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A primeira fuga de Miguel de Cervantes Saavedra aconteceu no começo de 1576. Um mouro (muçulmano do norte da África) aceitou guiar um grupo de cativos a pé até Orã, cidade da costa argelina então em mãos espanholas. No caminho, o guia sumiu. Sem rumo, o grupo voltou a Argel, e Cervantes ganhou correntes mais pesadas.
A segunda levou meses de preparo. Num jardim fora dos muros da cidade, um jardineiro cristão de Navarra chamado Juan cavou uma gruta. A partir de fevereiro de 1577, catorze cativos foram se esconder nela, um por vez, alimentados por um cúmplice apelidado El Dorador (o dourador, pelo ofício).
Rodrigo, o irmão, foi resgatado em agosto e partiu com a missão de mandar um barco. O barco chegou em setembro, foi visto por mouros na praia e fugiu sem ninguém a bordo. Dias depois, El Dorador denunciou o esconderijo.
Soldados cercaram a gruta. Cervantes saiu primeiro e declarou que o plano era dele, só dele, e que os outros tinham ido atrás da ideia. Levado acorrentado ao governante da cidade, repetiu a versão palavra por palavra.
O governante era Hassan Paxá, um renegado veneziano (cristão convertido ao islã) que comandava Argel em nome do sultão otomano. Comprou Cervantes de Dali Mami pelos mesmos 500 escudos e o trancou no próprio banho. O jardineiro Juan acabou enforcado.
Na terceira tentativa, em 1578, Cervantes mandou um mouro levar cartas ao governador de Orã, Martín de Córdoba, pedindo socorro. O mensageiro foi pego na estrada e empalado. Hassan condenou o autor das cartas a 2.000 golpes de bastão. A pena nunca foi aplicada, e nenhum documento da época registra o motivo.
A quarta, em 1579, tinha dinheiro. Dois mercadores valencianos, Onofre Exarque e Baltasar de Torres, pagaram uma fragata (navio leve de remo e vela) para levar 60 cativos. Um padre espanhol, Juan Blanco de Paz, contou o plano a Hassan.
Cervantes se escondeu na casa de um amigo. Soube que Exarque, com medo da tortura, queria embarcá-lo à força para longe antes que falasse. Apresentou-se sozinho, com uma corda no pescoço, e diante das ameaças de forca deu um único culpado. Passou cinco meses acorrentado.
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Em quatro recapturas, Hassan Paxá ouviu de Cervantes um único nome: o dele.
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O cativo voltou ao episódio 25 anos depois, no Dom Quixote, pela boca de um personagem que descreve Hassan:
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“Só se livrou bem com ele um soldado espanhol chamado tal de Saavedra, a quem nunca deu pancada, nem mandou dar, nem disse má palavra.”
Miguel de Cervantes, Dom Quixote, parte I, capítulo 40, 1605
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O resgate saiu em 19 de setembro de 1580. Os frades trinitários Juan Gil e Antonio de la Bella completaram os 500 escudos com dinheiro da mãe, Leonor de Cortinas, da irmã e de esmolas. Hassan zarpava para Constantinopla com Cervantes preso a um remo. O frade o desceu da galera livre.
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