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O papel que a história batizou de Testamento de Heiligenstadt ocupa quatro páginas na letra apressada de Ludwig van Beethoven, nascido em Bonn em dezembro de 1770. Vem endereçado aos irmãos e, logo no cabeçalho, traz uma falha: o nome de Carl está escrito, o de Johann não.
No lugar do segundo irmão ficou um espaço em branco, repetido nas vezes em que ele deveria aparecer. Ninguém sabe o motivo. Os biógrafos citam duas hipóteses, e nenhuma tem prova: a relação tensa com Johann, ou o desconforto de escrever o prenome do pai, Johann, alcoólatra que surrava o filho ao piano.
A primeira frase do texto propriamente dito é uma defesa contra a fama de grosso que ele carregava em Viena:
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“Ó vós, homens que me julgais hostil, teimoso ou misantropo, como sois injustos comigo! Não conheceis a causa secreta do que assim vos parece.”
Ludwig van Beethoven, Testamento de Heiligenstadt, 1802
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A causa vem logo abaixo. Pela conta dele, fazia seis anos que o ouvido piorava, e médicos despreparados tinham prometido melhora ano após ano. Em 1802 ele já sabia que a doença era duradoura e que a cura, se viesse, levaria anos ou não viria.
O pior era a vergonha. Ele escreve que não conseguia dizer às pessoas “falem mais alto, gritem, porque sou surdo”. Para um músico, admitir a falha do sentido que deveria ter mais apurado que qualquer outro parecia impossível. Então ele se afastava dos salões e passava por arrogante.
Depois vem a cena do bosque, contada por ele mesmo: a humilhação de ter alguém ao lado ouvindo uma flauta ao longe, ou um pastor cantando, e ele sem ouvir nada. Escreveu que episódios assim o levaram perto do desespero, e que pouco faltou para tirar a própria vida.
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Beethoven escreveu a carta mais íntima da vida dele para ninguém ler enquanto vivesse.
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A frase seguinte dá sentido ao documento inteiro: “Só ela, a arte, me segurou.” Ele explica que lhe parecia impossível deixar o mundo antes de ter produzido tudo o que sentia dentro de si.
O resto é prático. Pede aos irmãos que dividam a pequena fortuna, que se ajudem e que perdoem um ao outro. Pede que o médico Schmidt descrevesse a doença por escrito quando ele se fosse, para que o mundo entendesse o compositor calado. Pede ainda que guardem os instrumentos que ganhara do príncipe Lichnowsky.
Em 10 de outubro, quatro dias depois, acrescentou um pós-escrito de despedida. A esperança que trouxera para Heiligenstadt, escreveu, caía e murchava como as folhas de outono.
A carta não foi enviada. Ficou entre os papéis dele por quase 25 anos e apareceu em março de 1827, logo após a morte do compositor, achada pelo secretário Anton Schindler e pelo amigo Stephan von Breuning. Saiu impressa em outubro daquele ano no Allgemeine musikalische Zeitung (Gazeta Musical Geral), jornal de Leipzig. Carl, que morrera em 1815, nunca a leu.
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