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Mawson e as Solas Amarradas de Volta aos Pés

Antártida, 1913: sem os dois companheiros, Douglas Mawson remenda os próprios pés e caminha sozinho até Cape Denison.

Trenó de madeira serrado ao meio sobre o gelo azul.

Antártida, 1913: o trenó cortado ao meio

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Expedição polar de trenó não volta com um homem só. Em fevereiro de 1913, na costa antártica ao sul da Austrália, Douglas Mawson voltou.

Ele tinha 30 anos, era geólogo, nascido na Inglaterra e criado em Sydney, e comandava a Expedição Antártica Australasiana. A base ficava em Cape Denison, um cabo onde o vento descia do planalto quase sem pausa e arrancava barraca mal presa.

Não era estreante no gelo. Na expedição de Ernest Shackleton, entre 1908 e 1909, tinha chegado com Edgeworth David e Alistair Mackay à região do polo sul magnético, numa marcha de ida e volta de mais de dois mil quilômetros, puxando o trenó à mão.

Em novembro de 1912, ele partiu para o leste com dois companheiros: o tenente britânico Belgrave Ninnis e o suíço Xavier Mertz, campeão de esqui e formado em direito. Levavam trenós, cães da Groenlândia e a missão de mapear um trecho de costa que ninguém tinha pisado.

Na tarde de 14 de dezembro, a mais de 500 quilômetros da base segundo o diário de Mawson, Ninnis atravessou uma ponte de neve sobre uma fenda. A ponte desabou sob o peso. Homem, trenó e seis cães sumiram no gelo.

O trenó perdido levava quase toda a comida, a barraca boa e o melhor da matilha. Os dois sobreviventes chamaram por horas na borda da fenda. Só ouviram o gemido de um cão ferido numa saliência lá embaixo, e depois nada.

A volta começou na mesma noite. Sem ração, comeram os cães que restavam, um por um, inclusive o fígado. Mertz enfraqueceu primeiro: diarreia, delírio, a pele soltando em placas. Na manhã de 8 de janeiro, não acordou mais no saco de dormir.

Mawson ficou com um trenó, pouca comida e mais de 160 quilômetros de gelo até a base. Como ele cobriu essa distância com os pés em carne viva vem logo abaixo, na primeira parte.

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I  A Pedra

As solas embrulhadas em lã

Douglas Mawson começou a marcha final com uma faca de bolso. Serrou o trenó ao meio para arrastar menos peso, costurou uma vela com a jaqueta de Mertz e deixou para trás tudo que não comia nem aquecia.

Três dias depois, cada passo doía de um jeito estranho. Na barraca, tirou as meias e encontrou a sola de cada pé descolada, uma camada inteira de pele grossa, com a carne úmida e viva embaixo.

“A visão dos meus pés me deu um choque: a pele grossa das solas tinha se separado, em cada um, como uma camada inteira.”

Douglas Mawson, The Home of the Blizzard (A Casa da Nevasca), 1915

Ele não tinha atadura nem pomada. Tinha lanolina (gordura de lã de carneiro, usada como creme). Untou a carne, encaixou as solas soltas de volta no lugar, como palmilhas, e amarrou tudo com tiras de pano.

Por cima, vestiu seis pares de meias de lã e as botas de pele, segundo o próprio relato. Depois levantou e seguiu andando.

A causa provável ficou sem nome por meio século. Em 1969, os médicos australianos John Cleland e R. V. Southcott publicaram no Medical Journal of Australia a hipótese de hipervitaminose A (excesso de vitamina A no corpo), vinda do fígado dos cães.

O fígado de cão da Groenlândia acumula vitamina A em dose tóxica para humanos. Entre os sintomas do excesso estão a pele soltando em placas, a queda de cabelo, a diarreia e a confusão mental. Mertz, que comia mais fígado por não digerir bem a carne dura, teve todos.

A hipótese não é certeza. Fome e frio extremo produzem sinais parecidos, e ninguém examinou o corpo de Mertz, que ficou enterrado na neve. O efeito, porém, ninguém discute: cada passo de Mawson pisava em carne exposta.

Mawson andou mais de 160 quilômetros sobre solas presas com pano e lanolina.

O meio trenó ainda salvaria a vida dele. Dias depois, outra ponte de neve cedeu e Mawson despencou numa fenda. O trenó travou na borda, e ele ficou pendurado pela corda do arreio, girando no vazio, uns quatro metros abaixo da superfície.

Subiu nó por nó, alcançou a borda, e a borda desabou. Caiu de novo até o fim da corda. Na segunda subida, já sem força nas mãos, chegou ao gelo firme e ficou deitado, inconsciente, por uma ou duas horas, segundo o diário.

Naquela noite, na barraca, trançou uma escada de corda presa ao arreio, pronta para a próxima fenda. Também cortou pela metade o que comia por dia, porque a ração precisava durar até a base.

 
 

II  O Princípio

Só mais uma tentativa

Pendurado na fenda, Douglas Mawson pensou em abrir a fivela do arreio. Escreveu depois que a tentação foi real: bastava um gesto e o sofrimento terminava. O que o fez subir pela segunda vez foram uns versos que lhe vieram à cabeça na corda.

Eram do poeta anglo-canadense Robert Service, popular entre os exploradores da época:

“Tente só mais uma vez. Desistir é facílimo; difícil é continuar vivendo.”

Robert Service, The Quitter (O Desistente), 1912

O verso descreve o princípio, e a marcha mostra o método. Epicteto, escravo liberto que ensinou filosofia em Nicópolis no século II, dividia o mundo em duas partes: o que depende de nós e o que não depende.

O vento, as fendas e a comida perdida com Ninnis não dependiam de Mawson. O próximo passo dependia. A atenção dele encolheu até caber nesse pedaço: amarrar as solas de manhã, andar até a próxima elevação, montar a barraca, anotar a distância.

Quando o destino é grande demais, a tarefa vira o próximo passo.

Nos piores dias, a marcha rendeu um ou dois quilômetros, e houve dias parados por nevasca dentro da barraca. Ele anotava mesmo assim. O caderno provava a ele mesmo que a volta seguia.

Em 29 de janeiro, encontrou o que o método sozinho não garantia: um monte de neve com um pano preto no topo. Era um depósito de comida deixado horas antes por três colegas da base, Archibald McLean, Frank Hurley e Alfred Hodgeman, que tinham saído para procurá-lo.

Junto vinha um bilhete com a direção de Aladdin's Cave (Caverna de Aladim), um abrigo escavado no gelo perto da base. Os três tinham voltado poucas horas antes de ele chegar ao monte.

O depósito não resolveu a descida. As botas escorregavam no gelo liso, e Mawson improvisou crampons (garras de metal para andar no gelo) com pregos e a madeira da caixa do trenó.

Chegou à Caverna de Aladim no início de fevereiro e ali ficou preso uma semana por uma nevasca, com comida, mas a poucos quilômetros da base, sem poder descer.

O princípio tem um limite claro. O próximo passo mantém quem anda de pé, mas não escolhe a direção. Mawson tinha bússola, o rastro da ida e a linha da costa como guia. Sem a direção certa, a disciplina do passo só gasta o corpo mais rápido.

 

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III  A Forja do Dia

O próximo marco de gelo

Ninguém aqui vai cruzar gelo antártico com as solas presas por pano. Mas todo mundo conhece a semana em que o plano cai numa fenda: a demissão, o diagnóstico, o sócio que sai. A marcha de Mawson deixa três gestos que servem longe do gelo.

1. Amarre o que soltou antes de andar: trate hoje o dano imediato com o que tem na mão, como a lanolina. Uma ligação, um curativo, uma conta atrasada paga.

2. Corte o trenó ao meio: liste o que você arrasta e deixe para trás o que não alimenta nem aquece a semana. Compromisso extra, projeto paralelo, discussão antiga.

3. Ande até a próxima elevação: escolha um marco que você enxerga daqui, uma entrega até sexta ou uma conversa amanhã, e anote à noite quanto andou, mesmo que tenha sido pouco.

O primeiro gesto copia a barraca do terceiro dia. Mawson não esperou chegar à base para cuidar dos pés; cuidou ali, com o pouco que havia.

O segundo copia a faca de bolso. Meio trenó pesava metade, e o peso que sobrou era só o que mantinha o corpo vivo.

O terceiro copia o caderno. Um quilômetro anotado num dia de nevasca ainda era prova de marcha.

Um caso mostra a sequência. Um marceneiro de 47 anos perdeu o maior cliente da oficina num mês ruim. Na primeira semana, renegociou o aluguel atrasado. Na segunda, encerrou duas linhas de móveis que davam prejuízo. Depois, marcou uma visita por dia a lojas do bairro e anotou cada uma.

Oito meses depois, a oficina tinha três clientes menores no lugar do grande. O prejuízo do mês ruim continuava no balanço; a oficina também.

O método tem limite. Mawson voltou porque a direção estava certa e porque três colegas deixaram comida no caminho. Quem atravessa sozinho uma perda grande precisa do mesmo depósito: gente avisada sabendo por onde você anda.

Em 8 de fevereiro, Mawson desceu a encosta até Cape Denison. O Aurora, navio que levaria a expedição para casa, era um ponto no horizonte: tinha zarpado horas antes. Seis homens tinham ficado na base à espera dele. O primeiro a alcançá-lo foi o engenheiro Frank Bickerton, que olhou o rosto descarnado e perguntou: “Qual de vocês é?”

O navio recebeu o recado pelo rádio, mas o tempo piorou e o capitão não pôde voltar. Mawson passou mais um inverno no cabo, sob o mesmo vento.

Diante da perda, cuide do pé e só depois meça a distância.

“Qual é o próximo marco que você enxerga daqui, e quanto vai anotar hoje à noite?”

Esperou dez meses.

 
 
Quiz da edição

Na barraca, sem atadura nem pomada médica, o que Mawson usou para untar a carne exposta e encaixar as solas soltas de volta nos pés?

AVaselina do kit de primeiros socorros
BÓleo de foca derretido na fogueira
CLanolina, gordura de lã de carneiro
DPomada de iodo guardada no trenó

Resultado da última edição: 100% acertaram.

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