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Sima Qian aceitou a castração em 98 a.C. Levou o corte na chamada sala do bicho-da-seda (cômodo fechado e aquecido onde os castrados passavam a recuperação, porque o frio podia ser fatal). Tinha perto de quarenta e sete anos.
A razão da escolha vinha de onze anos antes. Em 110 a.C., o pai dele, Sima Tan, também historiador da corte, adoeceu longe da capital. No leito, segurou a mão do filho e pediu que ele terminasse a história que os dois tinham começado.
A obra era o Shiji (Registros do Historiador), uma crônica do mundo conhecido desde os reis lendários até o reinado de Wu. Quando veio a prisão, o texto estava pela metade.
Anos depois, Sima Qian recebeu uma carta de Ren An, velho conhecido que lhe pedia para indicar homens de talento à corte. Sima Qian demorou a responder. Quando escreveu, em 91 a.C., Ren An já estava preso, envolvido na revolta do príncipe herdeiro daquele ano, à espera da execução.
A resposta, chamada Carta a Ren An, é a confissão mais crua da literatura chinesa antiga. Sima Qian conta a vergonha de cada dia, o suor frio que lhe escorria pelas costas quando lembrava da pena, a sensação de não ter rosto diante dos antepassados.
E explica por que não escolheu o fim digno que os nobres da época esperavam dele.
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“Todo homem tem uma só morte. Uma pesa mais que o monte Tai, outra pesa menos que uma pena de ganso. A diferença está no uso que se faz dela.”
Sima Qian, Carta a Ren An, c. 91 a.C.
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Morrer ali, escreveu, seria morrer como uma formiga esmagada, sem deixar nada. Morrer depois de terminar o livro daria peso à vida inteira, inclusive à humilhação.
O Shiji ficou pronto: 130 capítulos, que o próprio Sima Qian contou no posfácio da obra, somando 526.500 caracteres. Ele guardou uma cópia na capital e outra escondida, prevenido contra a destruição do original.
O formato que ele criou, com anais dos imperadores, tabelas cronológicas, tratados e biografias, virou o molde das histórias oficiais chinesas pelos dois milênios seguintes. Entre as biografias há capítulos para comerciantes, bufões da corte e matadores de aluguel, gente que nenhum cronista oficial se dava ao trabalho de registrar.
O caso de Li Ling teve fim amargo. Um ano após a rendição, chegou à corte o boato de que ele treinava tropas xiongnu. O imperador mandou executar a mãe, a esposa e os filhos do general. O boato era falso, o instrutor era outro desertor, mas Li Ling nunca voltou. Viveu nas estepes, casou com uma filha do chefe xiongnu e ali terminou os dias em 74 a.C.
Ren An foi executado, até onde indicam as fontes. Sobre o fim de Sima Qian, nada se sabe: os registros Han não anotam a data nem a causa, e os historiadores estimam que ele tenha desaparecido perto de 86 a.C. O livro só circulou depois, divulgado pelo neto, Yang Yun.
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