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Dostoiévski diante do Pelotão da Praça Semiónovski

Condenado ao fuzilamento em 1849, Dostoiévski ouviu o perdão do czar à beira dos postes e escreveu ao irmão no mesmo dia.

Três postes de madeira num campo de neve em São Petersburgo, com a cúpula dourada de uma igreja ao fundo.

São Petersburgo, 1849: os postes da praça Semiónovski

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Sentença de fuzilamento lida diante da tropa se cumpre diante da tropa. Na manhã de 22 de dezembro de 1849, em São Petersburgo, a tropa recebeu ordem de baixar os fuzis.

Entre os condenados estava Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski, 28 anos, engenheiro militar que largara a farda para escrever. Três anos antes, aos 24, o romance Gente Pobre o tinha feito famoso da noite para o dia, e o crítico Vissarion Belínski chegara a chamá-lo de novo Gógol.

O crime dele cabia numa folha. Numa sexta-feira de 1849, numa reunião do círculo de Petrachévski (grupo de funcionários, oficiais e escritores que discutia socialismo em casa de Mikhail Petrachévski), Dostoiévski leu para os presentes a carta de Belínski a Gógol. O texto atacava a Igreja e a servidão, e circulava proibido.

Nicolau I governava com medo. As revoluções de 1848 tinham sacudido a Europa, e o czar mandou um informante frequentar as reuniões. O agente, Piotr Antonelli, anotou durante meses quem dizia o quê em cada sexta-feira. Na madrugada de 23 de abril, os gendarmes (a polícia política do império) bateram à porta de Dostoiévski.

Ele passou os oito meses seguintes numa cela da Fortaleza de Pedro e Paulo, às margens do rio Nevá. Escreveu ali um conto, O Pequeno Herói, e pediu ao irmão Mikhail livros e velas. Leu a Bíblia e Shakespeare, e reclamou nas cartas de insônia e dos nervos.

Uma comissão militar julgou os acusados e fixou as penas em segredo. Os presos não sabiam de nada quando as carruagens vieram buscá-los, antes de clarear, com as janelas cobertas de gelo. Muitos acharam que seguiam para ouvir uma sentença branda.

Ninguém disse a eles para onde iam. O que aconteceu nos minutos seguintes na praça Semiónovski, e o que o preso escreveu ao voltar à cela, A Pedra conta em ordem.

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I  A Pedra

Os três postes da praça

A resposta de ontem

Quem imprimiu O Príncipe pela primeira vez, e quando?

Foi Antonio Blado, impressor em Roma, em 1532, com licença do papa Clemente VII, o mesmo Giulio de' Médici que encomendara a história de Florença. O livro saiu cinco anos depois da morte do autor. Meses mais tarde, Bernardo Giunta lançou outra edição em Florença, e O Príncipe deixou de correr só em cópias à mão.

Fiódor Mikháilovitch Dostoiévski desceu da carruagem num campo de exercícios do regimento Semiónovski, coberto de neve. Os presos vestiam ainda a roupa leve de abril, a do dia da prisão. Alguns se viam pela primeira vez em oito meses e se abraçaram.

No centro havia um cadafalso de madeira forrado de pano preto. Ao lado, três postes cravados no chão. Diante deles, uma fileira de soldados com fuzis.

Um funcionário subiu ao cadafalso e leu a sentença de cada um, preso por preso. A fórmula se repetia sem variação: condenado à pena capital, a ser executada por fuzilamento. A leitura demorou, e o frio cortava a roupa de primavera.

Um padre subiu com a cruz e convidou os condenados a se confessar. Só um aceitou. Todos beijaram a cruz. Em seguida, carrascos quebraram espadas sobre a cabeça dos nobres, sinal de perda dos títulos, e cada preso vestiu uma camisa branca comprida com capuz, a mortalha (roupa de enterro).

Os três primeiros foram amarrados aos postes: Mikhail Petrachévski, o anfitrião das sextas-feiras, e os oficiais Nikolai Mombelli e Nikolai Grigóriev. Os capuzes desceram sobre os rostos. O pelotão apontou. Dostoiévski estava no grupo seguinte, a poucos passos.

Anos depois, ele contou ter calculado que lhe restavam uns cinco minutos. Olhou para a cúpula dourada de uma igreja próxima, que brilhava ao sol, e teve a impressão de que aqueles raios seriam a sua nova natureza.

Os tambores rufaram, e a tropa baixou as armas. Um ajudante de campo atravessou a praça com um papel lacrado: o czar comutava (trocava por pena menor) as sentenças. Nicolau I tinha decidido o perdão dias antes e encenado a manhã inteira, inclusive a hora da chegada do mensageiro.

Grigóriev foi desamarrado sem voltar a si. Nunca recuperou o juízo. A pena nova de Dostoiévski veio lida ali mesmo: quatro anos de katorga (trabalhos forçados) na Sibéria e, depois, serviço como soldado raso.

A sentença de Dostoiévski foi lida duas vezes na mesma manhã: a primeira para fuzilá-lo, a segunda para mandá-lo à Sibéria.

De volta à Fortaleza de Pedro e Paulo, ainda abalado pela praça, ele escreveu ao irmão Mikhail. A carta leva a data daquele dia e abre assim:

“Irmão! Não estou abatido nem perdi o ânimo. A vida é vida em toda parte, a vida está em nós mesmos, e não no que está fora.”

Fiódor Dostoiévski, carta ao irmão Mikhail, 22 de dezembro de 1849

Pela data, a cena caiu no calendário juliano, o que a Rússia usava. No calendário do Ocidente, Dostoiévski escreveu a carta em 3 de janeiro de 1850, já no ano em que chegaria a Omsk.

 
 

II  O Princípio

O minuto contado

Dostoiévski não saiu da praça com uma teoria. Saiu com uma conta. Na mesma carta ao irmão, escreveu que a vida é um dom, que a vida é felicidade e que cada minuto poderia ser um século de felicidade.

A frase não fala de esperança no futuro. Fala do minuto presente, aquele que ele quase não teve. O preso que esperava a bala tinha descoberto o valor da hora comum, a de comer, ler e conversar.

Dezoito séculos antes, Sêneca chegou ao mesmo lugar sem passar por pelotão nenhum. Numa carta ao amigo Lucílio, conta a visita a uma casa de campo onde tudo envelhecera com ele, as árvores, a pedra, o porteiro, e tira dali a regra do dia:

“Cada dia deve ser ordenado como se fechasse a fileira e completasse a vida.”

Sêneca, Cartas a Lucílio, carta 12, cerca de 62 d.C.

Fechar a fileira, na imagem militar do romano, é ser o último soldado da coluna, aquele depois de quem não vem mais ninguém. Sêneca não pedia pressa. Pedia ordem: arrumar o dia como se ele completasse a vida, e dormir sem conta pendente.

Nada indica que Dostoiévski pensasse em Sêneca na neve. A praça chegou à mesma regra por outro caminho, e ele a reescreveu duas décadas depois, em romance.

Em O Idiota, de 1869, o príncipe Míchkin conta a história de um homem levado ao pelotão e perdoado no último instante. O homem jurou que, se vivesse, faria de cada minuto um século e não desperdiçaria nenhum.

Míchkin, então, revela a parte incômoda. Solto, o homem não cumpriu o juramento. Perdeu muitos minutos, como todo mundo, e sabia da própria falha.

O condenado de O Idiota jurou não perder um minuto, e o próprio Dostoiévski fez o personagem confessar a quebra do juramento.

A honestidade do romance vale mais que a frase bonita da carta. A lição da praça não se guarda sozinha. Ela se perde na primeira semana normal, e precisa ser refeita de propósito, dia após dia, como Sêneca propunha.

Na rotina, o minuto contado não pede cadafalso. Pede uma pergunta curta antes da tarefa: se esta hora fosse a última de hoje, ela iria para onde vai agora? No trabalho, a resposta costuma derrubar a terceira aba aberta e a reunião sem pauta.

Em casa, derruba o celular ao lado do prato. O jantar com quem você ama é exatamente a hora comum que o preso de 1849 descobriu, olhando a cúpula dourada.

 

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III  A Forja do Dia

A conta dos quatro anos

A prática de hoje toma emprestado o cálculo da praça, sem a praça. Ela ocupa três momentos do dia e cabe numa folha de papel.

1. De manhã, divida: escolha as três horas do dia que vão para o que você mais adia. Escreva numa linha o que cada uma vai receber, antes de abrir o email.

2. À tarde, conte um minuto: antes de uma conversa difícil, pare sessenta segundos e repare numa imagem concreta do lugar, uma janela, uma árvore, um telhado.

3. À noite, escreva a carta: três linhas a alguém que você deixaria para trás, como a carta a Mikhail. Não precisa enviar.

A manhã copia os cinco minutos divididos. Dostoiévski repartiu o pouco tempo entre os companheiros, ele mesmo e o mundo em volta, e não deixou nenhum pedaço sem dono.

A tarde copia a cúpula dourada. Na pior hora da vida, ele olhou para um brilho preciso no alto, e a imagem segurou a cabeça no lugar.

A noite copia a cela. Horas depois do pelotão, ele escreveu ao irmão, e a carta virou o registro mais confiável daquela manhã.

A prática tem limite. Contar o minuto não significa negar a dor nem fingir gratidão por um castigo injusto. Dostoiévski não agradeceu ao czar pela encenação; anos depois, chamou aquela manhã de dez minutos de terror.

E o minuto contado não poupa ninguém do que vem depois. Na noite de Natal de 1849, ele deixou São Petersburgo num trenó aberto, com grilhões de ferro nos tornozelos, rumo à Sibéria.

Em Tobolsk, posto de passagem dos deportados, esposas de dezembristas (oficiais que se rebelaram contra o czar em dezembro de 1825) conseguiram ver os presos. Uma delas entregou a Dostoiévski um Novo Testamento com dez rublos escondidos na encadernação.

Em Omsk, entre janeiro de 1850 e fevereiro de 1854, aquele foi o único livro que lhe permitiram. Ele o leu inteiro, várias vezes, num barracão de presos comuns. Saiu de lá doente de epilepsia e com o material de Recordações da Casa dos Mortos, publicado entre 1860 e 1862.

O Evangelho de capa gasta ficou com ele por 31 anos.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem era a mulher que pôs o Evangelho nas mãos dele em Tobolsk?

 
 
Quiz da edição

Quando a sentença de fuzilamento foi comutada na praça Semiónovski, qual pena nova leram para Dostoiévski?

ADois anos de prisão na Fortaleza de Pedro e Paulo
BQuatro anos de katorga na Sibéria e depois serviço como soldado raso
CExílio vitalício sem trabalhos forçados
DSeis anos de katorga e perda definitiva da patente militar

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