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ED 158
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As Vestes de Maquiavel na Noite de 1513

Afastado do governo de Florença em 1513, Maquiavel jogava cartas na estalagem e, à noite, vestia trajes de corte para escrever O Príncipe.

Escrivaninha à luz de vela, com trajes de corte na cadeira e roupa suja de lama junto à porta.

San Casciano, 1513: os trajes de corte de Maquiavel

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Exilado não escreve para o príncipe que o exilou. Em dezembro de 1513, numa casa de pedra ao sul de Florença, Nicolau Maquiavel escreveu.

Durante catorze anos ele tinha servido à república florentina. Em 1498, aos 29 anos, assumiu a Segunda Chancelaria (a repartição que cuidava da guerra e das terras sob domínio da cidade). Viajou como enviado à corte do rei Luís XII da França, ao acampamento de César Bórgia e ao imperador Maximiliano.

Em 1506 convenceu o governo a montar uma milícia de camponeses toscanos, em vez de pagar mercenários. Era o projeto da vida dele. Em agosto de 1512, tropas espanholas cercaram Prato, a menos de vinte quilômetros de Florença, e a milícia se desfez em poucas horas. A cidade se rendeu sem lutar.

Os Médici, expulsos em 1494, voltaram depois de dezoito anos fora. O gonfaloneiro (chefe do governo) Piero Soderini fugiu, e a república caiu com ele. Em 7 de novembro, a nova Signoria (o conselho que governava Florença) afastou Maquiavel do cargo. Dias depois, proibiu-o de sair do território florentino por doze meses e exigiu uma fiança de mil florins de ouro.

Ele ainda tentava provar serviço aos novos donos da cidade quando, em fevereiro de 1513, a polícia achou um papel no bolso de um jovem chamado Pietro Paolo Boscoli. Era uma lista de uns vinte nomes de gente que poderia apoiar uma conspiração contra os Médici. O de Maquiavel estava ali.

Ninguém provou que ele soubesse da lista. Bastou o nome escrito. Os guardas o levaram para a prisão das Stinche, no centro da cidade, e o interrogatório começou com uma corda presa ao teto.

Como o ex-secretário saiu dali, e de onde tirou ânimo para escrever ao poder que o tinha derrubado, A Pedra mostra passo a passo, a partir da primeira noite na cela.

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I  A Pedra

A corda das Stinche

Nicolau Maquiavel, Niccolò di Bernardo dei Machiavelli nos registros de Florença, tinha 43 anos quando entrou nas Stinche. O interrogatório usava o strappado (a corda): o preso tem os pulsos amarrados às costas, é erguido até perto do teto e solto de uma vez, parando no ar a poucos palmos do chão.

A queda desloca os ombros. Maquiavel aguentou seis quedas e não confessou nada, porque não havia o que confessar. Boscoli e o amigo Agostino Capponi, os dois autores da lista, foram decapitados em 23 de fevereiro.

Da cela, ele escreveu sonetos a Giuliano de' Médici, irmão do novo chefe da família. Num deles, conta os grilhões nas pernas e os seis puxões de corda nas costas, os piolhos do tamanho de borboletas e o barulho das chaves. Brincava com a própria miséria para não pedir de joelhos.

A soltura veio de Roma. O papa Júlio II morreu em fevereiro, e em 11 de março de 1513 os cardeais elegeram Giovanni de' Médici, que tomou o título de Leão X. Florença festejou com fogueiras e uma anistia (perdão coletivo). Maquiavel saiu na leva dos perdoados.

Livre, mas sem cargo e sem dinheiro, ele se recolheu à propriedade da família em Sant'Andrea in Percussina, perto de San Casciano, uns quinze quilômetros ao sul de Florença. Do outro lado da estrada ficava uma estalagem, o Albergaccio (a estalagem ruim, no apelido local).

Em 10 de dezembro de 1513, ele contou a rotina numa carta a Francesco Vettori, amigo dos tempos de chancelaria e então embaixador de Florença junto ao papa. Acordava com o sol e ia ao bosque que mandava cortar, discutir com os lenhadores. Depois lia Dante, Petrarca e Ovídio à beira de uma fonte.

Vettori respondia de Roma com notícias da corte papal e pedidos de opinião sobre a política da Europa. Para Maquiavel, cada carta era um fio com o mundo de onde tinha sido tirado, e ele caprichava nas respostas como se ainda despachasse para a Signoria.

Na estalagem, comia o que a terra dava e passava a tarde jogando cricca e tric-trac (um jogo de cartas e um de tabuleiro) com o estalajadeiro, um açougueiro, um moleiro e dois forneiros. Brigavam por um centavo, aos gritos, e os gritos se ouviam em San Casciano.

Pela manhã, Maquiavel discutia com lenhadores; à tarde, brigava por um centavo; à noite, escrevia para príncipes.

A virada vinha com o escuro. Na mesma carta, ele descreve o que fazia ao chegar em casa:

“Chegada a noite, volto para casa e entro no meu escritório; e na porta tiro a roupa do dia, cheia de lama e de sujeira, e visto trajes reais e de corte; e, vestido com decência, entro nas antigas cortes dos homens antigos.”

Nicolau Maquiavel, carta a Francesco Vettori, 10 de dezembro de 1513

Ali, conta, conversava com os autores antigos e perguntava a eles a razão de seus atos. Por quatro horas não sentia tédio, esquecia as aflições, não temia a pobreza, e a própria morte não o assustava. Dessas conversas tinha anotado um opúsculo (livro curto), De principatibus (Sobre os principados), que ganharia o título de O Príncipe.

 
 

II  O Princípio

A porta do escritório

Maquiavel não escolheu a corda nem a demissão. Escolheu a porta. A regra que a carta deixa é simples: quem não governa o dia inteiro ainda governa a passagem entre uma parte do dia e outra.

A roupa de corte não mudava nada lá fora. Os Médici continuavam no palácio, o dinheiro continuava curto, os ombros ainda doíam. Mudava o homem que sentava à mesa: ele entrava como secretário de república, não como réu anistiado.

A tarde na estalagem também conta. Ele não fingia que a vida de campo era nobre. Escreveu a Vettori que ali se acanalhava, e mesmo assim jogava. O descanso grosseiro fazia parte do arranjo que segurava a noite séria.

Quinze séculos antes, Sêneca já recomendava esse revezamento a um amigo aflito. No tratado sobre a tranquilidade da alma, lembra que Sócrates brincava com crianças e que Catão relaxava com vinho depois do expediente público:

“É preciso dar descanso ao espírito: descansado, ele se levanta melhor e mais agudo.”

Sêneca, Da Tranquilidade da Alma, 17, cerca de 60 d.C.

Sêneca e Maquiavel combinam numa ordem: primeiro o descanso sem pretensão, depois a hora séria, com a fronteira marcada. O florentino acrescentou o gesto concreto, a troca de roupa, que torna a fronteira visível para o próprio corpo.

A ordem também não dependia de merecimento. Ele não trocava de roupa só depois de um dia produtivo. Trocava todas as noites, inclusive depois das tardes perdidas no tric-trac, porque o gesto vinha antes do humor e puxava o humor junto.

A roupa de corte não devolvia o cargo a Maquiavel; devolvia o homem que ele era quando tinha o cargo.

No trabalho, a cena se repete com outra roupa: o projeto cancelado, a promoção perdida, a reunião em que a ideia foi descartada. A tentação é carregar a derrota para a tarefa seguinte, e escrever o próximo relatório ainda enlameado.

A porta do escritório, ali, pode durar cinco minutos: levantar, lavar o rosto, arrumar a mesa, abrir só o arquivo da tarefa séria. Parece pouco. Separa a hora de queixa da hora de obra.

Em casa, a passagem é a da chegada. Quem entra ainda dentro do trânsito e das mensagens entrega à família o pior pedaço do dia. Trocar a camisa antes de sentar com os filhos é a versão doméstica dos trajes de corte.

 

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III  A Forja do Dia

Os trajes das quatro horas

A prática de hoje cabe em três momentos e não pede escrivaninha de nogueira nem roupa nova.

1. De manhã, observe a roupa do dia: anote qual assunto chegou cedo e grudou, a mensagem atravessada, a conta, a notícia ruim. Só nomeie, sem resolver.

2. À tarde, cruze uma porta: antes da tarefa que mais importa, faça um gesto físico de troca (lavar as mãos, vestir outra camisa, mudar de cadeira) e trabalhe nela sem interrupção até o alarme.

3. À noite, registre numa linha: escreva o que saiu daquela hora, mesmo pouco, como Maquiavel anotava as conversas com os antigos.

A manhã copia o bosque. Maquiavel sabia exatamente o que o incomodava, os lenhadores, os credores, o silêncio dos Médici, e não fingia esquecer.

A tarde copia a soleira (o degrau da porta). A troca de roupa era curta e física, e acontecia no mesmo lugar todas as noites.

A noite copia o opúsculo. Quatro horas por noite, somadas durante meses, renderam um livro curto de 26 capítulos.

Quem tenta pela primeira vez costuma largar no terceiro dia, quando a tarde enche. O alarme segura a regra: quarenta minutos marcados bastam para a porta valer.

A prática tem limite. Mudar de roupa não paga dívida nem apaga injustiça. Maquiavel passou os anos seguintes pedindo emprego aos Médici, com cartas cada vez mais ansiosas, e a escrivaninha não curou essa humilhação.

Ele dedicou o livro a Lorenzo di Piero de' Médici, sobrinho do papa, na esperança de voltar ao serviço. Não recebeu cargo. Só em 1520 o cardeal Giulio de' Médici lhe encomendou uma história de Florença, com salário modesto.

Entre uma súplica e outra, escreveu a Mandrágora, comédia que fez Florença rir, e os Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. O Príncipe correu em cópias à mão, de mesa em mesa.

Maquiavel morreu em Florença em 21 de junho de 1527, aos 58 anos. Não viu o livro impresso.

Fica a pergunta  ·  até amanhã

Quem imprimiu O Príncipe pela primeira vez, e em que ano?

 
 
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Quantas vezes Maquiavel aguentou o strappado, a corda que deslocava os ombros, nas Stinche sem confessar nada?

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