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A Última Carta de Epicuro
Atenas, 270 a.C.: com a bexiga travada pela pedra, o filósofo ditou a Idomeneu uma carta sobre alegria e um pedido pelos órfãos de um amigo.
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Atenas, 270 a.C.: a carta a Idomeneu
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Q uem sente dor fala da dor. Em 270 a.C., em Atenas, Epicuro sentia a maior que o corpo dele já tinha conhecido e ditou uma carta sobre outra matéria. Epicuro de Samos tinha 72 anos. Nascera em 341 a.C. numa colônia ateniense na ilha de Samos e, havia mais de três décadas, ensinava num terreno com horta nos arredores de Atenas, comprado por volta de 306 a.C. Os alunos chamavam o lugar de Jardim, e a escola inteira ficou conhecida pelo apelido. No Jardim entravam mulheres, escravos e estrangeiros, gente que as outras escolas da cidade deixavam no portão. Comia-se pão e água e, nos dias bons, um pote de queijo. Epicuro ensinava que a vida feliz pedia pouco: amigos, comida simples e a cabeça livre de medo. Na velhice, o corpo cobrou caro a doutrina da vida tranquila. Segundo o biógrafo Hermipo de Esmirna, citado séculos mais tarde por Diógenes Laércio, uma pedra se formou na bexiga do filósofo e fechou a passagem da urina. A doença durou 14 dias. Duas semanas de urina presa envenenam um corpo devagar. A bexiga incha, o ventre arde, a febre sobe e não baixa. Não havia cirurgia segura para retirar o cálculo (a pedra que se forma dentro do órgão), e os médicos gregos conheciam bem o limite do próprio ofício. Os amigos se revezavam no quarto. Alguns tinham vindo de Lâmpsaco, na costa da atual Turquia, onde Epicuro ensinara antes de fundar o Jardim. Outros moravam ali mesmo, entre os canteiros de verdura. No último dia, Epicuro chamou quem escrevesse por ele. Não ditou um tratado nem uma defesa da escola contra os rivais. Ditou uma carta curta a um aluno antigo que vivia longe, em Lâmpsaco. O que a carta diz sobre a dor, com que palavras clínicas ele a descreveu e o que pediu ao amigo na última linha estão na faixa I. Continue lendo ↓
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I A Pedra
A carta a Idomeneu
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O destinatário era Idomeneu de Lâmpsaco, aluno de Epicuro desde a juventude e homem de cargo público na cidade dele. A carta chegou até nós porque Diógenes Laércio, biógrafo grego do século III d.C., a copiou no Livro X de Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, dedicado inteiro a Epicuro.
O texto é curto. Abre pela data, e a data soa como provocação:
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“Escrevo-te neste dia feliz, que é também o último da minha vida.”
Epicuro, Carta a Idomeneu, 270 a.C., em Diógenes Laércio, Vidas e Doutrinas dos Filósofos Ilustres, Livro X
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Logo em seguida vem o diagnóstico, sem enfeite. Epicuro escreve que sofre de estrangúria (micção dolorosa, gota a gota, com espasmo da bexiga) e de disenteria (inflamação do intestino, com cólica e evacuação de sangue), e que as dores são tão grandes que nada poderia aumentá-las.
A estrangúria é o sintoma da pedra que Hermipo descreveu: a bexiga quer esvaziar e não consegue, e cada tentativa vem com uma cãibra que dobra o corpo ao meio. A disenteria somava ao quadro a febre, a sede e a perda de líquido que um velho de 72 anos não repõe.
Os dois males juntos, no 14º dia de doença, deixavam pouco espaço para qualquer outra sensação. Epicuro não disfarça o tamanho do sofrimento. Chama as dores pelo nome médico e diz que estão no máximo.
Na frase seguinte, ele põe algo contra elas. Contra todas essas dores, escreve, opõe a alegria da alma pela lembrança das conversas que teve com Idomeneu.
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Epicuro não negou a dor: pôs na balança, contra ela, a memória de uma amizade.
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As conversas não estão descritas. A carta não diz sobre o que mestre e aluno falaram, em que anos, nem em que cidade. Os estudiosos supõem que fossem de filosofia, porque era o que unia os dois, mas o texto não informa, e nenhuma outra fonte antiga conta.
A última frase muda de assunto. Epicuro pede que Idomeneu, à altura da dedicação que sempre mostrou a ele e à filosofia, cuide dos filhos de Metrodoro.
Metrodoro de Lâmpsaco tinha sido o discípulo mais próximo de Epicuro, quase um sócio na escola. Partira cerca de sete anos antes do mestre, por volta de 277 a.C., e deixara um filho e uma filha ainda jovens.
O testamento de Epicuro, que Diógenes Laércio também copiou, confirma a preocupação. Nele, o filósofo manda que a renda do Jardim sustente os filhos de Metrodoro e que a menina se case, quando tiver idade, com um homem da escola escolhido por Hermarco de Mitilene, o sucessor.
Hermipo conta o final. Epicuro entrou numa banheira de bronze com água morna, pediu vinho puro, bebeu e recomendou aos amigos que se lembrassem das doutrinas. Pouco depois, parou de respirar.
Ninguém sabe se Idomeneu recebeu a carta com o remetente ainda vivo, nem o que fez pelos órfãos. As fontes antigas não registram o destino dos dois filhos de Metrodoro depois de 270 a.C., e nenhum documento posterior preencheu a lacuna.
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II O Princípio
A dor na balança
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A dor ocupa o corpo inteiro; a atenção escolhe ao lado de quê ela vai morar.
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Epicuro fez carreira explicando que a dor tem limite. No Jardim, ensinava que o medo da dor costuma pesar além da própria dor, porque o medo antecipa o sofrimento e o estica no tempo.
A quarta das 40 máximas que os discípulos guardaram dele trata do assunto sem rodeio:
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“A dor contínua não dura muito na carne.”
Epicuro, Máximas Principais, IV, c. 300 a.C.
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A máxima completa separa dois casos. A dor extrema dura pouco, porque ou passa ou leva o corpo junto. A dor crônica, a que se arrasta por meses, quase sempre deixa espaço para prazeres maiores que ela no mesmo corpo.
A carta a Idomeneu é o teste da própria doutrina. Ali a dor não era leve nem passageira; estava no máximo, e o filósofo sabia que o corpo não sairia dela. Restava o outro prato da balança.
O pensamento não anestesia a bexiga, e Epicuro nunca afirmou que anestesiava. Afirmou que a mente tem matéria própria (lembrança, amizade, compreensão) e que pode escolher em qual delas se demorar enquanto o corpo sofre.
Fora do Jardim, o gesto aparece em qualquer sala de hospital. Um homem de 60 anos em tratamento contra um câncer passa as tardes de quimioterapia numa poltrona da clínica. A náusea vem em ondas, e ele não consegue impedir.
Ele leva no celular as fotos de uma pescaria que fez com o irmão no litoral. Entre uma onda de enjoo e a próxima, conta ao enfermeiro como fisgou um robalo grande na última hora da maré. A náusea continua. A tarde ganha outra matéria.
Em casa, a mãe com enxaqueca, deitada no quarto escuro, pede à filha que sente na beira da cama e conte como foi a escola. A cabeça segue latejando; o quarto ganha uma voz conhecida.
Nos dois casos, a lembrança e a conversa funcionam como Epicuro escreveu: um peso posto contra a dor, que não a anula e impede que ela seja a única presença no quarto.
A carta guarda uma segunda lição, mais rara. Com as dores no máximo, Epicuro gastou a última frase pedindo pelos filhos de outro homem. A dor estreita o mundo até o tamanho do corpo; a última linha da carta abre o mundo até Lâmpsaco.
Quem sofre tende a falar só do sofrimento, e com razão. A carta mostra que a atenção, mesmo presa a uma cama, ainda alcança alguém de fora. Cuidar de outra pessoa é também um modo de pensar contra a dor.
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