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Nikolai Vavilov não estava no prédio quando o cerco começou. Em agosto de 1940, a polícia política soviética o prendeu numa expedição na Ucrânia, acusado de sabotar a agricultura. O motivo real era a briga com Trofim Lysenko, agrônomo protegido por Stalin que negava a genética.
Sem o diretor, a coleção passou aos cuidados dos funcionários. Parte das amostras seguiu de trem para Krasnoufimsk, nos Urais, no verão de 1941. A maior parte continuava nas salas quando os trilhos foram cortados.
Os botânicos organizaram turnos de vigia. O prédio não tinha aquecimento nem luz, e as janelas quebradas pelas bombas foram tapadas com tábuas. Ninguém entrava sozinho nas salas de semente: as portas abriam com duas pessoas presentes.
O primeiro inimigo foram os ratos. Famintos como a cidade, eles derrubavam caixas das prateleiras e roíam os pacotes. Os funcionários amarraram as caixas umas às outras, para que nenhum rato conseguisse derrubar uma sozinha.
O segundo inimigo foi o frio. Semente congelada e úmida perde a força de brotar. Os guardas queimavam móveis e papel velho em pequenos fogareiros para manter algumas salas acima do ponto de congelamento.
O terceiro foi a fome dos próprios guardas. Em janeiro de 1942, Dmitri Ivanov, especialista em arroz, faleceu de fome na sala onde guardava milhares de pacotes de arroz.
Georgi Kreier, responsável pelas plantas medicinais, também sucumbiu. Lilia Rodina, que cuidava da aveia, foi outra. A lista do instituto termina em nove nomes.
Alexander Shchukin cuidava das plantas oleaginosas (as que dão óleo, como o amendoim e a amêndoa). Os colegas o encontraram sem vida na mesa de trabalho. Na mão havia um pacote de amêndoas que ele separava para a coleção.
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Nove funcionários do instituto faleceram de fome durante o cerco. Nenhum abriu um pacote da coleção para comer.
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As batatas pediam outro cuidado. Tubérculo não espera parado numa caixa: volta para a terra ou apodrece. Na primavera de 1942, Vadim Lekhnovich e Abraham Kameraz levaram as batatas para um campo perto da linha de frente e plantaram sob tiro de artilharia.
Os dois colheram no outono e guardaram as batatas novas no porão do instituto. A coleção de batata atravessou o cerco viva, plantada e replantada pelas mãos de quem tinha fome dela.
O cerco foi rompido em 27 de janeiro de 1944, depois de quase novecentos dias. A coleção chegou ao pós-guerra praticamente inteira e voltou a abastecer agrônomos da União Soviética.
Vavilov não viu. Condenado à pena capital, teve a sentença trocada por vinte anos de prisão e faleceu de fome em 26 de janeiro de 1943, numa cela de Saratov, no sul da Rússia. Foi reabilitado pela Justiça soviética em 1955.
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