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As Sementes de Leningrado

No cerco de 1941, os funcionários do instituto de Vavilov guardaram 250 mil amostras de semente e nenhum deles comeu um grão.

Pacotes de sementes sobre uma mesa coberta de geada.

Leningrado, 1942: a coleção intacta

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Quem passa fome come o que tem à mão. No inverno de 1941, em Leningrado, um grupo de botânicos tinha toneladas de grão à mão e não comeu.

Leningrado, hoje São Petersburgo, ficou cercada pelo exército alemão a partir de 8 de setembro de 1941. Os trilhos para o resto da União Soviética foram cortados. A única ligação com o país era o lago Ladoga, atravessado de barco no verão e de caminhão sobre o gelo no inverno.

A cidade inteira ficou presa dentro do cerco. Em novembro, a ração oficial de pão para quem não trabalhava em fábrica caiu para 125 gramas por dia, uma fatia fina com serragem e celulose misturadas à farinha.

Na praça de Santo Isaac, no centro, ficava o Instituto de Plantas Cultivadas, o VIR (a sigla russa do instituto). Nas salas do prédio havia caixas de metal e de madeira com cerca de duzentas e cinquenta mil amostras de semente, tubérculo e raiz, juntadas em expedições por cinco continentes.

A coleção tinha sido montada pelo diretor, o botânico Nikolai Vavilov. Ele acreditava que cada variedade antiga de trigo, arroz ou batata trazia uma defesa própria contra praga, seca ou frio. A fome do futuro, dizia, se resolveria cruzando essas variedades.

Era, portanto, uma coleção de comida. Arroz, milho, trigo, ervilha, amendoim e amêndoa, em pacotinhos de papel etiquetados, a poucos metros de funcionários que emagreciam a cada semana.

Os ocupantes também sabiam o valor daquilo. Nas estações agrícolas soviéticas que ficaram atrás da linha alemã, perto da cidade, tropas recolheram sementes e mandaram para institutos da Alemanha.

Lá dentro, o prédio virou depósito vigiado por gente faminta. A cada manhã, quem estava de turno abria a porta de uma sala cheia de alimento e saía dela de mãos vazias.

A primeira parte da edição segue quem ficou de guarda, um por um, e o preço de cada turno.

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I  A Pedra

Os guardas da praça de Santo Isaac

Nikolai Vavilov não estava no prédio quando o cerco começou. Em agosto de 1940, a polícia política soviética o prendeu numa expedição na Ucrânia, acusado de sabotar a agricultura. O motivo real era a briga com Trofim Lysenko, agrônomo protegido por Stalin que negava a genética.

Sem o diretor, a coleção passou aos cuidados dos funcionários. Parte das amostras seguiu de trem para Krasnoufimsk, nos Urais, no verão de 1941. A maior parte continuava nas salas quando os trilhos foram cortados.

Os botânicos organizaram turnos de vigia. O prédio não tinha aquecimento nem luz, e as janelas quebradas pelas bombas foram tapadas com tábuas. Ninguém entrava sozinho nas salas de semente: as portas abriam com duas pessoas presentes.

O primeiro inimigo foram os ratos. Famintos como a cidade, eles derrubavam caixas das prateleiras e roíam os pacotes. Os funcionários amarraram as caixas umas às outras, para que nenhum rato conseguisse derrubar uma sozinha.

O segundo inimigo foi o frio. Semente congelada e úmida perde a força de brotar. Os guardas queimavam móveis e papel velho em pequenos fogareiros para manter algumas salas acima do ponto de congelamento.

O terceiro foi a fome dos próprios guardas. Em janeiro de 1942, Dmitri Ivanov, especialista em arroz, faleceu de fome na sala onde guardava milhares de pacotes de arroz.

Georgi Kreier, responsável pelas plantas medicinais, também sucumbiu. Lilia Rodina, que cuidava da aveia, foi outra. A lista do instituto termina em nove nomes.

Alexander Shchukin cuidava das plantas oleaginosas (as que dão óleo, como o amendoim e a amêndoa). Os colegas o encontraram sem vida na mesa de trabalho. Na mão havia um pacote de amêndoas que ele separava para a coleção.

Nove funcionários do instituto faleceram de fome durante o cerco. Nenhum abriu um pacote da coleção para comer.

As batatas pediam outro cuidado. Tubérculo não espera parado numa caixa: volta para a terra ou apodrece. Na primavera de 1942, Vadim Lekhnovich e Abraham Kameraz levaram as batatas para um campo perto da linha de frente e plantaram sob tiro de artilharia.

Os dois colheram no outono e guardaram as batatas novas no porão do instituto. A coleção de batata atravessou o cerco viva, plantada e replantada pelas mãos de quem tinha fome dela.

O cerco foi rompido em 27 de janeiro de 1944, depois de quase novecentos dias. A coleção chegou ao pós-guerra praticamente inteira e voltou a abastecer agrônomos da União Soviética.

Vavilov não viu. Condenado à pena capital, teve a sentença trocada por vinte anos de prisão e faleceu de fome em 26 de janeiro de 1943, numa cela de Saratov, no sul da Rússia. Foi reabilitado pela Justiça soviética em 1955.

 
 

II  O Princípio

O que está com você não é seu

Os guardas de Leningrado tinham fome, tinham a chave e tinham uma justificativa pronta. Uma amostra a menos, entre duzentas e cinquenta mil, ninguém notaria. Comer um pacote não teria sido crime aos olhos de quem morria de inanição na rua.

Anos depois, Vadim Lekhnovich explicou a recusa a um jornalista. Comer a coleção, disse, seria comer o trabalho da vida dele e dos colegas, e comer a comida que alimentaria o país depois da guerra.

A frase separa duas posições. O dono pode gastar o que é dele. O guardião (quem recebeu algo para manter e entregar adiante) não pode, mesmo quando precisa. A diferença não está no objeto, está no papel de quem segura.

Vavilov tinha deixado essa postura dita em público. Em 1939, numa reunião no próprio instituto, quando os aliados de Lysenko pressionavam os geneticistas a abandonar a ciência que praticavam, ele respondeu:

“Iremos para a fogueira, arderemos, mas não recuaremos das nossas convicções.”

Nikolai Vavilov, discurso no Instituto de Plantas Cultivadas, Leningrado, 1939.

A fogueira veio para ele. Para os funcionários veio a fome, e eles mantiveram a convicção que tinham herdado do diretor.

A palavra técnica para o que guardavam é germoplasma (o material genético de uma planta, preservado na semente ou no tubérculo). Uma variedade perdida não volta. Se um tipo antigo de trigo resistente à seca some da coleção, some do mundo.

Guardar é recusar todo dia o uso que a necessidade parece justificar.

O mesmo papel existe hoje em escala global. Em Svalbard, na Noruega, um cofre cavado na montanha guarda cópias de sementes depositadas por países do mundo inteiro desde 2008.

Em 2015, o ICARDA, centro internacional de pesquisa agrícola sediado em Alepo, na Síria, pediu de volta parte das cópias depositadas no cofre. A guerra tinha fechado o banco de sementes da cidade. As cópias de Svalbard permitiram replantar a coleção no Líbano e no Marrocos.

O guardião raramente é testado por uma grande tentação. É testado pela pequena, repetida, com motivo bom. A senha da empresa emprestada para adiantar um serviço. O dinheiro do condomínio usado para cobrir o mês e devolvido depois.

Em casa, o teste chega pela confiança. O segredo que um amigo contou, repassado só para o cônjuge. A poupança do filho, usada numa emergência que não era dele.

Ninguém nessas cenas se vê roubando. Cada um se vê resolvendo um problema real com o que estava à mão, como os guardas de Leningrado poderiam ter feito, e não fizeram.

 

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III  A Forja do Dia

A sua caixa lacrada

A prática de hoje separa o que é seu do que está com você. Escolha algo que outra pessoa confiou às suas mãos, no trabalho ou em casa, e trate como o VIR tratou as sementes.

1. Manhã, faça o inventário: liste três coisas que estão com você e não são suas. Dinheiro de outro, informação de outro, tempo combinado com outro.

2. Manhã, nomeie o dono: ao lado de cada item, escreva quem confiou aquilo a você. Um nome, não uma instituição genérica.

3. Tarde, ache a sua fome: marque em qual item você já sentiu vontade de usar para resolver um problema seu. A vontade costuma vir com um motivo bom.

4. Tarde, lacre a caixa: crie uma barreira física ou combinada para aquele item. Conta separada, pasta trancada, regra escrita de só abrir com o dono presente, como as duas pessoas na porta das salas de semente.

5. Noite, confira o pacote: antes de dormir, verifique se o lacre resistiu ao dia. Um sim ou um não no caderno.

Um exemplo de escritório. Você administra o orçamento de um projeto que é do time inteiro. O lacre é uma planilha aberta para todos, com cada gasto lançado no dia.

Um exemplo de casa. Seu filho guarda as moedas num cofre de porquinho. O lacre é a regra de nunca pegar emprestado dali, nem para o pão da manhã.

O passo 3 é o mais difícil. A tentação do guardião não parece tentação, parece solução. Escrever a vontade no papel tira dela o disfarce de necessidade.

O passo 4 copia o método da praça de Santo Isaac. Os botânicos não confiavam só na própria força de vontade; montaram regras que impediam o deslize mesmo no pior dia.

O lacre protege a coleção nos dias em que o guardião está fraco.

Qual pacote está nas suas mãos hoje, fechado, esperando que você não o abra?

O instituto ainda funciona na praça de Santo Isaac e leva o nome de Vavilov desde 1967.

O pacote de amêndoas estava fechado.

 
 
Quiz da edição

No instituto VIR, em Leningrado, quem foi encontrado sem vida na mesa de trabalho com um pacote de amêndoas na mão?

ADmitri Ivanov, especialista em arroz
BAlexander Shchukin, responsável pelas plantas oleaginosas
CGeorgi Kreier, responsável pelas plantas medicinais
DLilia Rodina, responsável pela aveia

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