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Cervantes e as 4 Fugas de Argel

Preso por corsários em 1575, Cervantes tentou fugir 4 vezes e, a cada captura, assumiu sozinho a culpa diante de Hassan Paxá.

Corrente de ferro aberta no chão de uma cela em Argel.

Argel, 1575 a 1580: as correntes de Cervantes

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Fugitivo recapturado entrega os cúmplices para salvar a pele. Em Argel, entre 1576 e 1579, um soldado espanhol foi recapturado quatro vezes e não entregou um nome sequer.

O soldado era Miguel de Cervantes, então com 28 anos. Em setembro de 1575, ele voltava de Nápoles para a Espanha a bordo da galera Sol, com o irmão mais novo, Rodrigo, depois de quase cinco anos de serviço militar na Itália.

Perto da costa da Catalunha, navios de corsários (piratas a serviço do governo de Argel) cercaram a galera. Houve luta e mortos dos dois lados. Os sobreviventes seguiram acorrentados para o norte da África, onde os dois irmãos foram vendidos como cativos.

Cervantes trazia no corpo a marca de outra guerra. Em 1571, na batalha naval de Lepanto, contra a frota otomana, levara dois tiros de arcabuz no peito e um na mão esquerda, que nunca mais se moveu. Na Espanha, ganharia o apelido de Maneta de Lepanto.

Trazia também duas cartas de recomendação: uma de dom João da Áustria, o comandante de Lepanto, e outra do duque de Sessa. Escritas para lhe abrir portas na corte de Madri, as cartas fecharam a porta dele em Argel.

O corsário Dali Mami, um renegado grego, novo dono do cativo, leu nelas a prova de um homem importante. Fixou o resgate em 500 escudos de ouro, quantia fora do alcance da família de um cirurgião barbeiro de Alcalá de Henares.

Argel vivia de resgate. Os cativos dormiam em banhos (as prisões muradas da cidade) até alguém pagar por eles. Quem fugia e voltava preso podia perder as orelhas, o nariz ou o pescoço.

Cervantes tentou mesmo assim, quatro vezes. Como explicou cada recaptura ao homem mais temido da cidade, e o que custou aos outros e a ele, A Pedra conta fuga a fuga.

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I  A Pedra

Quatro fugas, um culpado

A primeira fuga de Miguel de Cervantes Saavedra aconteceu no começo de 1576. Um mouro (muçulmano do norte da África) aceitou guiar um grupo de cativos a pé até Orã, cidade da costa argelina então em mãos espanholas. No caminho, o guia sumiu. Sem rumo, o grupo voltou a Argel, e Cervantes ganhou correntes mais pesadas.

A segunda levou meses de preparo. Num jardim fora dos muros da cidade, um jardineiro cristão de Navarra chamado Juan cavou uma gruta. A partir de fevereiro de 1577, catorze cativos foram se esconder nela, um por vez, alimentados por um cúmplice apelidado El Dorador (o dourador, pelo ofício).

Rodrigo, o irmão, foi resgatado em agosto e partiu com a missão de mandar um barco. O barco chegou em setembro, foi visto por mouros na praia e fugiu sem ninguém a bordo. Dias depois, El Dorador denunciou o esconderijo.

Soldados cercaram a gruta. Cervantes saiu primeiro e declarou que o plano era dele, só dele, e que os outros tinham ido atrás da ideia. Levado acorrentado ao governante da cidade, repetiu a versão palavra por palavra.

O governante era Hassan Paxá, um renegado veneziano (cristão convertido ao islã) que comandava Argel em nome do sultão otomano. Comprou Cervantes de Dali Mami pelos mesmos 500 escudos e o trancou no próprio banho. O jardineiro Juan acabou enforcado.

Na terceira tentativa, em 1578, Cervantes mandou um mouro levar cartas ao governador de Orã, Martín de Córdoba, pedindo socorro. O mensageiro foi pego na estrada e empalado. Hassan condenou o autor das cartas a 2.000 golpes de bastão. A pena nunca foi aplicada, e nenhum documento da época registra o motivo.

A quarta, em 1579, tinha dinheiro. Dois mercadores valencianos, Onofre Exarque e Baltasar de Torres, pagaram uma fragata (navio leve de remo e vela) para levar 60 cativos. Um padre espanhol, Juan Blanco de Paz, contou o plano a Hassan.

Cervantes se escondeu na casa de um amigo. Soube que Exarque, com medo da tortura, queria embarcá-lo à força para longe antes que falasse. Apresentou-se sozinho, com uma corda no pescoço, e diante das ameaças de forca deu um único culpado. Passou cinco meses acorrentado.

Em quatro recapturas, Hassan Paxá ouviu de Cervantes um único nome: o dele.

O cativo voltou ao episódio 25 anos depois, no Dom Quixote, pela boca de um personagem que descreve Hassan:

“Só se livrou bem com ele um soldado espanhol chamado tal de Saavedra, a quem nunca deu pancada, nem mandou dar, nem disse má palavra.”

Miguel de Cervantes, Dom Quixote, parte I, capítulo 40, 1605

O resgate saiu em 19 de setembro de 1580. Os frades trinitários Juan Gil e Antonio de la Bella completaram os 500 escudos com dinheiro da mãe, Leonor de Cortinas, da irmã e de esmolas. Hassan zarpava para Constantinopla com Cervantes preso a um remo. O frade o desceu da galera livre.

 
 

II  O Princípio

A culpa como território

Cervantes não controlava quase nada em Argel. Guia, barco, vento, traidor e humor do paxá fugiam da mão dele. Uma parte, no entanto, ficava com ele em todas as quatro recapturas: o que diria quando o interrogassem.

Epicteto, escravo liberto que ensinou filosofia em Nicópolis, abriu o manual dele com a divisão que sustenta o estoicismo:

“Do que existe, uma parte depende de nós; a outra não depende de nós.”

Epicteto, Manual (Enchiridion), século II

Cervantes nunca citou Epicteto sobre Argel, e nada indica que pensasse nele. A conduta, porém, segue a divisão à risca. Fugir era tentativa, sujeita ao acaso. Assumir a culpa dependia só da boca dele, e ali ele não falhou uma vez.

O resultado da fuga pertencia ao acaso; o nome dito no interrogatório pertencia a ele.

A conduta deixou rastro escrito. Em outubro de 1580, ainda em Argel, Cervantes pediu um inquérito formal, a chamada Información de Argel (Informação de Argel), e doze cativos depuseram sobre o comportamento dele. Juan Blanco de Paz, o delator da última fuga, tentou espalhar acusações; os depoimentos o desmentiram.

O frade Diego de Haedo publicou em 1612 a Topografía e historia general de Argel (Topografia e história geral de Argel), escrita com base nos relatos de um ex-cativo, Antonio de Sosa. Ali aparece o que Hassan diria do prisioneiro: enquanto tivesse bem guardado o espanhol maneta, teria seguros os cristãos, os navios e a própria cidade.

Por que Hassan poupou um fugitivo reincidente continua sem resposta documentada. Os biógrafos levantam duas hipóteses, o valor do resgate e o respeito pela coragem, e nenhuma tem prova.

A divisão de Epicteto aparece em escala pequena na rotina de hoje. No trabalho, um projeto de equipe atrasa por três causas, e só uma delas é sua. O impulso é esperar a reunião e dividir a culpa pelas três. Assumir a sua parte em voz alta, cedo, é a parte que depende de você; o prazo perdido não depende mais.

Em casa, a briga começa com uma frase sua dita no tom errado. A outra pessoa também errou depois. Você controla a frase do começo e a disposição de nomeá-la primeiro, sem esperar a confissão do outro lado.

Nos dois casos, o gesto custa pouco e protege alguém. Cervantes pagou com correntes. Na reunião, o preço costuma ser dez minutos de constrangimento.

 

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III  A Forja do Dia

O nome que você guarda

Ninguém aqui vai encarar Hassan Paxá com uma corda no pescoço. Mas todo dia aparece um erro dividido, e a tentação de espalhá-lo pelos outros é antiga. A prática de hoje cabe em 24 horas.

1. De manhã, observe: escolha um erro recente em que você teve parte, pequeno ou grande. Separe numa folha de papel o que dependia de você e o que dependia dos outros, do acaso ou do chefe.

2. À tarde, assuma uma vez: procure a pessoa afetada e diga em voz alta só a sua parte, com o seu nome na frase. Nada de citar quem mais errou.

3. À noite, registre: escreva uma linha com o que você disse e o que aconteceu depois. Uma linha basta.

A manhã copia a gruta do jardim. Antes de sair, Cervantes sabia o que dependia dele e o que estava nas mãos de El Dorador.

A tarde copia o interrogatório. Ele nomeou a própria culpa sem esperar pergunta sobre os outros, e o resto do grupo saiu do foco do paxá.

A noite copia a Información de Argel. Cervantes quis o comportamento registrado por escrito, com testemunhas, para que ninguém o reescrevesse depois.

A prática tem limite. Assumir a sua parte não significa carregar a culpa alheia, nem aceitar abuso calado no trabalho ou em casa. Cervantes falou por ele e protegeu os companheiros; não inventou crimes para cobrir o padre que o traiu.

E assumir não garante desfecho bom. O jardineiro Juan foi enforcado mesmo assim, e o mensageiro de Orã foi empalado. Cervantes não conseguiu salvar todos; conseguiu não acrescentar nenhum nome à lista do paxá.

Libertado, ele voltou à Espanha em outubro de 1580, sem dinheiro e sem o cargo que as cartas de recomendação prometiam. Escreveu peças, cobrou impostos, foi preso por dívidas em Sevilha. Publicou a primeira parte do Dom Quixote aos 57 anos.

Diga o seu nome primeiro; o dos outros, a vida cobra sem você.

“Qual erro da sua semana tem uma parte só sua, e a quem você vai dizê-la hoje?”

Ninguém foi entregue.

 
 
Quiz da edição

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B1.000 escudos de ouro
C500 escudos de ouro
D250 escudos de ouro

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