberta dele. Os criados viam agonia; ele sentia cochilo. Quase toda cena temida mistura as duas vistas, e a de fora costuma ser a maior.

O terceiro troca a imaginação pela memória. Montaigne usou a própria queda e, mais tarde, os camponeses de 1585. Você também tem episódios guardados que já responderam à pergunta.

Um caso mostra a sequência. Um gerente de 47 anos adiava havia oito meses o pedido de demissão de uma empresa onde estava fazia quinze. A cena que ele imaginava tinha o diretor ofendido, colegas comentando e a família preocupada.

Na tarde do segundo passo, percebeu que quase tudo na lista era reação de terceiros. Por dentro, o que sentiria eram dez minutos de garganta seca numa sala fechada.

No terceiro passo, lembrou de quando saiu do primeiro emprego, aos 25. A conversa durou vinte minutos, o chefe apertou a mão dele e o resto do mês passou sem drama. Pediu a demissão na semana seguinte.

O método tem limite, e Montaigne o reconheceu. Ele avisou que contava o que acontecera com ele, sem pretender ditar regra a ninguém: “Não ensino, conto”, escreveu no Livro III. Uma queda de cavalo não garante que o fim verdadeiro venha brando.

O mesmo cuidado vale aqui. O exercício diminui o tamanho do medo, mas não apaga o risco real; se a cena tiver perigo concreto, o papel ajuda a decidir, não a ignorar.

A cena que você ensaia de fora costuma pesar mais que a que vive por dentro.

“Que medo seu você só conhece pelo lado de fora?”

Montaigne voltou à sela.

 
 
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No relato da queda, a quantos passos o corpo de Montaigne foi lançado pelo ar antes de cair estendido no chão?

AVinte passos
BDez ou doze passos
CCinco passos
DTrinta passos

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