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As Lentes de Espinosa depois da Expulsão

Banido pela comunidade judaica de Amsterdã em 1656, o jovem Baruch não pediu revisão: virou Bento e foi polir vidro.

Lente de vidro e torno de polir sobre mesa de madeira à luz de vela.

Amsterdã, 1656: o vidro depois da expulsão

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Quem é expulso da própria gente pede para voltar ou briga para ser ouvido. Baruch de Espinosa, aos 23 anos, não pediu readmissão e não brigou.

Baruch de Espinosa nasceu em Amsterdã em 24 de novembro de 1632, filho de Miguel de Espinosa, comerciante de frutas secas e azeite. A família descendia de cristãos-novos (judeus portugueses forçados ao batismo católico), que fugiram da Inquisição para a Holanda, onde podiam rezar sem esconder.

Em casa se falava português. Na sinagoga, o hebraico. No porto, o holandês. O menino estudou na escola da congregação Talmud Torá (ensino da lei, em hebraico), a mesma comunidade que mais tarde o expulsaria.

Miguel faleceu em março de 1654. Baruch e o irmão mais novo, Gabriel, assumiram a firma com o nome Bento y Gabriel de Espinosa. Os negócios iam mal: a guerra entre Holanda e Inglaterra tinha afundado navios e cargas, e a casa herdou dívidas.

Em março de 1656, Baruch recorreu a um tribunal da cidade. Pediu para ser declarado órfão menor de idade, um recurso da lei holandesa, e assim renunciar à herança do pai sem responder pelas dívidas. Escolheu a justiça civil, e não a da comunidade, e os líderes judeus notaram a escolha.

Na mesma época, circulavam relatos sobre as conversas dele. Em depoimentos de 1659 à Inquisição de Madri, dois viajantes espanhóis, frei Tomás Solano y Robles e o capitão Miguel Pérez de Maltranilla, contaram ter ouvido Espinosa dizer em Amsterdã que Deus só existia de modo filosófico e que a alma não sobrevivia ao corpo.

Ele frequentava ainda a casa de Franciscus van den Enden, ex-jesuíta que dava aulas de latim e lia os filósofos novos, como René Descartes. O latim abriu para ele uma estante inteira fechada aos rabinos da congregação.

No verão de 1656, os homens do conselho que governava a comunidade tomaram uma decisão sobre ele. A primeira seção abre na sinagoga, no dia em que a sentença foi lida em voz alta.

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I  A Pedra

Maldito de dia e de noite

A resposta de ontem

Em que dia Selassié voltou a entrar em Adis Abeba?

Em 5 de maio de 1941, exatos cinco anos depois de Badoglio tomar a capital. Selassié voltou com tropas etíopes e a Gideon Force do oficial britânico Orde Wingate, depois de a Itália perder a África Oriental na Segunda Guerra. Reinou até 1974.

Em 27 de julho de 1656, na sinagoga da congregação Talmud Torá, em Amsterdã, o conselho dos parnassim (os dirigentes leigos da comunidade) mandou ler o herem (a excomunhão judaica) contra Baruch de Espinosa.

O texto, escrito em português, falava das “más opiniões e obras” do jovem e das “horrendas heresias que praticava e ensinava”. O texto não dizia quais eram. Os registros da comunidade não guardaram a lista, e os historiadores discutem o motivo exato até hoje.

A pena, essa sim, vinha clara. Espinosa ficava excluído e afastado do povo de Israel, “maldito de dia e maldito de noite, maldito em seu deitar e maldito em seu levantar”.

Junto vinham instruções práticas. Ninguém podia falar com ele por boca nem por escrito, fazer-lhe qualquer favor, ficar sob o mesmo teto ou a menos de quatro côvados (cerca de dois metros) dele, nem ler papel algum feito ou escrito por ele.

O herem era comum em Amsterdã. A comunidade usava a pena contra quem comprava carne de açougue não autorizado ou desrespeitava o conselho, e quase sempre ela caía depois de um pedido de perdão e uma multa. A de Espinosa foi a mais dura registrada ali, e o texto não previa volta.

Espinosa não estava na sinagoga. Não mandou carta ao conselho, não pediu audiência, não pagou multa. Pierre Bayle, no Dicionário Histórico e Crítico de 1697, conta que ele escreveu em espanhol uma defesa contra a sinagoga; nenhuma cópia foi encontrada, e ninguém sabe se ela existiu.

A família obedeceu ao decreto. Gabriel seguiu com a firma sem o irmão e anos depois emigrou para a ilha caribenha de Barbados, e dali para a Jamaica. As irmãs também se afastaram.

O decreto cortou a fala dos outros com ele; deixou intacta a conversa dele consigo mesmo.

Espinosa trocou o nome. Baruch quer dizer “bendito” em hebraico; ele passou a assinar Bento, em português, e Benedictus, em latim. O sentido continuou o mesmo, em outra língua.

Também trocou de ofício. Deixou o comércio e aprendeu a polir lentes, o vidro curvo usado em óculos, microscópios e telescópios. Era trabalho de oficina, feito à mão com um torno, areia e pó cada vez mais fino.

Ficou alguns anos em Amsterdã e, em 1661, mudou para Rijnsburg, vila perto de Leiden. Em 1663 foi para Voorburg, e em 1670 para Haia, sempre em quartos alugados.

As lentes saíam boas o bastante para os cientistas da época. O físico holandês Christiaan Huygens, que construía telescópios, elogiou o polimento dele em cartas ao irmão Constantijn.

 
 

II  O Princípio

O que o decreto não alcança

Epicteto abre o Manual com uma divisão: há o que depende de nós e o que não depende. O juízo, o desejo e a ação ficam no primeiro grupo; o corpo, a fama, os cargos e a opinião alheia, no segundo.

O herem cabia inteiro no segundo grupo. Os homens do conselho decidiram, um leitor leu, a comunidade obedeceu. Espinosa não podia mudar uma palavra do texto nem a conduta de quem o seguia.

Restava a ele a resposta. E as respostas comuns estavam à mão: pedir readmissão, pagar a multa e calar; ou ir à praça, escrever panfletos e transformar a expulsão em briga pública.

As duas deixavam o conselho no centro da vida dele. Na primeira, a opinião dos parnassim decidia quem ele era. Na segunda, decidia o assunto dos anos seguintes.

Espinosa saiu pela terceira porta. Mudou o nome, mudou o ofício e foi trabalhar no que dependia dele: as lentes durante o dia e a filosofia à noite.

Anos depois, ele mesmo deixou a regra por escrito, no começo do Tratado Político:

“Procurei cuidadosamente não ridicularizar, não lamentar nem detestar as ações humanas, mas compreendê-las.”

Bento de Espinosa, Tratado Político, capítulo 1, parágrafo 4, 1677.

A frase serve também para os homens da sinagoga. Nas cartas de Espinosa que chegaram até nós, não há queixa contra o conselho que o expulsou.

Quem gasta a vida respondendo ao decreto alheio entrega ao decreto o resto da vida.

O princípio tem custo. Espinosa perdeu a herança, a firma, a família e a convivência com a língua da infância. Viveu com pouco, em quartos alugados, comendo mingau e passas, segundo o biógrafo Johannes Colerus, que em 1705 conversou com os donos da última casa onde ele viveu.

Também tem limite. A calma de Espinosa não era passividade. Em 1670, ele publicou sem nome o Tratado Teológico-Político, defesa da liberdade de pensar, e o livro foi proibido na Holanda em 1674.

Em 1672, quando uma multidão em Haia linchou os irmãos Johan e Cornelis de Witt, líderes da república, Espinosa escreveu num cartaz “Ultimi barbarorum” (os últimos dos bárbaros) e quis pregá-lo no local. O dono da casa, Hendrik van der Spyck, trancou a porta e o impediu de sair.

Ele sabia reagir e escolhia onde. Contra a violência pública, quis protestar; contra a sentença sobre a própria pessoa, preferiu o trabalho.

 

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III  A Forja do Dia

Polir a lente do dia

A prática de hoje copia a oficina de Rijnsburg. Serve para o dia em que alguém decide sobre você sem perguntar: a demissão, o grupo que exclui, a crítica que corre pelas costas.

1. Separe o decreto da resposta: escreva numa folha o que foi decidido sobre você e, abaixo, o que ainda depende de você. Epicteto começava por essa divisão.

2. Recuse o tribunal errado: não leve a briga para o lugar onde quem decidiu tem a palavra final. Espinosa não pediu audiência ao conselho.

3. Troque o nome, mantenha o sentido: ajuste a forma de se apresentar sem negar quem você é. Baruch virou Bento, e “bendito” continuou no nome.

4. Dê um ofício às mãos: escolha um trabalho concreto, com começo e fim no mesmo dia, para dar forma aos dias depois do corte. As lentes pagavam o aluguel e ocupavam o corpo.

5. Guarde a reação para o que é público: proteste contra a injustiça feita aos outros, como no caso dos De Witt, e trate a ofensa pessoal com trabalho.

Veja um exemplo de escritório. Você descobre pelo grupo da empresa que foi tirado de um projeto sem aviso. A resposta pronta é a mensagem longa no mesmo grupo. Você anota o que foi decidido, pede ao gestor só a informação prática e passa a tarde terminando a entrega do outro projeto.

O passo 2 é o mais difícil. A vontade de ser ouvido por quem decidiu parece justa, e muitas vezes é. Mas o conselho já tinha dado a sentença; voltar a ele era aceitar que só ele podia absolver.

O passo 4 tem lastro físico. Polir lente pede atenção total: a pressão errada risca o vidro, e o pó fino exige horas de paciência. Espinosa passou anos nesse ritmo.

A sentença era dos outros; a curva da lente era dele.

Qual decisão alheia está ocupando hoje o espaço do seu trabalho?

Em 1673, o eleitor palatino Carl Ludwig ofereceu a Espinosa a cátedra de filosofia da Universidade de Heidelberg. Ele recusou por carta, dizendo não saber até onde iria a liberdade de filosofar prometida.

Escreveu a Ética durante anos e preferiu não publicá-la em vida. Faleceu em Haia em 21 de fevereiro de 1677, aos 44 anos, de doença nos pulmões; uma hipótese antiga, sem prova, liga o mal ao pó de vidro das lentes.

Os amigos publicaram a Ética no mesmo ano, nas Obras Póstumas, sem o nome dele na capa, só as iniciais B.d.S.

O herem segue valendo.

 
 
Quiz da edição

Segundo o decreto de excomunhão lido na sinagoga em 27 de julho de 1656, a que distância mínima a comunidade deveria manter de Baruch de Espinosa?

ADois côvados, cerca de um metro
BSeis côvados, cerca de três metros
CQuatro côvados, cerca de dois metros
DO decreto não especificava distância

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