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Cerca de quatro mil sobreviventes chegaram a Canúsio sem ninguém no comando. Numa casa da cidade, os jovens nobres já discutiam em qual costa desembarcar.
Nenhum oficial superior sobrou para dar ordens. Depois do 2 de agosto de 216 a.C., o que restou do exército consular romano se espalhou pela Apúlia em grupos pequenos. Cerca de quatro mil homens alcançaram Canúsio, a cidade mais próxima que ainda abria os portões, e ficaram ali sem comando formal.
Uma matrona apuliense chamada Busa abriu a própria fortuna para os fugitivos e forneceu trigo, roupa e dinheiro de viagem. O Senado a homenagearia depois da guerra. Enquanto ela alimentava a tropa, dois tribunos militares assumiram o que sobrava da hierarquia: Ápio Cláudio Pulcro e Públio Cornélio Cipião, de vinte anos.
O tamanho do estrago não tinha precedente na história da cidade. O exército consular foi cercado e desfeito numa tarde só. Entre os que ficaram no campo estava o cônsul Lúcio Emílio Paulo, e com ele oitenta homens de posto senatorial que serviam como voluntários.
Aníbal andava solto na Apúlia com a cavalaria intacta. Roma ficava a mais de trezentos quilômetros ao norte, sem exército de campo entre ela e ele. Quem estava em Canúsio fazia a conta e chegava sempre ao mesmo resultado.
Foi dentro desse quadro que um grupo de jovens nobres começou a se reunir numa casa da cidade. O nome que puxava a conversa era Lúcio Cecílio Metelo. O plano em discussão: abandonar a Itália, embarcar e oferecer serviço a algum rei do outro lado do mar, porque a república, no cálculo deles, tinha acabado.
Públio Fúrio Filo, filho de um ex-cônsul, estava na sala e saiu de lá direto para os dois tribunos. Contou o que ouviu sem suavizar: alguns dos melhores nomes de Roma já discutiam navios e escolhiam em qual costa desembarcar.
Cipião não convocou conselho. Segundo Tito Lívio, respondeu que a calamidade pedia ousadia e não deliberação, e que quem quisesse a salvação da república pegasse a arma e o acompanhasse naquele instante. Saiu com poucos companheiros e foi até a casa.
Entrou com a espada na mão e encontrou a reunião em andamento. Em vez de discutir, pôs a lâmina diante deles, sobre a mesa em que a conversa acontecia. Depois jurou primeiro, em voz alta, e a fórmula não deixava espaço para interpretação.
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"Juro que não abandonarei a república do povo romano nem permitirei que outro cidadão romano a abandone."
Públio Cornélio Cipião em Canúsio, registrado por Tito Lívio, História de Roma, livro XXII, capítulo 53, c. 25 a.C.
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Terminada a fórmula, ele se virou para Metelo e exigiu o mesmo juramento de cada um dos presentes, avisando que a espada estava desembainhada contra quem recusasse. Todos juraram. Lívio registra que se entregaram à guarda do rapaz como se estivessem diante do próprio Aníbal vitorioso.
A reunião acabou naquele minuto, e o plano acabou com ela. Metelo pagou a conta depois: em 214 a.C. os censores o rebaixaram por causa daquela noite. Os sobreviventes de Canas foram despachados para a Sicília e serviram anos em desgraça, sem licença e sem prêmio.
Catorze anos mais tarde, o tribuno de vinte anos comandava em Zama o exército que encerrou a guerra contra Cartago. As legiões de Canas atravessaram o mar com ele e estavam em campo naquele dia.
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