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A Canoa de Mau Piailug sem Bússola

Em 1976, um navegador de Satawal levou a Hokulea do Havaí ao Taiti lendo o céu e o mar, e depois ensinou a arte a um havaiano.

Proa de canoa polinésia de casco duplo no mar aberto sob estrelas.

Pacífico, 1976: a Hokulea rumo ao Taiti

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Em Satawal, a arte de navegar passa de avô para neto e não sai da ilha. Mau Piailug a entregou a um havaiano.

Pius Mau Piailug nasceu em 1932 em Satawal, um atol de coral nas Ilhas Carolinas, na Micronésia. Na ilha não havia bússola, mapa nem rádio. Havia canoas, o mar em volta e um punhado de famílias que guardavam o saber de cruzá-lo.

O avô começou a ensiná-lo ainda menino. Contam que o garoto passava horas deitado nas poças da maré baixa, sentindo no corpo o balanço de cada ondulação, até reconhecer pelo movimento de onde ela vinha.

Por volta dos 18 anos, Mau passou pelo pwo (a cerimônia que consagra o mestre navegador nas Carolinas). Daí em diante, podia levar uma canoa a ilhas fora da vista, e tinha o dever de guardar o que aprendera dentro da linhagem.

No Havaí, a mesma arte tinha sumido havia gerações. Em 1956, o historiador neozelandês Andrew Sharp publicou Ancient Voyagers in the Pacific (Antigos Navegadores do Pacífico), defendendo uma tese incômoda: os polinésios teriam chegado às suas ilhas por acaso, empurrados por tempestades, sem rota planejada.

Em 1973, o antropólogo Ben Finney, o artista Herb Kawainui Kane e o velejador Tommy Holmes fundaram em Honolulu a Polynesian Voyaging Society (Sociedade Polinésia de Viagens) para testar a tese no mar. Construíram uma canoa de casco duplo com cerca de 19 metros, lançada em 8 de março de 1975.

Deram a ela o nome de Hokulea, “estrela da alegria”, o nome havaiano de Arcturo, a estrela que passa quase em cima do Havaí.

Faltava quem a guiasse. Nenhum havaiano vivo sabia atravessar o oceano sem instrumentos. Finney buscou nas ilhas da Micronésia e chegou a Mau, um dos últimos mestres em atividade.

Mau aceitou. A primeira seção começa na baía de Honolua, em Maui, na manhã da partida.

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I  A Pedra

34 dias de céu e mar

Em 1º de maio de 1976, a Hokulea deixou a baía de Honolua, em Maui, rumo a Papeete, no Taiti, a cerca de 4.000 quilômetros ao sul. A bordo iam 17 pessoas. Nenhuma levava bússola, sextante ou carta náutica.

Mau Piailug ficava na popa. Dormia pouco, em cochilos curtos, sentado. À noite, acompanhava o ponto do horizonte onde cada estrela nascia e onde se punha; os navegadores das Carolinas dividem o horizonte em 32 desses pontos, e cada um tem nome.

De dia, sem estrelas, Mau lia as ondulações, as ondas longas que o vento distante empurra por milhares de quilômetros. Ele separava pelo balanço do casco a ondulação dominante das menores e mantinha a canoa no mesmo ângulo em relação a ela.

Ao cruzar a zona de calmarias perto do Equador, o céu fechou por dias. Chuva, nuvem baixa, nenhum astro à vista. Mau seguiu pelas ondulações, sentindo o mar pelos pés e pelo corpo, como aprendera nas poças de Satawal.

A tripulação não ajudou. Parte dos havaianos via com desconfiança os cientistas a bordo, a comida racionada gerou brigas, e houve quem trouxesse escondida bebida e maconha. Mau, o estrangeiro do barco, cogitou abandonar a missão.

No convés, a briga era de todos; a leitura do mar era só dele, e ele não largou a leitura.

Perto do fim, Mau passou a vigiar as aves. A andorinha-do-mar-branca dorme em terra e voa ao largo para pescar; ao entardecer, volta para a ilha. Quem vê o bando voltando sabe para onde fica o chão.

Mau também olhava a cor da água e as nuvens paradas no horizonte. Uma nuvem que não anda com as outras costuma estar presa sobre uma ilha, e o mar perto de recife muda de tom e de ritmo.

Em 2 de junho, a tripulação avistou Mataiva, um atol do arquipélago de Tuamotu, exatamente onde Mau esperava encontrar terra. Dali corrigiram o rumo para oeste, rumo ao Taiti.

Em 4 de junho de 1976, depois de 34 dias, a Hokulea entrou em Papeete. Ben Finney, no livro Hokule'a: The Way to Tahiti (Hokulea, o caminho do Taiti), de 1979, conta que cerca de 17 mil pessoas esperavam no porto.

A tese do acaso perdeu força naquela tarde. Uma canoa feita no molde antigo, guiada só por olho e corpo, chegou aonde mirou.

Mau não ficou para a festa. Cansado das brigas a bordo, voltou de avião para Satawal, e a Hokulea fez a viagem de volta ao Havaí com instrumentos. Entre os tripulantes do retorno estava um jovem havaiano chamado Nainoa Thompson.

 
 

II  O Princípio

O mar não obedece, o navegador presta atenção

Mau não mandava no vento, na nuvem, na corrente nem no humor de 17 pessoas confinadas num casco. Mandava no próprio olhar: em qual estrela fixar, qual ondulação seguir, quando confiar numa ave.

Epicteto dividia a vida assim: há o que depende de nós e o que não depende. O navegador vive nessa divisão o tempo todo. Quem gasta a noite reclamando do céu fechado perde a ondulação que ainda está ali, sob o casco.

A segunda escolha de Mau foi mais dura. Na volta para Satawal, ele via os rapazes da ilha indo para a escola, aprendendo a ler bússola e motor de popa. Os mestres envelheciam, e o pwo não acontecia havia anos.

O costume mandava guardar o saber na linhagem. Mau concluiu que, guardado, o saber acabaria com ele. Decidiu ensinar a quem quisesse aprender o ofício a sério, e o primeiro foi Nainoa Thompson.

Em Satawal, houve quem o acusasse de vender o segredo dos antigos. Mau aceitou a crítica como parte do preço e seguiu ensinando.

O método dele não tinha livro. Nainoa passou meses em Honolulu estudando o céu no planetário do Museu Bishop e depois no mar, ao lado de Mau, aprendendo a nomear cada nascer de estrela e a sentir a ondulação pelo casco. Mau corrigia pouco e mostrava muito.

Marco Aurélio deixou escrito o fundamento dessa escolha:

“Nascemos para a cooperação, como os pés, como as mãos, como as pálpebras, como as fileiras dos dentes de cima e de baixo.”

Marco Aurélio, Meditações, livro 2, parágrafo 1, por volta de 170.

A lição vale fora do mar. No trabalho, o funcionário antigo que guarda sozinho o fechamento do mês se torna indispensável e prisioneiro: não tira férias, não muda de função, e o processo some quando ele sai.

Na família, a avó que nunca deixou ninguém ver a receita do bolo leva a receita junto. O neto fica com a lembrança do gosto e nenhuma forma de repeti-lo.

Em 1980, Nainoa Thompson guiou a Hokulea do Havaí ao Taiti sem instrumentos, o primeiro havaiano a fazer a travessia assim em séculos. Mau ia a bordo como reserva e quase não interveio.

Saber guardado termina com quem guarda; saber ensinado atravessa o mar sozinho.

Em março de 2007, em Satawal, Mau conduziu a primeira cerimônia de pwo na ilha em cerca de 50 anos. Consagrou 16 navegadores; cinco eram havaianos, entre eles Nainoa.

 

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III  A Forja do Dia

Ensine uma ondulação

A prática de hoje copia a popa da Hokulea. Escolha um saber que hoje só você domina, no trabalho ou em casa, e passe um pedaço dele a alguém antes de dormir.

1. Manhã, observe: anote um procedimento que, se você sumir amanhã, ninguém sabe fazer. Pode ser o fechamento da planilha, o jeito de acalmar o filho, o conserto da torneira.

2. Manhã, recorte: escolha só uma parte dele, a que cabe em 15 minutos de conversa. Mau ensinou ondulação antes de ensinar estrela.

3. Tarde, ensine uma vez: chame uma pessoa e mostre a parte escolhida fazendo, sem slide e sem manual. Deixe ela repetir na sua frente.

4. Tarde, cale na hora certa: quando ela errar, espere um pouco antes de corrigir. Em 1980, Mau deixou Nainoa decidir o rumo.

5. Noite, registre: escreva uma linha só, com o que ensinou, a quem, e o que ela já faz sem você.

Um exemplo de escritório. Você é a única pessoa da equipe que sabe gerar o relatório trimestral. Na terça, chama a colega mais nova, abre o arquivo, gera a primeira tabela e entrega o teclado para ela gerar a segunda.

Um exemplo de casa. Seu filho de 12 anos nunca trocou um pneu de bicicleta. No fim da tarde, você tira a roda, mostra a primeira alavanca e deixa ele terminar, mesmo que demore o dobro.

O passo 4 custa mais que os outros. Corrigir na hora parece ajuda, mas tira de quem aprende o momento de sentir o mar sozinho. Mau sabia onde estava a terra e ficou quieto.

O passo 5 fecha o dia. A linha da noite mostra se o saber já mudou de mãos ou se ainda mora só com você. Se a pessoa ainda depende de você para tudo, a próxima parte espera; se já fez sozinha, o pedaço seguinte pode ir.

A rota fica com quem leva o barco; o saber fica com quem aprendeu a ler o mar.

Qual saber seu terminaria hoje se você não estivesse aqui amanhã?

Mau Piailug faleceu em 12 de julho de 2010, aos 78 anos. Os navegadores que ele formou seguiram formando outros, no Havaí, no Taiti e na Nova Zelândia.

Entre 2014 e 2017, a Hokulea deu a volta ao mundo guiada pela navegação que ele ensinou.

A Hokulea ainda navega.

 
 
Quiz da edição

Quantos dias durou a travessia da Hokulea entre Maui e Papeete em 1976, guiada por Mau Piailug sem bússola?

A17 dias
B32 dias
C34 dias
D16 dias

Resultado da última edição: 50% acertaram.

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Dia 5 de 7 · a temporada de outubro fecha 31/10

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