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Galileu e o Livro Impresso em Leiden em 1638

Arcetri, 1638: cego e proibido de publicar, Galileu deixou os Discursos saírem da Itália rumo a uma gráfica holandesa.

Manuscrito amarrado com fita sobre uma mesa de madeira à luz de vela.

Arcetri, 1638: o manuscrito parte

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Um condenado pela Inquisição não publica livro. Em 1638, Galileu Galilei publicou.

Cinco anos antes, em 22 de junho de 1633, ele se ajoelhara diante dos cardeais do Santo Ofício (o tribunal da Igreja contra heresia), num convento dominicano de Roma. Tinha 69 anos. Leu a abjuração (o juramento de renegar uma ideia) redigida pelos juízes e negou que a Terra girasse em torno do Sol.

A sentença previa prisão por tempo indeterminado. O papa Urbano VIII a trocou por confinamento: primeiro em Siena, na casa do arcebispo Ascanio Piccolomini; a partir de dezembro, na Villa Il Gioiello, uma casa de campo em Arcetri, nas colinas ao sul de Florença.

As regras eram secas. Nada de visitas sem licença, nada de descer à cidade, nada de reunir alunos. Logo veio outra ordem, enviada aos inquisidores das cidades italianas: nenhum livro dele, antigo ou novo, podia ser impresso.

A vizinha mais próxima era a filha mais velha, a irmã Maria Celeste, freira no convento de San Matteo, a poucos minutos da villa. Ela remendava as roupas do pai, mandava doces e cumpria por ele os salmos de penitência que o tribunal lhe impusera. Em abril de 1634, aos 33 anos, uma disenteria a levou.

Galileu escreveu a amigos sobre uma tristeza sem fundo e noites sem sono. Mesmo assim, abriu as gavetas e tirou os cadernos que guardava desde Pádua, trinta anos antes: medições de bolas rolando em rampas, cálculos sobre vigas que racham sob o próprio peso.

Desses cadernos nasceram os Discorsi (Discursos), o livro que ele considerava o melhor de tudo o que escrevera. O texto ficou pronto em 1637. No mesmo ano, o olho direito apagou. No começo de 1638, o esquerdo foi junto.

Sobrava a ordem: nenhuma gráfica da Itália podia tocar o manuscrito. Como as folhas saíram de Arcetri e chegaram a uma oficina na Holanda protestante, a seção I conta.

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I  A Pedra

As folhas que cruzaram os Alpes

Galileu Galilei nasceu em Pisa, em 15 de fevereiro de 1564, filho do músico Vincenzo Galilei. Ensinou matemática em Pisa e em Pádua e, em 1610, apontou uma luneta para Júpiter e viu quatro luas girando em volta dele.

O título completo do livro de Arcetri era Discorsi e dimostrazioni matematiche intorno a due nuove scienze (Discursos e demonstrações matemáticas sobre duas novas ciências). As duas ciências eram a resistência dos materiais e o movimento dos corpos.

A primeira tentativa de impressão foi em Veneza, em 1634. O frei Fulgenzio Micanzio, amigo de Galileu, levou o pedido ao inquisidor local, que respondeu com a ordem vinda de Roma: proibido imprimir qualquer obra do autor.

Galileu procurou então editoras longe do alcance do Santo Ofício. Cópias de trechos seguiram para Viena e para Olomouc, na Morávia, por meio de Giovanni Pieroni, engenheiro militar a serviço do imperador. Nenhuma das duas impressões avançou.

A saída veio da Holanda. Em 1636, Lodewijk Elzevier, da família de impressores de Leiden, viajava pela Itália comprando livros e passou por Arcetri. Saiu de lá com o compromisso de publicar o texto.

O manuscrito não viajou de uma vez. As folhas seguiram aos poucos, por Veneza, ao longo de 1636 e 1637, enquanto Galileu ainda corrigia o final. Em Leiden, cidade de maioria calvinista, a ordem dos cardeais não valia nada.

A sentença tinha força de lei na Itália, e só nela.

Faltava uma proteção para o autor preso. A dedicatória foi endereçada a François de Noailles, embaixador da França em Roma e antigo aluno de Galileu em Pádua. Nela, o autor conta que entregara uma cópia ao conde por amizade e que soube depois, com surpresa, que os Elzevier a tinham posto no prelo.

A história da surpresa servia de escudo. Se o tribunal perguntasse, a impressão tinha acontecido sem o consentimento dele, longe dele e por mãos estrangeiras. Ninguém em Roma abriu processo novo.

O texto tem a forma de uma conversa de quatro dias entre três personagens, Salviati, Sagredo e Simplicio. São os mesmos três do Diálogo que o levara ao tribunal, e Galileu não trocou nenhum deles.

O livro saiu em Leiden em 1638. Quando os primeiros exemplares chegaram a Arcetri, Galileu já não podia ler uma linha. Pediu que lessem para ele.

Viveu mais quatro anos na villa, ditando cartas e correções a dois jovens assistentes, Vincenzo Viviani e Evangelista Torricelli. Partiu em 8 de janeiro de 1642, aos 77 anos, ainda sob confinamento.

 
 

II  O Princípio

O chão depois do céu

Em 1633, o tribunal tirou de Galileu o céu. Proibiu que ele defendesse o Sol no centro do sistema e pôs no Índice (a lista de livros vetados pela Igreja) o Diálogo, a obra que dava razão a Copérnico. O que restou ao preso foi o chão: a pedra que cai, a viga que verga.

Ele aceitou a troca de assunto e foi fundo no que sobrou. O Terceiro Dia dos Discorsi abre com uma frase que mostra o tamanho da aposta:

“Não há na natureza, talvez, nada mais antigo que o movimento, e sobre ele os livros escritos pelos filósofos não são poucos nem pequenos.”

Galileu Galilei, Discorsi, Terceiro Dia, 1638

Depois de admitir a montanha de livros, ele anuncia que achou propriedades do movimento que ninguém tinha observado ou demonstrado. E demonstra.

A principal é a lei da queda. Um corpo que cai livre percorre distâncias que crescem como o quadrado do tempo: em 2 segundos, 4 vezes a distância do primeiro; em 3 segundos, 9 vezes. Galileu chegou a ela medindo bolas de bronze em rampas de madeira, porque a queda vertical era rápida demais para os relógios de água da época.

A segunda é a trajetória do projétil. Uma bala de canhão, somando o empurrão para a frente e a queda para baixo, desenha uma parábola. Artilheiros erravam alvos havia séculos por não saber a forma do caminho.

Os princípios que a física de Isaac Newton usaria cinquenta anos depois estavam ali, escritos por um homem que não podia sair do quintal.

Os estoicos tinham nome para essa divisão. Epicteto, escravo liberto que ensinou em Nicópolis por volta do ano 100, abre o Manual, reunido pelo aluno Arriano, separando o que depende de nós do que não depende. A sentença, o papa, os olhos ficavam na segunda lista. O caderno ficava na primeira.

Galileu perdeu o céu e trabalhou a terra que lhe deixaram.

A cegueira testou a divisão uma segunda vez. Em 2 de janeiro de 1638, ele escreveu a Elia Diodati, advogado amigo em Paris:

“Este céu, esta terra, este universo, que eu com observações e demonstrações claras ampliei mil vezes além do que acreditavam os sábios de todos os séculos passados, agora para mim se encolheram num espaço tão estreito quanto o que ocupam as minhas próprias sensações.”

Galileu Galilei, carta a Elia Diodati, 1638

A carta não termina em queixa. Nos meses seguintes ele ditou a Viviani um acréscimo ao livro sobre a força da percussão, um tema que o texto impresso deixara em aberto. Saiu publicado só em 1718, nas obras reunidas.

 

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III  A Forja do Dia

A obra que cabe na sala

Você não enfrenta um tribunal. Enfrenta proibições menores: um projeto vetado, uma área que a empresa tirou de você, um corpo que já não faz o que fazia. A pergunta de Arcetri vale para todas elas.

1. De manhã, liste as duas colunas: à esquerda, o que foi tirado de você e não volta por esforço seu; à direita, o que continua na sua mão.

2. À tarde, escolha uma peça da direita: um item só, pequeno o bastante para avançar hoje, numa sala, com o que você tem.

3. À noite, procure a sua Leiden: anote uma pessoa ou um lugar fora do alcance da proibição que poderia levar o trabalho adiante.

O primeiro passo copia a divisão de Epicteto. Galileu não escreveu essa lista, mas viveu por ela: a astronomia foi para a esquerda, a queda dos corpos para a direita.

O segundo copia o tamanho do trabalho dele. Os Discorsi nasceram de cadernos velhos, numa mesa de villa, sem laboratório novo e sem plateia.

O terceiro copia a jogada dos Elzevier. A ordem de Roma não alcançava a Holanda. Quase toda proibição tem fronteira, e do lado de lá costuma existir alguém interessado.

Um caso mostra a sequência. Uma engenheira de 52 anos perdeu o cargo de chefia numa reestruturação e foi posta numa sala sem equipe. Na primeira coluna entraram o cargo, o orçamento e as reuniões de diretoria.

Na segunda, ela achou o manual técnico da fábrica, desatualizado havia dez anos, que ninguém tinha tempo de revisar. Escreveu um capítulo por semana. Em oito meses o texto estava pronto, revisado por dois técnicos da própria fábrica. A sua Leiden foi a associação de engenharia do estado, que publicou o manual como guia de referência.

O método tem limite. Galileu pagou com a liberdade e com a filha que não pôde visitar sem licença; a obra não devolveu nada disso. Trabalhar no que sobrou não apaga a perda nem a torna justa.

E há proibição que deve ser contestada, não contornada. Se a regra for ilegal ou fizer mal a alguém, a primeira coluna pede advogado, não resignação.

O que foi tirado define a sala; o que você faz nela é seu.

“Que obra cabe hoje na sala que deixaram para você?”

Ele não pôde ler o livro.

 
 

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No livro Discorsi, a quem Galileu endereçou a dedicatória para se proteger do tribunal?

ALodewijk Elzevier, o impressor de Leiden
BFrançois de Noailles, embaixador da França em Roma
CVincenzo Viviani, seu assistente em Arcetri
DAscanio Piccolomini, arcebispo de Siena

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