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A Resposta de Poro
Em 326 a.C., ferido e vencido às margens do Hidaspes, o rei indiano foi levado ao vencedor e escolheu a palavra com que seria tratado.
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A coroa que não foi entregue no Hidaspes
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O rei vencido pede pela própria vida. Em 326 a.C., às margens de um rio no norte da Índia, um rei vencido e ferido foi levado à presença do homem que acabara de destruir o seu exército e pediu outra coisa. A pergunta que ele recebeu parecia generosa. Como você quer ser tratado. Quem faz uma pergunta dessas já ganhou tudo que havia para ganhar, e a resposta do outro não altera nada no campo. Altera apenas o lugar que o vencido vai ocupar dali em diante, e quem escolhe esse lugar é ele. Havia dois caminhos confortáveis, e os dois entregavam o mesmo resultado. Pedir a vida em nome dos filhos, invocando piedade, e sair dali vivo e reduzido a suplicante. Ou negociar utilidade, oferecer soldados, elefantes, rotas e conhecimento do terreno, e sair dali vivo e reduzido a fornecedor. Nas duas hipóteses a coroa fica no chão. Poro escolheu um terceiro caminho, que cobra caro porque não vem com garantia nenhuma. Respondeu com o cargo, não com a situação. Disse ao vencedor que fosse tratado como rei, e ao ser perguntado se não queria acrescentar mais nada, respondeu que tudo estava contido naquela palavra. Repare na aritmética do momento. Ele tinha perdido o exército, perdido um filho no primeiro choque de cavalaria e sangrava de várias feridas. Nada do que estava à vista sustentava a palavra que ele usou. A palavra vinha de outro lugar. Um vencedor que ouve um pedido de clemência recebe uma informação confortável: o outro já aceitou o lugar novo. Um vencedor que ouve o cargo dito em voz firme fica com um problema nas mãos, porque precisa decidir se contradiz a palavra ou se a confirma diante do próprio exército. Esse outro lugar de onde a palavra veio é o que interessa aqui. A identidade que sobrevive à derrota não se decide na hora da derrota, e o comportamento de Poro nas horas anteriores explica por que a frase soou verdadeira em vez de patética. Continue lendo ↓
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I A Pedra
I, O rei em cima do elefante
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Em 326 a.C., às margens do Hidaspes, o rei indiano Poro perde a batalha para Alexandre, é levado ferido à presença do vencedor e responde que quer ser tratado como rei.
Rio Hidaspes, maio de 326 a.C. Alexandre tinha atravessado o Indo e recebido a submissão de Âmbi, o governante de Taxila. Poro reinava sobre o território entre o Hidaspes e o Acesines, recusou a convocação para prestar homenagem e postou o exército na margem oriental do rio, com a linha de elefantes voltada para a água.
O rio estava cheio pelas chuvas de monção e a travessia direta era suicídio. Alexandre passou semanas fingindo. Mandava destacamentos subirem e descerem a margem à noite, com barulho e tochas, forçando Poro a deslocar tropa atrás de cada movimento. Depois de repetir a manobra vezes suficientes, os indianos pararam de reagir.
Na noite em que a tempestade cobriu o barulho, Alexandre marchou com a força de assalto cerca de vinte e sete quilômetros rio acima e atravessou por uma ilha coberta de mata. O terreno da outra margem estava encharcado. Os carros de guerra indianos, a arma mais rápida de Poro, atolaram antes de entrar em combate.
Poro virou a frente do exército para o norte e avançou com a linha de elefantes. Os macedônios não tentaram furar essa linha. Os arqueiros e os lanceiros atacaram os condutores e as patas dos animais até que os elefantes recuassem sobre a própria infantaria, e a cavalaria fechou o cerco pelos flancos. No primeiro choque, um filho de Poro caiu à frente da carga.
O que aconteceu depois separa Poro de outros reis derrotados por Alexandre. Dario tinha abandonado o campo em Isso e de novo em Gaugamela, deixando família e exército para trás. Poro continuou no alto do elefante enquanto a linha inteira desmoronava, tomou um golpe no ombro direito, a parte do corpo que a armadura deixava exposta quando ele erguia o braço para lançar, e só recuou quando a sede e o sangue o venceram.
Alexandre mandou Âmbi, o rival que tinha aberto a estrada para os macedônios, chamá-lo à rendição. Poro deu meia-volta com o elefante e ergueu a lança contra ele. Foi preciso enviar Meroes, um velho conhecido, para que aceitasse descer e beber água antes de ser levado.
Segundo Arriano, quando o levaram diante do vencedor, Alexandre perguntou como ele queria ser tratado. Poro respondeu que fosse tratado como rei. Alexandre insistiu, perguntando se não havia mais nada a pedir. Poro disse que tudo estava contido naquela palavra.
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“Trata-me, ó Alexandre, como um rei.”
Arriano, Anábase de Alexandre, Livro V, 19, século II
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Alexandre devolveu a Poro o reino que tinha acabado de tomar, acrescentou território de povos vizinhos ao domínio dele e o manteve como governante da região. Poro sustentou a aliança até o fim da campanha. Na mesma margem, Alexandre fundou duas cidades, uma delas com o nome do cavalo que morreu depois daquela batalha.
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II O Princípio
II, O nome que você usa quando perde
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Derrota tira tudo que você tem, e cobra do que você é apenas aquilo que já estava decidido antes dela.
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A cena costuma ser lembrada pela grandeza de Alexandre, e a leitura perde o mecanismo que dá para levar embora. Quem produziu o desfecho foi Poro, na escolha de uma palavra. Ele não descreveu a situação em que estava, descreveu o posto que ocupava, e obrigou o outro lado a responder ao posto.
Vale separar as duas descrições possíveis de qualquer pessoa em desvantagem. Existe a circunstância, que muda em um dia, se perde por decisão alheia e não depende de você. E existe o posto, que é o conjunto de responsabilidades que você assume mesmo quando ninguém está pagando por elas. Quem se descreve pela circunstância entrega ao outro a caneta que define quem ele é.
No trabalho, a diferença aparece no dia em que a circunstância vira ruim. Demitido, você pode dizer que está desempregado ou dizer que faz determinado ofício e está entre contratos. Com o projeto cancelado, você pode dizer que perdeu o projeto ou apresentar o problema que sabe resolver. Diante do cliente que escolheu o concorrente, você pode reclamar do preço ou manter a mesma postura que tinha quando ele comprava.
Fora do trabalho, o desenho é o mesmo com temperatura mais alta. Quem passa por uma separação pode se apresentar como abandonado ou como pai que continua no posto todos os dias. Quem enfrenta um diagnóstico difícil pode virar o diagnóstico ou continuar sendo quem era, agora com uma agenda de tratamento junto. A frase que a pessoa repete sobre si mesma nos primeiros meses costuma decidir os anos seguintes.
Repare no efeito que a descrição produz em quem está do outro lado. Diante de alguém que se apresenta como derrotado, o vencedor arruma a conversa em torno do que vai conceder, e concessão é sempre revogável. Diante de alguém que responde do posto, o vencedor precisa lidar com um interlocutor, e interlocutor recebe acordo, não esmola.
Existe um limite honesto na tese e ele precisa ficar visível. Poro voltou ao trono porque Alexandre precisava de um administrador forte numa fronteira distante, e a firmeza dele coincidiu com o interesse do outro. Postura não garante desfecho nenhum, e quem promete que dignidade sempre é recompensada está contando uma história falsa. O que a postura garante é uma coisa só: você não termina o episódio tendo colaborado com a própria redução.
E há o caso que a cena não cobre. Às vezes o que se chama de dignidade é só orgulho recusando ajuda de que a pessoa precisa. O teste que separa os dois leva alguns segundos: pergunte se a sua resposta protege o trabalho que você ainda vai fazer ou apenas a imagem que os outros têm de você. Poro aceitou água, aceitou tratamento das feridas e aceitou servir sob um comando estrangeiro. O que ele não aceitou foi a palavra com que seria chamado.
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