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Confúcio e os 7 Dias sem Arroz
Chen e Cai, 489 a.C.: cercado, sem comida e com discípulos doentes, o mestre ouviu a queixa de Zilu e respondeu numa frase.
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Chen e Cai, 489 a.C.: a cítara no cerco
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A fome derruba a cerimônia. Por volta de 489 a.C., num descampado entre os reinos de Chen e Cai, no centro da China, Confúcio passou fome e manteve a cerimônia de pé. Confúcio (Kong Qiu, chamado pelos discípulos de Kongzi, o mestre Kong) tinha uns 62 anos. Nascera em 551 a.C. no pequeno estado de Lu, onde chegou a ministro da justiça, e saíra de lá por volta de 497 a.C., desgostoso com o governo. Desde então andava de corte em corte, oferecendo conselho a duques que preferiam ouvir sobre guerra. Levava um grupo de discípulos. Entre eles iam Zilu, o mais velho e o mais bravo, antigo homem de armas de pavio curto; Zigong, comerciante de palavra fácil; e Yan Hui, o preferido, pobre e calado. O historiador Sima Qian conta, nos Registros do Historiador (Shiji, no original), escritos por volta de 94 a.C., que o rei Zhao de Chu, estado poderoso do sul, convidou o mestre para a corte dele. Os ministros de Chen e Cai se assustaram: um sábio a serviço de Chu conheceria os defeitos dos dois governos vizinhos. Mandaram homens cercar o grupo no campo aberto. Ninguém entrava com comida, ninguém saía para buscar. O arroz acabou. Os discípulos adoeceram e já não conseguiam se levantar das esteiras. Os textos antigos falam em 7 dias sem comida cozida. Confúcio, segundo Sima Qian, seguia dando aula. Recitava os poemas antigos e tocava a cítara de sete cordas, sem pular uma lição, diante de alunos deitados de fraqueza. A voz dele era o único som regular do acampamento, entre a tosse dos doentes e o vento no capim. Zilu não aguentou a cena. Levantou-se, foi até o mestre com o rosto vermelho de raiva e fez uma pergunta que soava como acusação. A pergunta de Zilu, a frase com que Confúcio respondeu e a saída do cerco estão na seção I. Continue lendo ↓
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I A Pedra
A pergunta de Zilu
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Zilu se chamava Zhong You e tinha só nove anos a menos que Confúcio. A cena dele no cerco ficou registrada nos Analectos (Lunyu, “conversas selecionadas”), a coletânea de falas do mestre que os discípulos e os alunos deles organizaram depois de 479 a.C.
O episódio abre o Livro XV. Logo antes, o duque Ling de Wei pede a Confúcio uma aula de formação de tropas. Confúcio responde que estudou os vasos do ritual, nunca os exércitos, e parte no dia seguinte. A estrada leva o grupo até Chen, onde a comida acaba.
O texto é seco. As provisões se esgotam, os seguidores adoecem e ninguém consegue ficar de pé. Zilu chega indignado:
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“O homem íntegro também passa necessidade?”
Zilu, em Confúcio, Analectos, XV.2, compilados no século V a.C.
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A palavra que os Analectos usam para o homem íntegro é junzi (literalmente “filho de senhor”, o nobre pelo caráter e não pelo sangue). Zilu cobrava uma promessa implícita: quem age certo deveria ser poupado do aperto.
Confúcio respondeu com uma frase de duas metades:
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“O homem íntegro passa necessidade e se mantém firme; o homem pequeno, na necessidade, transborda.”
Confúcio, Analectos, XV.2, compilados no século V a.C.
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O homem pequeno, xiaoren no original (a pessoa guiada só pelo interesse do momento), designa quem, apertado, larga qualquer limite, rico ou pobre. O verbo chinês da resposta, lan, descreve o rio que sai do leito e alaga a margem.
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A necessidade chega aos dois; a diferença está no que cada um faz dentro dela.
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Sima Qian acrescenta um segundo ato. Ainda no cerco, Confúcio chamou três discípulos e citou um verso do Livro das Odes (Shijing, a antologia de poemas antigos que ele ensinava): “Nem búfalo nem tigre, e vagamos por este ermo.” Perguntou se a doutrina dele estava errada, já que acabara ali.
Zilu sugeriu que talvez faltasse virtude ao grupo, e por esse lado ninguém confiava neles. Zigong propôs baixar um pouco a exigência da doutrina, para caber no mundo. Yan Hui disse que a doutrina era grande, o mundo não a comportava, e que ser recusado mostrava quem era o homem íntegro.
Confúcio riu e disse que, se Yan Hui um dia enriquecesse, queria ser o administrador dos bens dele.
A saída veio pela diplomacia. Zigong atravessou o cerco até Chu, e o rei Zhao mandou soldados escoltar o grupo. O rei quis dar terras ao mestre, mas o ministro Zixi o dissuadiu, com medo de um sábio poderoso dentro do reino. O rei Zhao faleceu naquele mesmo ano, e o convite se perdeu.
O local exato do cerco e o número de dias seguem incertos. Os Analectos não dão data nem contagem; os 7 dias vêm de textos posteriores, como o Xunzi e o Zhuangzi, que contam versões diferentes da cena. Nenhuma fonte informa quantos discípulos estavam lá.
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II O Princípio
Firme dentro da falta
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Confúcio não prometeu que a virtude livra do aperto; prometeu que ela segura a pessoa dentro dele.
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A resposta a Zilu desmonta uma conta que quase todo mundo faz em silêncio. Se trabalho direito, cuido da família e cumpro a palavra, o mundo me deve sossego. Confúcio recusou o acordo. O aperto vem para todos, e o caráter não compra isenção.
O que muda é o comportamento dentro do aperto. A palavra qiong, que os tradutores vertem por “necessidade”, quer dizer ficar sem saída, chegar ao fim da estrada. Descreve o beco, e não a pobreza.
Os Analectos voltam ao tema em outro trecho, desta vez como gosto:
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“Arroz grosso para comer, água para beber, o braço dobrado por travesseiro: aí também mora alegria.”
Confúcio, Analectos, VII.16, compilados no século V a.C.
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E sobre Yan Hui, o discípulo que deu a melhor resposta no cerco, o mestre elogia a tigela de arroz e a concha de água num beco pobre, que outros achariam insuportáveis, sem que ele perdesse a alegria (Analectos, VI.11).
Transbordar, no vocabulário de Confúcio, tem cara conhecida. É o pai que perde o contrato na sexta e grita com o filho no sábado por causa de um copo derramado. A falta de dinheiro é real; o grito não resolve a falta e ainda abre um segundo prejuízo.
É a gerente que corta caminho na nota fiscal no mês em que a meta apertou. É o vizinho que, endividado, deixa de cumprimentar a rua inteira. Em cada caso, a necessidade justifica um passo além do limite, e o limite some.
O prejuízo do transbordamento dura mais que o aperto. A conta atrasada se paga em alguns meses; a palavra dura dita ao filho, a nota fiscal adulterada e a amizade cortada ficam no registro muito depois que o dinheiro volta.
Ficar firme, no sentido da resposta, pede menos heroísmo. Confúcio, com fome, fez o que fazia nos dias fartos: deu aula, recitou, tocou a cítara. Manteve a forma do dia quando o conteúdo do dia faltou.
A rotina cumprida no aperto faz o papel do leito do rio. A água sobe, mas encontra margem. Quem guarda a hora de acordar, o tom de voz e a palavra dada dá à necessidade um lugar onde caber.
A cena de Zilu ensina também a outra parte. A raiva dele era justa: os colegas estavam doentes. Confúcio não o repreendeu por sentir; respondeu à pergunta. Ficar firme aceita a queixa e recusa o transbordamento.
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