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Nicolau Maquiavel, Niccolò di Bernardo dei Machiavelli nos registros de Florença, tinha 43 anos quando entrou nas Stinche. O interrogatório usava o strappado (a corda): o preso tem os pulsos amarrados às costas, é erguido até perto do teto e solto de uma vez, parando no ar a poucos palmos do chão.
A queda desloca os ombros. Maquiavel aguentou seis quedas e não confessou nada, porque não havia o que confessar. Boscoli e o amigo Agostino Capponi, os dois autores da lista, foram decapitados em 23 de fevereiro.
Da cela, ele escreveu sonetos a Giuliano de' Médici, irmão do novo chefe da família. Num deles, conta os grilhões nas pernas e os seis puxões de corda nas costas, os piolhos do tamanho de borboletas e o barulho das chaves. Brincava com a própria miséria para não pedir de joelhos.
A soltura veio de Roma. O papa Júlio II morreu em fevereiro, e em 11 de março de 1513 os cardeais elegeram Giovanni de' Médici, que tomou o título de Leão X. Florença festejou com fogueiras e uma anistia (perdão coletivo). Maquiavel saiu na leva dos perdoados.
Livre, mas sem cargo e sem dinheiro, ele se recolheu à propriedade da família em Sant'Andrea in Percussina, perto de San Casciano, uns quinze quilômetros ao sul de Florença. Do outro lado da estrada ficava uma estalagem, o Albergaccio (a estalagem ruim, no apelido local).
Em 10 de dezembro de 1513, ele contou a rotina numa carta a Francesco Vettori, amigo dos tempos de chancelaria e então embaixador de Florença junto ao papa. Acordava com o sol e ia ao bosque que mandava cortar, discutir com os lenhadores. Depois lia Dante, Petrarca e Ovídio à beira de uma fonte.
Vettori respondia de Roma com notícias da corte papal e pedidos de opinião sobre a política da Europa. Para Maquiavel, cada carta era um fio com o mundo de onde tinha sido tirado, e ele caprichava nas respostas como se ainda despachasse para a Signoria.
Na estalagem, comia o que a terra dava e passava a tarde jogando cricca e tric-trac (um jogo de cartas e um de tabuleiro) com o estalajadeiro, um açougueiro, um moleiro e dois forneiros. Brigavam por um centavo, aos gritos, e os gritos se ouviam em San Casciano.
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Pela manhã, Maquiavel discutia com lenhadores; à tarde, brigava por um centavo; à noite, escrevia para príncipes.
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A virada vinha com o escuro. Na mesma carta, ele descreve o que fazia ao chegar em casa:
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“Chegada a noite, volto para casa e entro no meu escritório; e na porta tiro a roupa do dia, cheia de lama e de sujeira, e visto trajes reais e de corte; e, vestido com decência, entro nas antigas cortes dos homens antigos.”
Nicolau Maquiavel, carta a Francesco Vettori, 10 de dezembro de 1513
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Ali, conta, conversava com os autores antigos e perguntava a eles a razão de seus atos. Por quatro horas não sentia tédio, esquecia as aflições, não temia a pobreza, e a própria morte não o assustava. Dessas conversas tinha anotado um opúsculo (livro curto), De principatibus (Sobre os principados), que ganharia o título de O Príncipe.
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