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Douglas Mawson começou a marcha final com uma faca de bolso. Serrou o trenó ao meio para arrastar menos peso, costurou uma vela com a jaqueta de Mertz e deixou para trás tudo que não comia nem aquecia.
Três dias depois, cada passo doía de um jeito estranho. Na barraca, tirou as meias e encontrou a sola de cada pé descolada, uma camada inteira de pele grossa, com a carne úmida e viva embaixo.
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“A visão dos meus pés me deu um choque: a pele grossa das solas tinha se separado, em cada um, como uma camada inteira.”
Douglas Mawson, The Home of the Blizzard (A Casa da Nevasca), 1915
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Ele não tinha atadura nem pomada. Tinha lanolina (gordura de lã de carneiro, usada como creme). Untou a carne, encaixou as solas soltas de volta no lugar, como palmilhas, e amarrou tudo com tiras de pano.
Por cima, vestiu seis pares de meias de lã e as botas de pele, segundo o próprio relato. Depois levantou e seguiu andando.
A causa provável ficou sem nome por meio século. Em 1969, os médicos australianos John Cleland e R. V. Southcott publicaram no Medical Journal of Australia a hipótese de hipervitaminose A (excesso de vitamina A no corpo), vinda do fígado dos cães.
O fígado de cão da Groenlândia acumula vitamina A em dose tóxica para humanos. Entre os sintomas do excesso estão a pele soltando em placas, a queda de cabelo, a diarreia e a confusão mental. Mertz, que comia mais fígado por não digerir bem a carne dura, teve todos.
A hipótese não é certeza. Fome e frio extremo produzem sinais parecidos, e ninguém examinou o corpo de Mertz, que ficou enterrado na neve. O efeito, porém, ninguém discute: cada passo de Mawson pisava em carne exposta.
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Mawson andou mais de 160 quilômetros sobre solas presas com pano e lanolina.
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O meio trenó ainda salvaria a vida dele. Dias depois, outra ponte de neve cedeu e Mawson despencou numa fenda. O trenó travou na borda, e ele ficou pendurado pela corda do arreio, girando no vazio, uns quatro metros abaixo da superfície.
Subiu nó por nó, alcançou a borda, e a borda desabou. Caiu de novo até o fim da corda. Na segunda subida, já sem força nas mãos, chegou ao gelo firme e ficou deitado, inconsciente, por uma ou duas horas, segundo o diário.
Naquela noite, na barraca, trançou uma escada de corda presa ao arreio, pronta para a próxima fenda. Também cortou pela metade o que comia por dia, porque a ração precisava durar até a base.
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