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A Mala de Shostakovich

Depois do ataque do Pravda em 1936, o compositor esperou a prisão no patamar do elevador, guardou a Quarta Sinfonia e escreveu a Quinta.

Maleta de couro fechada junto à grade de um elevador antigo.

Leningrado, 1937: a mala no patamar

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Artista atacado pelo Pravda se retrata em público na mesma semana. Em 1936, Dmitri Shostakovich não se retratou, voltou para Leningrado e continuou compondo.

Dmitri Dmitrievich Shostakovich tinha 29 anos e era o compositor mais celebrado da União Soviética. A ópera dele, Lady Macbeth do Distrito de Mtsensk, estreou em janeiro de 1934 no Teatro Maly de Leningrado, lotou salas nas duas capitais por dois anos e chegou a ser montada em Nova York e Cleveland.

A história era sombria. Katerina Izmailova, mulher de um comerciante rico do interior russo, se apaixona por um empregado e elimina o sogro e o marido para ficar com ele. A música não pedia licença: metais grosseiros, valsas tortas, uma cena de amor que os trombones imitavam sem pudor.

Em 26 de janeiro de 1936, Josef Stalin foi ver a ópera no Teatro Bolshoi, em Moscou, acompanhado de Vyacheslav Molotov e Andrei Zhdanov. O compositor estava no teatro. Viu que os metais tocavam alto bem embaixo do camarote do governo. Stalin foi embora antes do último ato.

Dois dias depois, Shostakovich comprou o Pravda (o jornal oficial do Partido Comunista) numa estação de trem em Arkhangelsk, no norte, onde fazia uma turnê de concertos. Lá dentro havia um editorial sem assinatura com o título “Caos em vez de música”.

O texto chamava a ópera de barulho, acusava o autor de agradar a burguesia estrangeira e terminava com um aviso: aquele jogo podia acabar muito mal. Em 1936, editorial sem assinatura no Pravda era lido como a voz do próprio Stalin.

Em poucos dias a ópera saiu de cartaz. Colegas que o elogiavam em dezembro subiram em assembleias para condená-lo. Encomendas foram canceladas e a renda da casa encolheu.

Shostakovich não escreveu carta de arrependimento nem trocou de estilo. Fez um preparo menor e mais estranho, e a primeira seção conta qual foi.

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I  A Pedra

A mala junto ao elevador

O ano seguinte foi pior. Em 1937, o Grande Terror, a onda de prisões políticas comandada pelo NKVD (a polícia política soviética), chegou à família dele. O marido da irmã, Mariya, foi preso, e ela foi mandada para o exílio na Ásia Central. A sogra também foi detida.

Em junho, o marechal Mikhail Tukhachevsky, protetor e amigo do compositor desde os anos 1920, foi fuzilado depois de um julgamento secreto. Quem frequentava a casa do marechal passou a ser suspeito.

Naquela primavera, segundo o relato que o próprio Shostakovich fez a amigos, ele foi chamado à Casa Grande, a sede do NKVD em Leningrado. Um investigador chamado Zanchevsky perguntou sobre Tukhachevsky, sobre as conversas no apartamento do marechal e sobre um suposto plano contra Stalin.

Shostakovich negou tudo. O investigador mandou que ele voltasse na segunda-feira para assinar o depoimento. Ele passou o fim de semana se despedindo. Na segunda, apresentou-se na portaria e ouviu que o investigador não viria: Zanchevsky tinha sido preso. Ninguém mais o chamou para aquela sala.

Desse período nasceu o hábito da mala. As prisões do NKVD aconteciam de madrugada, e o preso saía só com a roupa do corpo. Shostakovich deixou pronta uma maleta pequena com roupa de baixo, escova de dentes e cigarros, e passou a dormir vestido.

Depois ele foi além. Em vez de esperar na cama, saía do apartamento à noite e ficava no patamar, junto à porta do elevador, com a mala ao lado. Se os agentes viessem, levariam o homem ali mesmo, sem bater na porta. A mulher, Nina Varzar, e a filha Galina, nascida em maio de 1936, continuariam dormindo.

Ele não escolhia a hora da prisão. Escolhia onde ela o encontraria.

Durante o dia, ele trabalhava. A Quarta Sinfonia, começada antes do editorial, ficou pronta em maio de 1936: uma hora de música para uma orquestra enorme, com um final que se desmancha devagar até sumir. Em dezembro, a Filarmônica de Leningrado começou os ensaios com o regente austríaco Fritz Stiedry.

No meio dos ensaios, Shostakovich recolheu a partitura. O motivo exato nunca ficou claro, porque ele mesmo não deixou explicação completa por escrito. Amigos contaram que dirigentes da filarmônica, com medo, pediram a retirada. A obra foi para a gaveta e ficou lá por 25 anos.

Na primavera e no verão de 1937, com Tukhachevsky já fuzilado, ele compôs a Quinta Sinfonia. A estreia foi em 21 de novembro de 1937, na Filarmônica de Leningrado, com o regente Yevgeny Mravinsky, então com 34 anos.

No movimento lento, parte da plateia chorou. No fim, o público ficou de pé e aplaudiu por tanto tempo que Mravinsky ergueu a partitura acima da cabeça. Um jornalista descreveu a obra como “a resposta criativa de um artista soviético a uma crítica justa”, e Shostakovich deixou a frase circular junto do nome dele.

A Quinta o devolveu às salas de concerto. A Quarta só estreou em 30 de dezembro de 1961, em Moscou, regida por Kirill Kondrashin.

 
 

II  O Princípio

O medo cobra adiantado

O medo cobra antes da hora. A ameaça que ainda não chegou ocupa a noite inteira, e o trabalho que cabe nas mãos fica esperando.

Shostakovich dividiu o problema em dois. A prisão possível ficou com a noite e com a mala, um preparo que custava pouco e terminava ali. O dia ficou com a partitura, a única parte do ano de 1937 que dependia só dele.

Naquele mesmo ano, ele começou a dar aulas de composição no Conservatório de Leningrado. Ia às aulas de manhã, compunha à tarde e, à noite, levava a mala ao patamar. A rotina dava a cada parte do medo um lugar e um horário, e nenhuma delas invadia a outra.

Sêneca escreveu sobre o mesmo mecanismo a um amigo, quando ele próprio vivia sob a vigilância de Nero, o imperador romano:

“São mais numerosos, Lucílio, os males que nos assustam do que os que nos esmagam, e sofremos com mais frequência na opinião do que nos fatos.”

Sêneca, Cartas a Lucílio, carta 13, por volta do ano 64.

A mala resolvia a parte prática do medo em dez minutos. Depois de arrumada, não havia mais nada a preparar para a prisão, e a cabeça podia voltar para a música. O patamar protegia a família do susto da madrugada.

A Quarta mostra o custo do outro caminho. A partitura original se perdeu durante a Segunda Guerra Mundial, e a estreia de 1961 só aconteceu porque as partes de cada instrumento tinham ficado guardadas na biblioteca da filarmônica. A obra escondida por medo quase sumiu de vez.

No trabalho, o mesmo medo chega como boato de corte. A empresa vai demitir, dizem no corredor, e a semana passa em conversas sobre quem sai. O preparo que cabe nas mãos é curto: atualizar o currículo numa tarde, fazer a conta de quantos meses a reserva aguenta, mandar duas mensagens a contatos antigos. Feito o preparo, o relatório da sexta volta a ter dono.

Em casa, ele chega como exame marcado. O resultado sai em dez dias, e os dez dias viram plantão de pesquisa na internet. O preparo cabe numa folha: as perguntas para o médico, quem vai junto à consulta, o que muda na agenda se a notícia for ruim. O resto dos dez dias volta para os filhos.

A mala arrumada encerra a parte do medo que se resolve com as mãos. O resto da noite volta para o trabalho.

Shostakovich não venceu o medo. Ele o confinou a uma maleta e a um patamar.

 

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III  A Forja do Dia

Arrume a sua mala

A prática de hoje copia a maleta. Escolha uma ameaça que ainda não chegou e vem ocupando as suas noites, no trabalho ou em casa.

1. Manhã, nomeie a ameaça: escreva numa linha o que você teme que aconteça. Uma frase, com sujeito e data, como “posso perder o cargo em dezembro”.

2. Manhã, separe o que é seu: abaixo da frase, liste o que você controla diante dela. A decisão da diretoria fica fora. O currículo, a reserva e os contatos ficam dentro.

3. Tarde, arrume a mala: faça uma única ação de preparo, que caiba em até meia hora. Atualizar um documento, marcar uma conversa, separar um valor.

4. Noite, registre o lugar do medo: antes de dormir, anote em uma linha quanto tempo o assunto ocupou o seu dia depois do preparo.

Um exemplo de escritório. A ameaça é o corte anunciado para o trimestre. A mala é o currículo revisado e salvo, com a lista de três pessoas a procurar se a notícia vier.

Um exemplo de casa. A ameaça é o resultado de um exame. A mala é a folha com as perguntas ao médico, presa na geladeira, e a combinação de quem vai junto.

O passo 3 pede pouco de propósito. A maleta de Shostakovich cabia numa mão, e o tamanho pequeno permitia que ela ficasse pronta e esquecida ao lado da porta.

O passo 4 mostra o efeito. Se o medo seguiu ocupando a noite depois da mala pronta, ele está cobrando por algo que você já pagou.

O preparo feito devolve o dia à obra.

Que ameaça ocupa hoje as suas noites, e cabe numa mala pequena?

Shostakovich viveu até 1975 e escreveu mais dez sinfonias. Em 1948, o Partido o atacou de novo, e de novo ele esperou no patamar.

Ninguém subiu.

 
 
Quiz da edição

Quem regeu a estreia da Quinta Sinfonia de Shostakovich, em 21 de novembro de 1937, na Filarmônica de Leningrado?

AKirill Kondrashin
BYevgeny Mravinsky
CFritz Stiedry
DZanchevsky

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