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A Última Liberdade de Frankl
Auschwitz, 1944: tomaram o casaco com o livro dentro. Em Türkheim, com tifo, Viktor Frankl o refez em papéis soltos.
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O casaco que levava o livro escondido
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Na madrugada de 19 de outubro de 1944, um trem de carga parou na rampa de Auschwitz, na Polônia ocupada. Vinha de Theresienstadt, o gueto que os nazistas mantinham ao norte de Praga, e trazia um psiquiatra vienense de 39 anos chamado Viktor Frankl. Frankl carregava pouca bagagem e um segredo. Costurado no forro do casaco estava o manuscrito do primeiro livro dele, um tratado sobre como o médico pode ajudar o paciente a encontrar sentido na vida. Trabalhava nele havia anos. Não existia outra cópia. Na fila da seleção, um oficial da SS olhava cada prisioneiro e movia o dedo indicador: esquerda ou direita. Frankl ainda não sabia o que cada lado significava. Foi mandado para a direita, a fila de quem ia trabalhar. Depois veio o galpão da desinfecção. Os guardas mandaram largar tudo no chão: malas, relógios, alianças, roupas. Frankl se aproximou de um prisioneiro veterano e tentou negociar. Mostrou o casaco, falou do manuscrito, disse que era o trabalho de uma vida inteira. O veterano abriu um sorriso, primeiro de pena, depois de zombaria, e respondeu com uma palavra só, que Frankl registraria anos mais tarde: "Besteira!" O casaco ficou na pilha. Os recém-chegados saíram do chuveiro com o corpo raspado, sem nenhum objeto além do cinto e, para alguns, dos óculos. Frankl receberia mais adiante o número 119.104, que passou a valer mais que o nome. Ele escreveu depois que, naquele galpão, riscou mentalmente a vida anterior inteira. Não sabia ainda que a mãe tinha chegado ao mesmo campo dias antes, nem que a esposa, separada dele na rampa, seguiria para outro destino. Tinha perdido o livro, a profissão, a roupa e o nome. Restava um corpo cansado e uma cabeça que ainda pensava. Seis meses mais tarde, num campo da Baviera, ardendo em febre, ele tentaria o que parecia impossível: reescrever o livro perdido sem mesa, sem caderno e sem saber se veria o fim da semana. Como conseguiu e o que salvou daquele barracão está na faixa I. Continue lendo ↓
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I A Pedra
Os papéis de Türkheim
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Viktor Emil Frankl passou poucos dias em Auschwitz. No fim de outubro de 1944 foi transferido para Kaufering III, um dos subcampos de Dachau, na Baviera, onde os prisioneiros cavavam fundações para bunkers de fábricas de aviões.
A rotina era frio, sopa rala e doze horas de pá. Frankl, médico de formação, foi tratado como qualquer outro braço. Em março de 1945 aceitou ser enviado a Türkheim, um campo menor para onde a SS mandava os doentes de tifo, com a promessa de trabalhar como médico.
Lá, pegou a doença que devia tratar. O tifo exantemático (infecção transmitida pelo piolho do corpo) provoca febre alta e delírio. Frankl sabia que muitos doentes que caíam no sono no pico da febre não acordavam, e decidiu passar as noites acordado.
Precisava de algo que prendesse a mente. Escolheu o livro perdido. Em 26 de março de 1945 fez 40 anos no barracão, e um companheiro de campo conseguiu para ele um presente: um toco de lápis e alguns formulários da SS em branco.
Nos versos desses formulários e em pedaços de papel que achava pelo chão, Frankl começou a reconstruir o manuscrito em notas taquigráficas (escrita rápida por sinais abreviados, usada por secretários e repórteres). Letra miúda, frases cortadas, só o esqueleto de cada capítulo.
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“Estou convencido de que devo a minha sobrevivência, entre outras razões, à decisão de reconstruir aquele manuscrito perdido.”
Viktor Frankl, Em Busca de Sentido, 1946
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Em 27 de abril de 1945, tropas americanas chegaram a Türkheim. Frankl estava magro e fraco, mas vivo, e os papéis continuavam com ele.
Voltou a Viena em agosto. Ali soube do resto. O pai, Gabriel, tinha sucumbido em Theresienstadt em 1943. A mãe, Elsa, fora levada à câmara de gás em Auschwitz. O irmão, Walter, também não saiu de lá. A esposa, Tilly, ficou em Bergen-Belsen, nas semanas seguintes à libertação do campo. Da família próxima, sobrou a irmã Stella, que emigrara para a Austrália antes da guerra.
Frankl assumiu a chefia de neurologia da Policlínica de Viena e usou as notas de Türkheim para fechar o livro. Ärztliche Seelsorge (Cuidado Médico da Alma), lançado no Brasil como Psicoterapia e Sentido da Vida, saiu em 1946.
Antes disso, ainda em 1945, ele ditara em nove dias um segundo livro: o relato dos campos, com o título Um Psicólogo no Campo de Concentração. Em português, virou Em Busca de Sentido. Em 1991, um levantamento da Biblioteca do Congresso americano com o Book-of-the-Month Club o pôs entre os dez livros mais influentes dos Estados Unidos.
Frankl casou de novo, com Eleonore Schwindt, deu aulas em Viena e em universidades americanas e desenvolveu a logoterapia (terapia centrada na busca de sentido, do grego logos, sentido). Aprendeu a pilotar avião depois dos 60 anos. Encerrou a vida em Viena, em setembro de 1997, aos 92.
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II O Princípio
O que ficou fora do confisco
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Onde resta um resto de escolha, é ali que se governa.
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Faça a lista de Frankl no galpão de Auschwitz. O casaco: tomado. O manuscrito: tomado. A família: espalhada por campos que ele nem conhecia. A saúde, o horário, o prato, o nome: tudo decidido por outros.
Parece que não sobra nada. Sobrou uma parte pequena e decisiva, a que ele usou em Türkheim. O que fazer com a noite de febre. Onde pôr a atenção. Que sentido dar ao lápis que um amigo arranjou.
Os estoicos chamavam essa separação de dicotomia do controle (a divisão entre o que depende de mim e o que não depende). A formulação mais citada veio de um homem que também conheceu o cativeiro: Epicteto, nascido escravo na Frígia, na atual Turquia, e libertado em Roma.
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“Entre tudo o que existe, uma parte depende de nós e outra não depende. Dependem de nós o juízo, o impulso, o desejo e a recusa.”
Epicteto, Manual, c. 125 d.C.
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O Manual (Encheirídion, em grego, livro de mão) foi compilado por Arriano, aluno de Epicteto, a partir das aulas do mestre. A lista é curta de propósito. O corpo, a reputação, os bens e os cargos ficam do lado de fora.
Frankl não citava Epicteto nos relatos dos campos, e chegou à mesma divisão por observação. Contou ter visto prisioneiros que atravessavam os barracões consolando os outros e dando o último pedaço de pão. Eram poucos, escreveu, mas bastavam para provar que ainda havia escolha ali dentro.
Ele também fez questão de uma ressalva. Não julgava quem cedia. Escreveu que, entre os que voltaram, muitos sobreviveram por acaso, e que os melhores, em geral, não voltaram. A escolha interior não garante o desfecho. Ela decide só quem a pessoa é enquanto o desfecho não chega.
A mesma divisão serve longe de qualquer campo. No trabalho, a demissão que veio por corte de custos está fora do seu alcance. A forma como você conversa com a equipe no último dia, e o que faz na primeira manhã sem crachá, está dentro.
Em casa, o diagnóstico de um pai não depende de você. A presença na consulta, a paciência na terceira pergunta repetida e o telefonema ao irmão com quem você não fala dependem.
O erro comum é gastar a força toda na coluna de fora. Reclamar do chefe, reler a notícia, discutir com o trânsito. A coluna de dentro fica sem ninguém cuidando dela.
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