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Beethoven e a Carta que Ele Nunca Mandou aos Irmãos

Heiligenstadt, 1802: aos 31 anos, Beethoven admite por escrito que está ficando surdo e diz o que o manteve de pé.

Carta dobrada sobre um piano fechado, com folhas de outono.

Heiligenstadt, 1802: a carta guardada

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Músico não pode perder o ouvido. Em outubro de 1802, numa aldeia ao norte de Viena, Ludwig van Beethoven perdia o dele e escrevia sobre a perda pela primeira vez à própria família.

A aldeia era Heiligenstadt, hoje um bairro da capital austríaca, na época um lugar de vinhas, fontes de água mineral e casas alugadas por temporada. Beethoven chegou na primavera, por conselho do médico Johann Adam Schmidt, que receitou campo e sossego para poupar o ouvido.

Ele tinha 31 anos e já era o pianista mais comentado de Viena. Tinha publicado sonatas, concertos para piano e a Primeira Sinfonia. Os salões dos príncipes Lichnowsky e Lobkowitz disputavam a presença dele.

Viena tinha regras para quem tocava nos salões: o músico ouvia o anfitrião, respondia rápido e improvisava sobre o tema que a plateia pedia. Beethoven cumpria as três tarefas melhor que ninguém, e as três dependiam do ouvido.

E fazia anos que um zumbido não o largava. As notas agudas dos instrumentos fugiam se ele sentasse longe da orquestra. Palavras ditas baixo chegavam como murmúrio; gritadas, doíam. Na casa alugada, perto da igreja da aldeia, ele passava as manhãs em esboços que ainda conseguia ouvir por dentro.

Em Heiligenstadt, a esperança do tratamento acabou. Num passeio pelo bosque, o aluno Ferdinand Ries apontou um pastor tocando flauta ao longe. Beethoven não ouviu nada. Ries contou anos depois que o mestre ficou calado e sombrio pelo resto do caminho.

No dia 6 de outubro, ele sentou e escreveu uma carta longa aos irmãos, Carl e Johann. Contou o que escondia de todos, explicou por que parecia grosseiro e misantropo (avesso às pessoas) e deixou a eles os poucos bens que tinha.

Depois dobrou o papel e guardou. A carta nunca saiu da gaveta. O que ela dizia, a frase que a sustenta e quem a encontrou, a seção I abre linha por linha.

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I  A Pedra

A carta que ficou na gaveta

O papel que a história batizou de Testamento de Heiligenstadt ocupa quatro páginas na letra apressada de Ludwig van Beethoven, nascido em Bonn em dezembro de 1770. Vem endereçado aos irmãos e, logo no cabeçalho, traz uma falha: o nome de Carl está escrito, o de Johann não.

No lugar do segundo irmão ficou um espaço em branco, repetido nas vezes em que ele deveria aparecer. Ninguém sabe o motivo. Os biógrafos citam duas hipóteses, e nenhuma tem prova: a relação tensa com Johann, ou o desconforto de escrever o prenome do pai, Johann, alcoólatra que surrava o filho ao piano.

A primeira frase do texto propriamente dito é uma defesa contra a fama de grosso que ele carregava em Viena:

“Ó vós, homens que me julgais hostil, teimoso ou misantropo, como sois injustos comigo! Não conheceis a causa secreta do que assim vos parece.”

Ludwig van Beethoven, Testamento de Heiligenstadt, 1802

A causa vem logo abaixo. Pela conta dele, fazia seis anos que o ouvido piorava, e médicos despreparados tinham prometido melhora ano após ano. Em 1802 ele já sabia que a doença era duradoura e que a cura, se viesse, levaria anos ou não viria.

O pior era a vergonha. Ele escreve que não conseguia dizer às pessoas “falem mais alto, gritem, porque sou surdo”. Para um músico, admitir a falha do sentido que deveria ter mais apurado que qualquer outro parecia impossível. Então ele se afastava dos salões e passava por arrogante.

Depois vem a cena do bosque, contada por ele mesmo: a humilhação de ter alguém ao lado ouvindo uma flauta ao longe, ou um pastor cantando, e ele sem ouvir nada. Escreveu que episódios assim o levaram perto do desespero, e que pouco faltou para tirar a própria vida.

Beethoven escreveu a carta mais íntima da vida dele para ninguém ler enquanto vivesse.

A frase seguinte dá sentido ao documento inteiro: “Só ela, a arte, me segurou.” Ele explica que lhe parecia impossível deixar o mundo antes de ter produzido tudo o que sentia dentro de si.

O resto é prático. Pede aos irmãos que dividam a pequena fortuna, que se ajudem e que perdoem um ao outro. Pede que o médico Schmidt descrevesse a doença por escrito quando ele se fosse, para que o mundo entendesse o compositor calado. Pede ainda que guardem os instrumentos que ganhara do príncipe Lichnowsky.

Em 10 de outubro, quatro dias depois, acrescentou um pós-escrito de despedida. A esperança que trouxera para Heiligenstadt, escreveu, caía e murchava como as folhas de outono.

A carta não foi enviada. Ficou entre os papéis dele por quase 25 anos e apareceu em março de 1827, logo após a morte do compositor, achada pelo secretário Anton Schindler e pelo amigo Stephan von Breuning. Saiu impressa em outubro daquele ano no Allgemeine musikalische Zeitung (Gazeta Musical Geral), jornal de Leipzig. Carl, que morrera em 1815, nunca a leu.

 
 

II  O Princípio

Um porquê feito de partituras

O Testamento de Heiligenstadt não termina numa despedida da vida. Termina na despedida de uma esperança, a de cura. A troca é sutil e decide tudo: Beethoven abriu mão de voltar a ouvir bem e ficou com a obra que faltava escrever.

Ele já tinha ensaiado a ideia um ano antes, numa carta ao amigo de infância Franz Wegeler, médico em Bonn e uma das primeiras pessoas a saber da surdez:

“Quero agarrar o destino pela garganta; ele não vai me dobrar por inteiro.”

Ludwig van Beethoven, carta a Franz Wegeler, 1801

A carta aos irmãos dá nome ao método. Ele escreve que a paciência é o guia que precisa escolher agora, e completa: já escolheu. Paciência, ali, não é esperar melhora. É seguir trabalhando com o ouvido que restou.

O princípio por baixo foi formulado décadas depois por Friedrich Nietzsche, no livro Crepúsculo dos Ídolos, de 1889: quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como. O psiquiatra Viktor Frankl, sobrevivente de Auschwitz, fez da frase o eixo do livro Em Busca de Sentido, de 1946.

O porquê de Beethoven não era um sentimento. Era uma lista concreta de peças ainda guardadas na cabeça. Uma pessoa pode duvidar da própria força; é bem mais difícil duvidar de uma sinfonia que só ela é capaz de terminar.

Uma tarefa inacabada segura melhor que uma esperança vaga.

A lista andou rápido. Nos meses seguintes ao outono de 1802 ele esboçou a Terceira Sinfonia, a Eroica (heroica, em italiano), estreada em 1805 e mais longa que as sinfonias escritas até ali. Vieram a ópera Fidelio, a Quinta e a Sexta, a Pastoral, que põe no papel o campo de onde ele saíra arrasado.

A surdez seguiu o curso dela. Por volta de 1818 ele já não acompanhava uma conversa, e as visitas escreviam as perguntas em cadernos de conversação (os blocos onde o interlocutor anotava o que queria dizer). Restaram cerca de 140 deles.

O compositor nunca voltou a ouvir. Também nunca escreveu outra carta como aquela. O documento de Heiligenstadt marca o ponto em que ele parou de esconder a doença de si mesmo, embora ainda a escondesse dos outros por alguns anos.

 

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III  A Forja do Dia

A lista do que falta fazer

Ninguém aqui está perdendo a audição aos 31 anos às portas de Viena. Mas todo mundo atravessa o mês em que a esperança principal (a promoção, o diagnóstico, a relação) cai como folha de outono. A pergunta de Heiligenstadt é prática: o que ainda está por fazer, com prazo e primeiro passo?

1. Escreva a carta que não vai mandar: uma página só, para alguém da família, contando a perda que você esconde. Dobre e guarde. Beethoven só chegou à frase da arte depois de escrever todas as outras.

2. Liste 3 obras por terminar: nada de metas vagas. Um capítulo, uma reforma, um filho a ensinar a nadar. Cada item cabe numa linha e tem um primeiro passo de 15 minutos.

3. Troque a esperança pela paciência: amanhã cedo, faça o primeiro passo de um dos itens antes de abrir as mensagens. Paciência, no sentido de Heiligenstadt, é trabalho diário com o que restou.

O primeiro passo copia a gaveta. A carta não precisou ser lida por Carl para funcionar; bastou ser escrita.

O segundo copia a frase central. Beethoven não se segurou numa ideia de futuro, e sim em peças que ainda não existiam e que só ele escreveria.

O terceiro copia o pós-escrito. Quatro dias depois da carta, ele se despediu da cura e voltou à mesa.

Um caso mostra a sequência. Uma enfermeira de 52 anos recebeu o diagnóstico de artrose nas mãos e soube que deixaria o centro cirúrgico. Escreveu à irmã uma carta que não mandou e listou três obras: formar duas residentes, terminar o curso de Libras (a língua brasileira de sinais) e montar o manual do setor.

Seis meses depois, dava aula na própria ala. A artrose continuava lá; a lista também.

O método tem limite. Uma lista não trata depressão, e Beethoven achou o fio sozinho, como muita gente não acha. Se a ideia de tirar a própria vida aparecer, a conversa é com gente, não com papel: o CVV atende pelo número 188, a qualquer hora.

E a obra não devolve o que foi perdido. Beethoven compôs a Nona Sinfonia completamente surdo. Na estreia, em Viena, em 7 de maio de 1824, ficou no palco marcando o tempo, de costas para a plateia. Quando a música parou, a contralto Caroline Unger o virou de frente para o público.

Diante da perda, escreva o que falta fazer antes de escrever o que acabou.

“Qual obra sua ainda está por fazer, e qual é o primeiro passo dela amanhã?”

Ele viu os aplausos.

 
 
Quiz da edição

No cabeçalho da carta que Beethoven escreveu aos irmãos em Heiligenstadt, o que fica faltando?

AO nome de Carl
BO nome de Johann
CA data da carta
DA assinatura de Beethoven

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