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Roma julga um livro no ano 25. O historiador defende a obra inteira sem retirar uma linha, e a filha guarda em casa as cópias que os edis não alcançaram.
Roma, ano 25. O Senado se reúne sob o consulado de Cornélio Cosso e Asínio Agripa. Tibério ocupa o trono há onze anos, Sejano comanda o pretório e a delação virou carreira para quem quer subir depressa.
A acusação daquela manhã é nova, e o plenário percebe. Ninguém ali tinha visto ainda um processo cujo objeto fosse um livro. Os acusadores são Sátrio Secundo e Pinário Nata, dois clientes de Sejano.
O réu é Cremúcio Cordo, historiador. A obra em causa são os anais que ele escreveu sobre as guerras civis, publicados anos antes, lidos em público e conhecidos por Augusto ainda em vida.
O crime imputado cabe em duas linhas do texto: ter elogiado Bruto e ter chamado Cássio de o último dos romanos. Tibério acompanha a sessão com o rosto fechado.
Cordo entende o tamanho do processo antes de abrir a boca. Ele não tenta isolar o trecho, não oferece emenda, não promete edição corrigida para a próxima cópia. Ele defende o livro inteiro.
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“Minhas palavras, senadores, são acusadas: de atos sou tão inocente.”
Tácito, Anais, livro IV, c. 116 d.C.
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Depois da abertura, ele vai aos precedentes, um a um. Tito Lívio elogiou Pompeu a ponto de Augusto o chamar de pompeano, e a amizade dos dois seguiu inteira. Asínio Polião e Messala Corvino escreveram com a mesma liberdade sobre os mesmos homens e terminaram a vida cobertos de honras.
Cícero publicou um livro em louvor a Catão, e César respondeu com um discurso, argumento contra argumento, como quem disputa diante de um juiz. As cartas ácidas de Antônio e os versos de Bibáculo e Catulo contra os Césares circularam sem que ninguém acendesse fogueira por causa deles.
O argumento tem base concreta. Bruto e Cássio haviam caído em Filipos mais de sessenta anos antes, e continuavam em estátua e retrato pela Itália, sem que a república voltasse por causa das imagens.
Cordo sai da sessão sem ter retirado uma linha. Em casa, recusa alimento e termina a própria vida antes que a sentença chegue.
O Senado decreta que os edis queimem os livros. Em Roma a ordem é cumprida na praça, com o fogo à vista de quem passava.
A ordem alcança o que estava ao alcance da mão. Cópias já circulavam fora do controle dos edis, e uma parte permanece guardada dentro de casa, com a filha do historiador, Márcia.
Anos depois, com outro imperador no trono, os livros voltam a circular, repostos em público pela mesma filha. Sêneca escreve a ela uma consolação e registra a devolução como obra dela, não como acaso.
Tácito, que preservou a cena nos Anais, deixou o efeito anotado em uma frase seca: perseguir talento aumenta a autoridade do perseguido, e quem tentou apagar um nome só conseguiu vergonha para si e glória para o outro.
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