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1 leitor escolheu A Lenha de Filopêmen. Sai em 26/09.
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A Carta de Parmênio
Em Tarso, 333 a.C., Alexandre recebe uma acusação contra o próprio médico e bebe o remédio enquanto ele lê.
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A taça e a carta aberta
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O rio Cidno desce das montanhas do Tauro gelado, alimentado por neve, e corta a cidade de Tarso, no sul da atual Turquia. No verão de 333 a.C., um rapaz de vinte e três anos, coberto de suor e poeira da marcha, tirou a roupa e mergulhou nele. O rapaz era Alexandre III da Macedônia, rei havia três anos e já dono da costa da Ásia Menor. Arriano, historiador grego que escreveu a Anábase de Alexandre no século II d.C., conta que ele saiu da água com cãibras, febre alta e insônia. Outros relatos que Arriano consultou falavam apenas de cansaço acumulado. O efeito foi idêntico: o rei caiu de cama. O momento não podia ser pior. Dario III, rei da Pérsia, descia com um exército enorme em direção à Cilícia. Os macedônios estavam longe de casa, numa terra que mal conheciam, e o homem que segurava a campanha inteira ardia em febre numa tenda. Os médicos do acampamento recuaram. Plutarco, na Vida de Alexandre, escrita por volta de 100 d.C., explica o medo: se o tratamento falhasse, a culpa cairia sobre quem o receitou, e os macedônios não perdoariam o homem que perdesse o rei. Ninguém quis arriscar a própria cabeça numa receita. Um só se ofereceu. Filipe da Acarnânia, médico que acompanhava Alexandre desde menino, disse que tinha um purgante forte, capaz de derrubar a febre, e pediu três dias para preparar a dose. Alexandre aceitou. Queria estar de pé antes de Dario chegar. Enquanto o remédio era preparado, um mensageiro atravessou o acampamento com uma carta lacrada. Vinha de Parmênio, o general mais velho e mais experiente do exército, homem que já servia ao pai de Alexandre quando o rei ainda nem tinha nascido. O que estava escrito naquele papel, e o que Alexandre fez com ele na manhã do remédio, é o assunto da primeira faixa desta edição. Continue lendo ↓
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I A Pedra
Um copo e um papel na mesma mão
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Parmênio da Macedônia escrevia com a autoridade de quem comandava metade do exército. A carta, segundo Plutarco, avisava que Filipe da Acarnânia tinha sido comprado por Dario com mil talentos (o talento era uma unidade de peso de prata, e mil deles pagavam uma frota) e com a promessa de casar com uma irmã do rei persa. O remédio, dizia Parmênio, era veneno.
A acusação tinha lógica. Dario perdia terreno havia um ano e sabia que um só copo resolveria o problema macedônio mais depressa que qualquer batalha. Um médico íntimo, sozinho com o rei doente, era o caminho óbvio.
Alexandre leu a carta e, conta Plutarco, não mostrou a ninguém. Guardou o papel debaixo do travesseiro. Não chamou Filipe para interrogatório, não mandou provar a bebida num escravo, não trocou de médico. Esperou.
Na hora marcada, Filipe entrou na tenda com a taça, acompanhado dos companheiros do rei. Alexandre pegou a bebida com uma das mãos. Com a outra, tirou a carta do travesseiro e a entregou ao médico. Enquanto Filipe lia a acusação contra si mesmo, o rei bebia.
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“Foi um espetáculo admirável e digno de teatro: um lia a carta, o outro bebia o remédio, e depois os dois se olharam.”
Plutarco, Vida de Alexandre, 19, c. 100 d.C.
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Plutarco descreve os dois rostos. O de Alexandre, aberto e tranquilo, mostrando confiança no amigo. O de Filipe, transtornado pela calúnia: ele ergueu as mãos ao céu, jurou pelos deuses, se jogou ao lado da cama e pediu ao rei que ficasse calmo e seguisse o tratamento.
Arriano conta a mesma cena com menos teatro. Na versão dele, Filipe leu a carta sem demonstrar medo e apenas disse que o rei ia se recuperar se obedecesse ao que ele mandava. Arriano tira a lição com as próprias palavras: o gesto provou que Alexandre confiava nos amigos e que mantinha a cabeça firme diante do perigo.
O remédio, de fato, foi violento. Plutarco registra que o purgante derrubou o rei: a voz sumiu, a respiração ficou curta, ele perdeu os sentidos e o acampamento achou que a carta de Parmênio estava certa. Filipe ficou à cabeceira, com compressas e cuidados, até a febre ceder.
Em poucos dias Alexandre se mostrou de pé aos soldados, que tinham passado as noites rondando a tenda em silêncio, e o alívio no acampamento, segundo Plutarco, foi tamanho que só se acalmou quando cada um viu o rei com os próprios olhos. Semanas depois, em novembro de 333 a.C., derrotou Dario na batalha de Isso, a poucos dias de marcha de Tarso.
A acusação nunca se provou, e as fontes antigas não registram castigo nem prêmio para Filipe depois da cura: o nome dele simplesmente sai dos relatos. Parmênio teve outro fim. Em 330 a.C., depois de uma conspiração atribuída ao filho dele, Filotas, Alexandre mandou executar o velho general na Média, sem julgamento.
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II O Princípio
A confiança se decide antes da prova
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Quem só confia depois de ter certeza não confia: apenas confere.
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Alexandre tinha duas saídas razoáveis. Podia recusar o copo e esperar a febre passar sozinha, com o risco de encontrar Dario na cama. Ou podia prender Filipe e procurar outro médico, que também teria medo de tratar um rei. Escolheu a terceira: decidir, antes da prova, em quem acreditava, e agir conforme essa decisão.
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“Alexandre, depois de ler a carta da mãe que o prevenia contra o veneno do médico Filipe, tomou a bebida sem se deixar assustar.”
Sêneca, Sobre a Ira, livro II, 23, c. 45 d.C.
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Sêneca conta a história com uma diferença: na versão dele, o aviso vem de Olímpia, a mãe do rei, e não de Parmênio. O filósofo usa o episódio num livro sobre a raiva, como exemplo de quem se recusa a reagir a uma suspeita. A troca de remetente mostra como a cena circulou pelo mundo romano como lição, cada autor ajustando o detalhe que lhe servia.
O ponto estoico está na ordem das coisas. Alexandre não podia controlar o que havia na taça. Controlava o próprio juízo sobre Filipe, formado em anos de convivência, e se recusou a deixar uma carta de segunda mão apagar esse juízo em uma noite.
Serve no trabalho. O gestor que recebe uma denúncia anônima contra alguém da equipe tem a mesma escolha. Pode tratar a pessoa como culpada até prova em contrário, com vigilância, e perder o colaborador mesmo que ele seja inocente. Ou pode entregar a denúncia ao acusado, olhar a reação e decidir com o que sabe dele.
Serve em casa. O casal que ouve de um parente uma suspeita sobre o outro costuma esconder a informação e começar a vigiar em silêncio. Alexandre fez o contrário: pôs o papel na mão do acusado. O segredo guardado corrói a relação mais que a acusação aberta.
Existe um limite honesto. Alexandre apostou em alguém que conhecia desde a infância, com histórico longo de lealdade. Confiar num estranho com a mesma coragem seria imprudência. A lição vale para quem já provou quem é, e pede que você saiba separar as duas situações.
O gesto também protegeu Filipe. Se o rei tivesse guardado a carta e bebido calado, o médico passaria a vida sob suspeita. Entregando o papel, Alexandre transformou a denúncia em algo que os dois atravessaram juntos, diante de testemunhas.
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