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O ano seguinte foi pior. Em 1937, o Grande Terror, a onda de prisões políticas comandada pelo NKVD (a polícia política soviética), chegou à família dele. O marido da irmã, Mariya, foi preso, e ela foi mandada para o exílio na Ásia Central. A sogra também foi detida.
Em junho, o marechal Mikhail Tukhachevsky, protetor e amigo do compositor desde os anos 1920, foi fuzilado depois de um julgamento secreto. Quem frequentava a casa do marechal passou a ser suspeito.
Naquela primavera, segundo o relato que o próprio Shostakovich fez a amigos, ele foi chamado à Casa Grande, a sede do NKVD em Leningrado. Um investigador chamado Zanchevsky perguntou sobre Tukhachevsky, sobre as conversas no apartamento do marechal e sobre um suposto plano contra Stalin.
Shostakovich negou tudo. O investigador mandou que ele voltasse na segunda-feira para assinar o depoimento. Ele passou o fim de semana se despedindo. Na segunda, apresentou-se na portaria e ouviu que o investigador não viria: Zanchevsky tinha sido preso. Ninguém mais o chamou para aquela sala.
Desse período nasceu o hábito da mala. As prisões do NKVD aconteciam de madrugada, e o preso saía só com a roupa do corpo. Shostakovich deixou pronta uma maleta pequena com roupa de baixo, escova de dentes e cigarros, e passou a dormir vestido.
Depois ele foi além. Em vez de esperar na cama, saía do apartamento à noite e ficava no patamar, junto à porta do elevador, com a mala ao lado. Se os agentes viessem, levariam o homem ali mesmo, sem bater na porta. A mulher, Nina Varzar, e a filha Galina, nascida em maio de 1936, continuariam dormindo.
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Ele não escolhia a hora da prisão. Escolhia onde ela o encontraria.
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Durante o dia, ele trabalhava. A Quarta Sinfonia, começada antes do editorial, ficou pronta em maio de 1936: uma hora de música para uma orquestra enorme, com um final que se desmancha devagar até sumir. Em dezembro, a Filarmônica de Leningrado começou os ensaios com o regente austríaco Fritz Stiedry.
No meio dos ensaios, Shostakovich recolheu a partitura. O motivo exato nunca ficou claro, porque ele mesmo não deixou explicação completa por escrito. Amigos contaram que dirigentes da filarmônica, com medo, pediram a retirada. A obra foi para a gaveta e ficou lá por 25 anos.
Na primavera e no verão de 1937, com Tukhachevsky já fuzilado, ele compôs a Quinta Sinfonia. A estreia foi em 21 de novembro de 1937, na Filarmônica de Leningrado, com o regente Yevgeny Mravinsky, então com 34 anos.
No movimento lento, parte da plateia chorou. No fim, o público ficou de pé e aplaudiu por tanto tempo que Mravinsky ergueu a partitura acima da cabeça. Um jornalista descreveu a obra como “a resposta criativa de um artista soviético a uma crítica justa”, e Shostakovich deixou a frase circular junto do nome dele.
A Quinta o devolveu às salas de concerto. A Quarta só estreou em 30 de dezembro de 1961, em Moscou, regida por Kirill Kondrashin.
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