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I A Pedra
Os três postes da praça
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A resposta de ontem Quem imprimiu O Príncipe pela primeira vez, e quando? Foi Antonio Blado, impressor em Roma, em 1532, com licença do papa Clemente VII, o mesmo Giulio de' Médici que encomendara a história de Florença. O livro saiu cinco anos depois da morte do autor. Meses mais tarde, Bernardo Giunta lançou outra edição em Florença, e O Príncipe deixou de correr só em cópias à mão. |
Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski desceu da carruagem num campo de exercícios do regimento Semiónovski, coberto de neve. Os presos vestiam ainda a roupa leve de abril, a do dia da prisão. Alguns se viam pela primeira vez em oito meses e se abraçaram.
No centro havia um cadafalso de madeira forrado de pano preto. Ao lado, três postes cravados no chão. Diante deles, uma fileira de soldados com fuzis.
Um funcionário subiu ao cadafalso e leu a sentença de cada um, preso por preso. A fórmula se repetia sem variação: condenado à pena capital, a ser executada por fuzilamento. A leitura demorou, e o frio cortava a roupa de primavera.
Um padre subiu com a cruz e convidou os condenados a se confessar. Só um aceitou. Todos beijaram a cruz. Em seguida, carrascos quebraram espadas sobre a cabeça dos nobres, sinal de perda dos títulos, e cada preso vestiu uma camisa branca comprida com capuz, a mortalha (roupa de enterro).
Os três primeiros foram amarrados aos postes: Mikhail Petrachévski, o anfitrião das sextas-feiras, e os oficiais Nikolai Mombelli e Nikolai Grigóriev. Os capuzes desceram sobre os rostos. O pelotão apontou. Dostoiévski estava no grupo seguinte, a poucos passos.
Anos depois, ele contou ter calculado que lhe restavam uns cinco minutos. Olhou para a cúpula dourada de uma igreja próxima, que brilhava ao sol, e teve a impressão de que aqueles raios seriam a sua nova natureza.
Os tambores rufaram, e a tropa baixou as armas. Um ajudante de campo atravessou a praça com um papel lacrado: o czar comutava (trocava por pena menor) as sentenças. Nicolau I tinha decidido o perdão dias antes e encenado a manhã inteira, inclusive a hora da chegada do mensageiro.
Grigóriev foi desamarrado sem voltar a si. Nunca recuperou o juízo. A pena nova de Dostoiévski veio lida ali mesmo: quatro anos de katorga (trabalhos forçados) na Sibéria e, depois, serviço como soldado raso.
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A sentença de Dostoiévski foi lida duas vezes na mesma manhã: a primeira para fuzilá-lo, a segunda para mandá-lo à Sibéria.
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De volta à Fortaleza de Pedro e Paulo, ainda abalado pela praça, ele escreveu ao irmão Mikhail. A carta leva a data daquele dia e abre assim:
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“Irmão! Não estou abatido nem perdi o ânimo. A vida é vida em toda parte, a vida está em nós mesmos, e não no que está fora.”
Fiódor Dostoiévski, carta ao irmão Mikhail, 22 de dezembro de 1849
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Pela data, a cena caiu no calendário juliano, o que a Rússia usava. No calendário do Ocidente, Dostoiévski escreveu a carta em 3 de janeiro de 1850, já no ano em que chegaria a Omsk.
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II O Princípio
O minuto contado
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Dostoiévski não saiu da praça com uma teoria. Saiu com uma conta. Na mesma carta ao irmão, escreveu que a vida é um dom, que a vida é felicidade e que cada minuto poderia ser um século de felicidade.
A frase não fala de esperança no futuro. Fala do minuto presente, aquele que ele quase não teve. O preso que esperava a bala tinha descoberto o valor da hora comum, a de comer, ler e conversar.
Dezoito séculos antes, Sêneca chegou ao mesmo lugar sem passar por pelotão nenhum. Numa carta ao amigo Lucílio, conta a visita a uma casa de campo onde tudo envelhecera com ele, as árvores, a pedra, o porteiro, e tira dali a regra do dia:
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“Cada dia deve ser ordenado como se fechasse a fileira e completasse a vida.”
Sêneca, Cartas a Lucílio, carta 12, cerca de 62 d.C.
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Fechar a fileira, na imagem militar do romano, é ser o último soldado da coluna, aquele depois de quem não vem mais ninguém. Sêneca não pedia pressa. Pedia ordem: arrumar o dia como se ele completasse a vida, e dormir sem conta pendente.
Nada indica que Dostoiévski pensasse em Sêneca na neve. A praça chegou à mesma regra por outro caminho, e ele a reescreveu duas décadas depois, em romance.
Em O Idiota, de 1869, o príncipe Míchkin conta a história de um homem levado ao pelotão e perdoado no último instante. O homem jurou que, se vivesse, faria de cada minuto um século e não desperdiçaria nenhum.
Míchkin, então, revela a parte incômoda. Solto, o homem não cumpriu o juramento. Perdeu muitos minutos, como todo mundo, e sabia da própria falha.
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O condenado de O Idiota jurou não perder um minuto, e o próprio Dostoiévski fez o personagem confessar a quebra do juramento.
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A honestidade do romance vale mais que a frase bonita da carta. A lição da praça não se guarda sozinha. Ela se perde na primeira semana normal, e precisa ser refeita de propósito, dia após dia, como Sêneca propunha.
Na rotina, o minuto contado não pede cadafalso. Pede uma pergunta curta antes da tarefa: se esta hora fosse a última de hoje, ela iria para onde vai agora? No trabalho, a resposta costuma derrubar a terceira aba aberta e a reunião sem pauta.
Em casa, derruba o celular ao lado do prato. O jantar com quem você ama é exatamente a hora comum que o preso de 1849 descobriu, olhando a cúpula dourada.
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